Morrer da cura

| 13 Abr 20

Luís não chegou ainda aos quarenta. É solteiro e vive só. Habitando com os pais a mesma cidade, decidiu decretar a sua independência comprando há uns anos um exíguo apartamento. Está agora confinado em casa. Não pode visitá-los, pois tem medo de contaminá-los ou de ser contaminado por eles. Afinal, a mãe ainda trabalha num centro de saúde. Corporalmente, Luís está bem, diz. Mas a “alma” já não está a cem por cento. Nem uma varanda tem onde esticar as pernas, num domicílio pequeno. Se não fossem as compras, que tenta fazer apenas uma vez por semana, já tinha criado musgo (brinca, talvez com olhos tristes). Tem, todavia, medo do seu isolamento. E de si. Do que possa vir a fazer.

Sofia, doente e sozinha, está fechada em casa. Só sai uma vez por semana e diz-me que já fala com as paredes. Sebastião, também isolado numa vivenda da periferia, já nem atende o telefone. Quando lhe pedem notícias por sms diz que não está em condições de falar, mergulhado num desânimo e numa depressão que só ele conhece. Desligou, inclusive, a sua conta numa rede social. Francisca cuida sozinha da mãe viúva e de uma filha pequena. É mãe solteira numa cidade do interior e só pede que não a impeçam de ir a um terreno que possui onde, sozinha, tem oportunidade de se encontrar consigo e de gritar quando é preciso.

António, com mais de setenta anos, não vive só. Tem a mulher consigo. Por enquanto ainda dá uns passeios pela serra, sempre isolado. Não contamina ninguém nem é contaminado. A esposa não o acompanha, pois tem dificuldades de locomoção, a não ser quando vai à horta, já num município diferente do seu, buscar o necessário para as refeições. Pode então acompanhar o marido, pois o carro tem entrada na propriedade. Aí, num pequeno lugar com oito ou nove casas onde apenas dois fogos estão habitados por idosos, António avista a irmã, Domitília. Fica mais descansado ao vê-la, à distância, ainda com saúde. Mais descansado do que ficaria depois de uma conversa telefónica. Tagarelam um pouco, sem se aproximarem – e, dizem, até o dia lhes pesa menos. António sente medo da hora em que o estado de emergência o obrigue a deixar morrer a horta, proibindo-o de ir ao terreno que os pais lhe deixaram. A mulher, Liberdade, não sabe como será se só um deles puder ir ao supermercado. Apenas o marido conduz e ele de compras nada entende.

Domitília é viúva. Vive sozinha, sem transporte. Tem como vizinhos apenas um casal já perto dos oitenta. A filha mora na cidade, a mais de uma dezena de quilómetros. Não é ela, todavia, quem lhe fornece os mantimentos e medicamentos estritamente necessários. Disso se encarrega uma amiga, que vive a dois quilómetros. Como tem carro e conduz, essa vizinha distante faz as compras por ela. Domitília entretém-se na horta, que se estende pelos dois lados de um regato, e junto das capoeiras onde vai recolhendo uns ovos para oferecer a quem a visita. Sente-se aborrecida, agora. Não fossem as idas do irmão António ao terreno fronteiro ao seu e já teria enlouquecido, diz. Idosa activíssima, até ao surgimento do “bicho” nunca parava em casa. Ginástica, música, natação e voluntariado ocupavam-na. Agora, diz, é uma tristeza.

Sílvia vive também sozinha. Trabalha numa repartição pública, de portas fechadas. Tem de ir picar o ponto e despachar papelada em dias sim, dia não. Antes, convivia imenso com muitas amigas e, assim, não sentia a solidão que a rodeia. Coleccionadora de artesanato, não perdia uma feira fosse onde fosse. Todos a conhecem nesse meio. Agora parece um pássaro na gaiola, afirma. Não há feiras. Não há jantares. Não há conversas na pastelaria. Nem sequer no autocarro, pois o medo obriga-a a usar o automóvel nas deslocações. Se não rezasse, diz, já se tinha atirado da janela.

Leonor trabalha num museu, agora fechado. Na escala de serviço, só é obrigada a estar nas instalações um dia por semana. Sozinha. Vive no centro de uma vila do Norte. Há dias quis ir dar um passeio pelo campo com a filha, que já não aguentava ver as paredes, nem as da sua casa e nem as da casa fronteira, do outro lado da rua. A guarda mandou-a parar. Tentaram proibir-lhe a ida e só não o fizeram quando argumentou que num passeio pela localidade poderia encontrar gente e contaminar-se, o que decerto não sucederia entre ervas, arbustos, árvores e pássaros. “Desta vez passa”, responderam-lhe… E quando sentir outra vez necessidade de respirar ar puro?, pergunta.

Poderia continuar a somar narrativas curtas como estas. Só os nomes são fictícios. Se todos os portugueses tentam sobreviver, como podem e sabem, às regras do confinamento, nem todos têm os mesmos meios, a mesma capacidade e o mesmo enquadramento social, familiar e afectivo. Há muita gente isolada ou quase isolada que neste momento corre perigo. As regras são o que são. Por maiores engulhos que nos provoquem, têm de ser cumpridas e a sua discussão deve ficar, por enquanto, em reserva mental. O legislador tem, todavia, a obrigação de acautelar de algum modo estas situações. Tem a obrigação de revelar bom senso. Não pode, em caso algum, matar ou deixar morrer concidadãos nossos – no corpo ou na alma – aplicando o remédio para outra doença.

Não tenhamos dúvidas da real fragilidade de uma parte muito substancial da população portuguesa. São idosos isolados ou pouco acompanhados. São cidadãos, alguns ainda relativamente jovens, com fragilidade psicológica ou tendências depressivas, que a mais pequena rasteira existencial poderá fazer cair. Sobrevivem porque se agarram a pequenas bóias de salvação, a pequenas rotinas, a pequenas tarefas, a escapes salvíficos, mesmo que aos olhos mais sobranceiros pareçam ninharias dispensáveis. Se tudo isso lhes for tirado – em prol, sem dúvida, de um bem maior, que ninguém contesta –, correm o sério risco de naufragar, tornando-se vítimas colaterais da pandemia.

Infelizmente, quando começarem a adoecer ou a morrer de tristeza ou de abandono, quando alguns se suicidarem (sim, digamo-lo), não verão o seu nome nas notícias. A soma dessas vítimas nunca será apresentada diariamente na televisão, nos jornais, na internet. Não seremos martelados por essas estatísticas. Ninguém porá luto por essa boa gente. Mesmo que o número de mortes seja bem superior ao das causadas pelo vírus que caiu sobre nós como um castigo.

Ruy Ventura é escritor e investigador

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