Nasceu na Grécia, mas liderou a Igreja Ortodoxa Albanesa durante quase trinta e três anos. Na verdade, ficou conhecido sobretudo por tê-la “ressuscitado”, quando assumiu a sua liderança em 1992, depois de esta ter deixado de ser proibida pelo regime comunista. Desde então arcebispo de Tirana e de toda a Albânia, Anastasios Yannoulatos faleceu este sábado, 25 de janeiro, em Atenas, no seu país Natal, onde estava internado desde o dia 3. Tinha 95 anos e deixou um legado para o mundo inteiro.
Formado em universidades gregas e alemãs antes de atravessar África como investigador, padre missionário e mais tarde bispo, Anastasios gozava de um certo prestígio moral e intelectual no mundo ortodoxo, assinala o jornal La Croix (ligação exclusiva para assinantes). E o facto de ter reerguido a Igreja Ortodoxa Autocéfala da Albânia, um país cuja cultura e religião desconhecia, em muito contribuiu para tal.
Durante 23 anos de período comunista, quando o ateísmo chegou a estar consagrado na Constituição, a Albânia foi um dos regimes mais repressivos em relação às comunidades religiosas. Mas graças a Anastasios, a partir de agosto de 1992, foram reabertas mais de 400 paróquias, construídas dezenas de templos, e a Igreja passou a ter presença na saúde, na educação, e em áreas como o desenvolvimento agrícola e a ecologia. Hoje, o país tem uma maioria muçulmana (56%, segundo dados de 2011), e conta com uma minoria significativa de católicos (10%) e ortodoxos (7%).
Mas a par da missão de reerguer uma Igreja que havia sido esmagada, Anastasios dedicou-se à construção de pontes entre ela e as restantes. Reconhecido como um defensor da paz e do diálogo inter-religioso, o arcebispo ortodoxo participou desde 1993 nos Encontros Internacionais pela Paz no Espírito de Assis, promovidos pela Comunidade de Sant’Egídio, e chegou mesmo a estar nomeado para o Prémio Nobel da Paz, no ano 2000.
Seis anos depois, assumiu a presidência do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), cargo que manteve até 2013. O comunicado da organização em reação ao seu falecimento é expressivo, descrevendo-o como “um influente catalisador no mundo ortodoxo e um gigante na esfera ecuménica”.
“Hoje, lembramos e honramos não apenas as conquistas intelectuais e institucionais e a dedicação ecuménica do Arcebispo Anastasios”, disse o secretário-geral do CMI, Jerry Pillay, “mas também o seu espírito maravilhoso e caloroso, que o capacitou a abrir perenemente canais de reconciliação, renovação e diálogo, mesmo e especialmente em tempos e locais difíceis. Ele deixa para a nossa irmandade mundial um legado inspirador e invejável como uma verdadeira testemunha cristã pela paz, justiça e reconciliação”.
Também o historiador Andrea Riccardi, fundador da Comunidade de Sant’Egídio, escreveu sobre Anastasios: “Apesar da pequenez de sua Igreja, é uma grande figura na Igreja contemporânea: um homem de fé, inspirador de um humanismo ortodoxo que pode dar uma contribuição real para o humanismo global’.

Andrea Riccardi com o arcebispo Anastasios, durante uma visita à Albania, em 2022. Foto © Comunidade de Sant’Egidio
Recorde-se que, em 2015, foi ele o anfitrião, em Tirana, do Fórum Cristão Global, que reuniu 150 líderes e representantes de várias tradições da Igreja de mais de 60 países. E em abril de 2018 recebeu o Patriarca de Moscovo, Cirilo, para aquela que foi a primeira visita de um alto funcionário da Igreja Ortodoxa Russa ao país dos Balcãs. Mas no conflito entre a Rússia e Ucrânia, que tem dividido o mundo ortodoxo, Anastasios não teve dúvidas sobre de que lado ficar, tendo pedido várias vezes “o fim imediato da guerra fratricida da Rússia contra a Ucrânia”.
No último dos mais de 20 livros que escreveu, Coexistence (publicado em seis idiomas em 2022), deixou reflexões sobre a guerra, a destruição da natureza, a pobreza, o terrorismo, e a perspetiva das religiões para o futuro. “É nosso dever não nos rendermos a uma observação e descrição passivas dessas consequências, mas, pelo contrário, devemos lutar por uma globalização da paz, solidariedade e amor”, escreveu. “Para muitos, isso parece utópico, no entanto, continua a ser a visão, o desejo e a luta daqueles que ainda acreditam na necessidade vital de uma coexistência harmoniosa universal que não elimine a singularidade dos povos, mas que utilize criativamente seus talentos”. Anastasios acreditava. E com a sua vida provou que essa coexistência é possível.
Coincidência ou não, morreu no dia em que a Igreja celebrava a conversão de São Paulo, que marcou também o fim da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos.
(Foto de destaque: Anastasios Yannoulatos, arcebispo de Tirana e de toda a Albânia, entre um coro de jovens. © Arquidiocese de Tirana)
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