Morreu João de Almeida, renovador da arquitectura religiosa em Portugal

| 24 Jun 20

João de Almeida. Arquitecto

João de Almeida. Foto: DIreitos reservados

 

 

Em Maio de 2015, manifestava-se, em entrevista ao Expresso um homem “cem por cento contente com a vida” (texto disponível apenas para assinantes). O arquitecto e pintor João de Almeida, fundador do Movimento de Renovação da Arte Religiosa (MRAR) morreu na segunda-feira, em Lisboa, aos 92 anos, na sequência de vários problemas de saúde. Tinha sido internado na madrugada de domingo, no Hospital de São Francisco Xavier, em Lisboa. O seu funeral e cremação será esta quarta, 24 de Junho, às 17h, no cemitério do Alto de São João.

João Paiva Raposo de Almeida nasceu em Lisboa em 1927, dedicou a sua vida sobretudo à arquitectura e também à pintura. Na década de 1950, foi um dos fundadores do MRAR, com os colegas Nuno Portas e Nuno Teotónio Pereira, um movimento essencial na renovação da linguagem das artes e da arquitectura em Portugal, no que à expressão religiosa diz respeito.

A ministra da Cultura, Graça Fonseca, “lamenta profundamente” a morte de João de Almeida, de acordo com notícia da agência Lusa citada na Rádio Renascença.

No seu livro MRAR – Movimento de Renovação da Arte Religiosa – os anos de ouro da Arquitetura Religiosa em Portugal no século XX, o também arquitecto João Alves da Cunha recorda o início do curso na Escola de Belas Artes de Lisboa, onde foi discípulo de Leopoldo de Almeida, Lagoa Henriques e Frederico George. Após ano e meio, João de Almeida decidiu mudar para arquitectura, interrompendo o novo curso para fazer três anos de estágios em Paris, Basileia e Trier.

Em Paris, João de Almeida esteve com os padres dominicanos Marie-Alain Couturier e Pie-Raymond Régamey, os responsáveis da revista L’Art Sacré, que nessa época era uma referência da renovação da arte contemporânea. Foi precisamente o padre Régamey que lhe sugeriu a ida para Basileia, onde se encontrou com Hermann Baur, figura incontornável da arquitectura sacra na Europa Central, que desenhou quase 30 projectos de igrejas em França, Suíça e Alemanha.

Num catálogo de uma exposição dedicada à sua obra, João Pedro Cunha recorda que pela casa de Baur passavam artistas como Albert Schilling, Maria Helena Vieira da Silva, Arpad Szènes e ainda o teólogo, futuro cardeal, Hans-Urs von Balthasar.

João de Almeida. Igreja Santo António de Moscavide

Interior da Igreja Santo António de Moscavide, uma das obras de João de Almeida. Foto © Rui Martins/SNPC

 

“Regressou a Portugal no final de 1952 para entrar no Seminário dos Olivais, em Lisboa, onde esteve até à sua ordenação sacerdotal em 1958”, recorda Alves da Cunha. Entretanto, com o material que trouxe, João de Almeida organizou, com colegas e amigos, a Exposição de Arquitectura Religiosa Contemporânea, em 1953, para a qual escreveu o texto “O sentido da moderna arquitectura religiosa na Suíça”. Da exposição nasceria o MRAR, que juntaria, além de arquitectos, outros artistas como José Escada, Manuel Cargaleiro, Eduardo Nery, Madalena Cabral, entre outros.

Terminou o curso de arquitectura no Porto, mas foi de novo em Lisboa que apresentou o seu projecto final: a igreja da Sagrada Família, em Paço de Arcos, com a qual recebeu a classificação de 20 valores. Nesse mesmo ano, deixaria o ministério de padre, indo para Barcelona estagiar com Oriol Bohigas.

Igreja de Santo António de Moscavide. João de Almeida

Exterior da Igreja de Santo António de Moscavide. Foto © Joao.pimentel.ferreira/Wikimedia Commons

 

Entre a sua vastíssima obra, destacam-se, na arquitectura religiosa, a Igreja de Santo António, (Moscavide, com Freitas Leal), a Igreja do Seminário de Penafirme (remodelação, com Freitas Leal) e a Igreja da Sagrada Família, em Paço de Arcos. João Alves da Cunha sublinha também o enorme contributo de João de Almeida para a renovação da ourivesaria sacra, já que foi autor de “dezenas de cálices, várias píxides, sacrários, castiçais e uma belíssima custódia em prata”.

No campo civil, fundou, com Pedro Emauz Silva, o ateliê ArquiIII, responsável pela reabilitação dos Paços do Concelho de Lisboa, renovação do Museu Nacional de Arte Antiga e reconversão do Convento das Bernardas (Lisboa) e do Convento das Chagas (Vila Viçosa). O ateliê venceu um Prémio Valmor em 1990, com as Residências Príncipe Real (Rua do Século, em Lisboa) e uma menção honrosa do mesmo galardão com o Edifício Administrativo da Expo 98.

João de Almeida foi ainda o autor dos projectos museográficos de grandes exposições como Feitorias da Flandres (Museu Nacional de Arte Antiga, 1992) e Triunfo do Barroco (Centro Cultural de Belém, 1993).

No final de 2012, a Fundação Medeiros e Almeida, onde era um dos administradores, em Lisboa, organizou uma exposição retrospectiva da sua obra completa.

