Morreu João Gonçalves, o “padre das prisões”, uma “referência” na atenção aos reclusos

| 9 Dez 20

P. João Gonçalves. Aveiro. Prisões.

P. João Gonçalves, uma “figura incontornável” no que diz respeito ao cuidado pastoral com os reclusos, em Portugal. Foto: Direitos reservados

 

O padre João Gonçalves, coordenador nacional da Pastoral Penitenciária, da Igreja Católica, morreu nesta terça-feira, dia 8, aos 76 anos, informou a Diocese de Aveiro, numa nota publicada na página da diocese na internet. O funeral realiza-se nesta quinta-feira, 10, em Aveiro: às 10h30 o corpo chega à capela do Seminário de Santa Joana; às 14h será celebrada missa de corpo presente; às 15h30 será inumado no cemitério da Gafanha do Carmo (Ílhavo), onde João Gonçalves nascera a 28 de Março de 1944. A nota da diocese recorda a necessidade do respeito pelas normas de segurança em vigor.

O bispo de Santarém, José Traquina, presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana, disse à agência Ecclesia que o padre João Gonçalves foi “uma referência de bem e de cuidado com as pessoas reclusas nos estabelecimentos prisionais”.

“Esse cuidado fazia já parte da sua identidade, de tal modo que ele ficou conhecido entre nós como o padre das prisões”, acrescentou o bispo de Santarém.

O responsável católico recorda “o amor” que João Gonçalves tinha pelas pessoas, bem como o seu trabalho na formação de colaboradores como visitadores aos estabelecimentos prisionais, com uma “dedicação extrema, envolvendo os diversos serviços”. “Foi uma referência para todos nós, no cuidado com os reclusos”, assumiu D. José Traquina. “Estamos gratos a Deus pelo grande sinal de bem, pela grande referência, o grande dom que foi o padre João Gonçalves”.

O padre José Manuel Pereira de Almeida, secretário da mesma Comissão Episcopal, evoca, por sua vez, “a figura incontornável” no que diz respeito ao cuidado pastoral com os reclusos, em Portugal, uma área que, recordou, “ele gostava de chamar a pastoral da pena e da liberdade”.

Pereira de Almeida sublinha que o até agora coordenador nacional da Pastoral Penitenciária viveu uma experiência “única, de intensidade e de duração”, que “tocou muitos corações e abriu esperanças a muita gente”. E acrescentou: “Mesmo quando parecia que nada era possível, ele ia mais longe.”

O secretário da Comissão Episcopal diz agora que assume a missão de continuar o “legado” deixado pelo padre João Gonçalves, que colocou os reclusos e reclusas “no centro das preocupações”.

“A Pastoral Penitenciária diz respeito a todos: as paróquias devem estar abertas a esta dimensão, com atenção aos que estão nas prisões, aos seus familiares e, sobretudo, à inclusão dos ex-reclusos numa vida activa e à prevenção primária”, concluiu.

João Gonçalves foi ordenado pelo bispo D. Manuel de Almeida Trindade a 21 de Dezembro de 1969, na Sé de Aveiro. Entre as várias funções que desempenhou, avultam as que teve na área social: foi capelão do Hospital de Aveiro e da prisão da cidade, coordenador nacional da Pastoral Penitenciária, director das Florinhas do Vouga (uma instituição social da cidade) e responsável da Casa Sacerdotal. Dirigiu também a Irmandade de Santa Joana, recorda a já referida nota da diocese.

Em 2019, no âmbito do Terra Justa – Encontro de Causas e Valores da Humanidade, que se realiza em Fafe, o padre João recebeu o Prémio Gente de Paz e de Justiça. Defensor de um modelo preferencialmente abolicionista, João Gonçalves é o protagonista do livro O Padre das Prisões Portuguesas, da autoria de Inês Leitão, que realizou também um documentário sobre a sua vida e pensamento:

 

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