
“Quando saí de casa para ir para a capital ter a minha liberdade total, passaram-se meses e mais meses sem te fazer um telefonema sequer. A minha liberdade que se transformou na minha prisão. Primeiro sem grades, hoje atrás delas.” Foto: Direitos reservados.
Morreste-me, mãe! E estas grades impediram-me de te ir dar o último beijo frio. Ouvia dizer por aqui que dos maiores medos de estar preso era acontecer uma desgraça destas e nós cá dentro, impotentes. Mas só comecei a perceber isso à medida que a tua doença e velhice foram avançando sem hipótese de marcha atrás.
Há quanto tempo eu tinha morrido para ti? Ou há quanto tempo eu me tinha deixado morrer para a família, para a vida, para o teu amor, mãe? Foste a última barreira que tive de avançar para uma vida completamente entregue aos consumos, aos amigos dos quais me tornei escravo, os que estavam ao meu lado apenas por interesse e de quem tu tanto me avisaste que só me iriam calcar e espezinhar.
Há quanto tempo eu já não falava contigo. Quando saí de casa para ir para a capital ter a minha liberdade total, passaram-se meses e mais meses sem te fazer um telefonema sequer. A minha liberdade que se transformou na minha prisão. Primeiro sem grades, hoje atrás delas. E através delas olho o céu escuro e imagino as noites em que olhavas o telefone à espera duma palavra minha que nunca chegou. E eu na rua a remexer caixotes do lixo em busca de restos de comida enquanto, provavelmente, sonhavas em fazer-me o jantar.
Dói-me tanto hoje o quanto te fiz sofrer. O quanto sofreste toda a vida nas mãos de um homem alcoólico e violento e o quanto rezavas para Deus proteger os teus filhos. O quanto deves ter chorado por me ver escorregar lentamente para o fundo do poço sem teres forças para me agarrar e puxar-me para cima. A tua mão dada na minha mão, mas a minha mão a escapar-te entre os dedos, a fugir-te sem querer ficar, a ir-se embora devagar, de vez.
Talvez tenhas pensado que eu não te amava ou que o teu amor não foi suficiente para eu querer ficar, para eu ser um homem em vez de um rato escondido nos esgotos da vida. Mas já não era eu a escolher, mãe. Perdeste-me para a droga. Ela ganhou. Ganha sempre. A tudo e a todos. Perdeste-me mãe, como eu te perdi a ti. Como perdi o meu filho, talvez para nunca mais o ver. Como perdi os meus irmãos: “Para nós morreu, já não temos irmão”, sei que eles dizem. Só a mana ainda me deixa telefonar-lhe mas ainda assim me disse: “Não peças para vir ao funeral. Não me envergonhes perante toda a família ao chegares aqui algemado e na carrinha da cadeia com os guardas ao teu lado.” E não envergonhei. Não te envergonhei pela última vez, mãe. Perdoa-me não ter estado quando te desceram à terra, não ter estado quando me querias ainda abraçar.
Estou a reconstruir-me mãe, vês? Houve pessoas que me ajudaram a sair lá do fundo e algumas que todos os dias acreditam que serei um homem melhor. Ainda vais ter muito orgulho em mim. Prometo!
Mas hoje, mãe, só hoje, por favor, peço-te, se conseguires, perdoa-me!
Lígia Pires é visitadora nos estabelecimentos prisionais de Custóias, Santa Cruz do Bispo e Polícia Judiciária/Porto; este texto é inspirado numa história real e retoma palavras de um recluso.