 

Artigos relacionados

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

Espanha: Milhares protestam contra nova lei da educação “laicista” novidade

Milhares de carros encheram as ruas de diversas cidades espanholas este domingo, 22 de novembro, para protestar contra a nova lei da educação, que passou na passada quinta-feira no Congresso espanhol por apenas um voto. A manifestação foi organizada pela plataforma Más Plurales, que considera que a lei aprovada “desvaloriza o ensino da disciplina de Religião na escola” e constitui uma “agressão à liberdade de consciência, a favor da imposição de uma ideologia laicista imprópria de um Estado não confessional”, conforme pode ler-se no seu manifesto.

Posição de Biden a favor do aborto legal faz sentir bispos dos EUA numa “situação difícil”

As posições do Presidente eleito dos EUA, Joe Biden, sobre imigração, ajuda aos refugiados, justiça racial, pena de morte e alterações climáticas dão aos bispos católicos do país “razões para acreditar que a sua fé o levará a apoiar algumas boas medidas”, de acordo com o presidente da Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos (USCCB, na sigla em inglês). Mas o episcopado está de tal modo preocupado com as posições do segundo Presidente católico do país sobre o aborto legal que decidiu criar um grupo de trabalho para tratar o tema. 

Jovens portugueses recebem símbolos da JMJ

Uma dezena de jovens portugueses estarão no Vaticano, no próximo domingo, 22 de Novembro, dia em que a Igreja Católica celebra a liturgia de Cristo Rei, para receber os símbolos da Jornada Mundial da Juventude (JMJ): a cruz peregrina e o ícone de Nossa Senhora Salus Populi Romani – informou o comité local da JMJ.

Rita Valadas nomeada como nova presidente da Cáritas Portuguesa

A Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) nomeou neste sábado, 14 de Novembro, uma nova presidente para a Cáritas Portuguesa: Rita Valadas, que já integrou a direcção da instituição num dos últimos mandatos, sucede no cargo a Eugénio Fonseca, anunciou a CEP no final da sua assembleia plenária, que decorreu em Fátima desde quarta-feira.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

Dia Mundial dos Pobres: Vaticano oferece testes de covid-19 a sem-abrigo e distribui 5 mil cabazes de alimentos

Dia Mundial dos Pobres: Vaticano oferece testes de covid-19 a sem-abrigo e distribui 5 mil cabazes de alimentos

O Dia Mundial dos Pobres deste ano será assinalado, no próximo domingo, 15 de novembro: o Papa celebrará missa com um grupo de 100 pessoas na Basílica de São Pedro, serão oferecidos testes de covid-19 nas instituições do Vaticano que apoiam a população carenciada, e distribuídos cinco mil cabazes de alimentos para ajudar famílias em 60 paróquias de Roma.

É notícia

Entre margens

Um justo chamado Angelo Roncalli novidade

Angelo Roncalli teve um pontificado curto, menos de cinco anos, de 1958 a 1963. Devido à sua idade já avançada e estado de saúde frágil, no momento da sua eleição foi encarado como um Papa de transição. Foi, por isso, com grande surpresa que foi acolhida a notícia da convocação de um concílio ecuménico, o Concílio do Vaticano II, que viria a mudar a vida da Igreja, aproximando-a dos fiéis e reforçando a sua participação litúrgica.

Uma oportunidade para a renovação democrática novidade

Se é importante sublinhar que as identidades pessoais e coletivas configuram convenções socialmente necessárias à convivência, elas constituem, antes de tudo, um desafio e uma tarefa quando reclamam por reconhecimento e justiça no espaço público. No entanto, se exploradas politicamente, dão lugar a expressões de fundamentalismos de vária ordem: muros que separam os “bons” dos “maus”, postos de trabalho para os de “dentro” e não para os de “fora”, entre outros fenómenos conhecidos.

Bater o coração com novas músicas de Abril

Sempre sonhei acordada: como seria se eu tivesse nascido e vivido antes do 25 de Abril? O que faria, que personagem era, quem seria eu dentro de um estado onde parte das minhas liberdades, direitos e garantias eram reduzidos ou inexistentes, se não tivesse a liberdade de conversar com quem eu queria, sobre o que queria? Ou ouvir qualquer tipo de música que me agrada e me faz pensar, ler os livros que bem entendo, dar a minha opinião acerca do que me rodeia?

Cultura e artes

Abrir as “páginas seladas” do livro bíblico do Apocalipse em tempo de pandemia novidade

O livro bíblico do Apocalipse (ou da Revelação) é uma profecia para tempos de crise e por isso é importante abrir agora as suas “páginas seladas”. Com esse mote, a comunidade católica da Capela do Rato propõe três sessões sobre o último dos livros da Bíblia cristã. Uma conferência de João Duarte Lourenço, uma leitura de Luís Miguel Cintra e um percurso proposto por Emília Nadal através da arte inspirada naquele texto serão as três etapas propostas para este itinerário.

Dois retábulos em restauro no Mosteiro de Pombeiro novidade

Os retábulos de Nossa Senhora das Dores e de Santo António (bem como as respectivas esculturas) na nave da igreja do Mosteiro de Santa Maria de Pombeiro (Felgueiras) estão a ser sujeitos a uma operação de conservação e restauro, com o objectivo de melhorar a estabilidade estrutural, valorizar a vertente conservativa e restituir, tanto quanto possível, uma leitura integrada do conjunto.

Sete Partidas

A geração perdida de Aberfan

Infelizmente, para muitos galeses, outubro no seu país significa também relembrar o desastre de Aberfan. Aberfan é uma terra dos vales galeses como qualquer outra: uma série de casas e estabelecimentos que se encontram entre duas montanhas com o ocasional rio a separá-las. Tem um parque, supermercado, pub, correios e cemitério. No dia 21 de outubro de 1966, o cemitério de Aberfan acolheu mais vidas do que merecia.

Aquele que habita os céus sorri

Agenda

Parceiros

Fale connosco