
Capela na casa-mãe dos Missionários Espiritanos, em Paris, decorada em homenagem ao bispo Jacques Gaillot, que ali residiu desde 1995 e morreu a 12 de Abril de 2023. Foto © Tony Neves.
Dizia que sonhava com “uma Igreja do terreno, da base, de homens e mulheres abertos aos outros, que acolhem e trabalham com os outros, cristãos e cristãs que estão metidos na massa humana, com outros”, porque “os cristãos são o rosto de pessoas que não suportam a injustiça, que se batem pela paz e levam a mensagem, o fermento do evangelho”. O bispo francês Jacques Gaillot, cujas posições provocaram dores de cabeça a ministros da época e ao próprio Papa João Paulo II e ao Vaticano, conhecido pela sua abertura em relação a matérias disciplinares e de doutrina moral, bem como pelo seu apoio a pessoas sem-abrigo, imigrantes ou homossexuais, por exemplo, morreu esta quarta-feira, 12 de Abril, em Paris, na sequência de um cancro fulminante. Tinha 87 anos.
Era um “homem evangélico e atento aos pobres”, como comentou um padre dos Missionários Espiritanos que com ele conviveu na casa onde Gaillot passou a residir desde 1995, depois de demitido pelo Vaticano do cargo de bispo de Évreux.
“Levou até ao fim a sua luta pelos sem-abrigo, pelos indocumentados, pelos refugiados e por reformas profundas na Igreja”, escrevia o antigo jornalista de Le Monde, Henri Tincq, na nota que deixou escrita sobre o bispo, antes de ele próprio morrer, em Março de 2020. “Nunca antes um bispo francês encarnou tão bem o papel de ‘sinal de contradição’ exigido a um cristão”, acrescentava o jornalista, no texto que o jornal agora publicou como obituário de Gaillot (artigo reservado a assinantes).
Nascido a 11 de Setembro de 1935, Jacques Gaillot esteve em Portugal em 1997, em 2004 e 2007. Depois de ter sido forçado pelo Vaticano a sair da diocese de Évreux, no Noroeste de França, em Janeiro de 1995, o bispo foi nomeado como responsável de Parténia, uma diocese extinta no século VII. Essa inexistência física levou-a a abrir uma página na internet, numa altura em que isso era ainda uma novidade e na qual durante vários escreveu um catecismo “alternativo”, trocava correspondência ou facilitava o acesso a páginas de outras instituições e associações.
“Bispo dos outros” foi o título de um dos seus livros e é difícil não ver nele muito do que foi a acção de Gaillot, que foi aparecendo como uma voz solitária no interior do episcopado francês da época: em 1983, um ano depois da sua nomeação como bispo, contestou o apoio condicional da Conferência Episcopal à força dissuasora nuclear francesa; em 1984, defendeu mais a escola laica do que a rede de escolas católicas, colocando-se do lado do governo do Partido Socialista, em 1988, mostrou-se favorável à ordenação de homens casados e, em 1989, também ao alargamento de direitos dos homossexuais.
As suas posições valeram-lhe críticas de vários pares do episcopado, recordadas no texto do Monde: o cardeal Lustiger, arcebispo de Paris, chamou-lhe “irresponsável”. O cardeal Decourtray, presidente da Conferência, disse-lhe que o seu comportamento era “lamentável” e que contradizia “publicamente a disciplina da Igreja” da qual Gaillot era bispo.
Jacques Gaillot – que continuou no activo como bispo e sentindo-se parte da Igreja, ao contrário do que algumas pessoas podiam imaginar – fez o serviço militar na Argélia, o que o levou a interessar-se pelo islão e pela não-violência, como recorda numa entrevista disponível (em francês) no YouTube:
Pressão política
Ordenado padre em Março de 1961, Jacques Gaillot trabalhou em várias estruturas de formação, até ser nomeado bispo de Évreux em Maio de 1982. Na mesma entrevista no YouTube, Gaillot apresentava a sua vocação de padre católico como sendo a de “libertar os presos e devolver às pessoas a si mesmas, à sua liberdade”. Crítico do nuclear, do racismo ou do apartheid, o bispo defendia a autodeterminação palestiniana e curda e era favorável à ordenação de mulheres, por exemplo.

Jacques Gaillot numa manifestação em 2011: a sua presença pública foi uma das causas da demissão. Foto Marsupilami92/Wikimedia Commons.
Terá sido, no entanto, a pressão política junto do Vaticano a forçar a sua demissão de bispo de Évreux (cidade a cerca de 100 quilómetros a Oeste de Paris). Gaillot já era conhecido pelas posições polémicas que tomava sobre temas como o preservativo, a homossexualidade, a pobreza, a exclusão, a falta de habitação ou o desarmamento. Opiniões que o levavam a ser presença constante na comunicação social, o que também não agradava aos poderes – da Igreja e do Estado. Ao contestar, num livro muito crítico, as restrições que o então ministro do Interior francês, Charles Pasqua, propunha no início dos anos 1990 na política de imigração francesa, Gaillot assinou a própria demissão, considerava o bispo.
Em Maio de 1994, o núncio do Vaticano em Paris chamou-o para o obrigar a ficar calado, recorda Henri Tincq no Monde. Ele respondeu: “Como se pode pedir a um bispo que se mantenha calado? Um bispo ou fala ou se demite.”
A sua demissão – comunicada por responsáveis do Vaticano, com o Papa João Paulo II ausente em viagem nas Filipinas – motivou protestos violentos de milhares de católicos, que invadiram a catedral de Évreux e outros locais de culto, recorda o Monde. Um encontro amigável um ano depois, entre João Paulo II e o bispo, deixou basicamente tudo na mesma.
Depois de ter sido destituído, Jacques Gaillot abriu a página na internet com o nome de Partenia, a diocese extinta com cujo título foi nomeado. E ali falava com toda a gente, considerando a sua nova diocese “sem fronteiras”.
Em 1 de Setembro de 2015, o Papa Francisco recebeu-o, disse-lhe que eram “irmãos” e elogiou o trabalho quer ele fazia junto de pessoas que estão longe da Igreja. Não era difícil perceber que muitas das opções tomadas nos anos 1980-90 por Gaillot antecipavam muitas posições de Francisco como Papa.
“Agradeci a Roma o que vivo. Estou desligado de tudo o que é institucional e decididamente com as pessoas”, dizia ele, em entrevista em Maio de 2007, numa das suas viagens a Lisboa, a convite do núcleo português do movimento Nós Somos Igreja. “Se fosse bispo de Évreux, não estaria aqui neste momento. Tenho esta possibilidade de estar com as pessoas. Noutros tempos, eu tê-las-ia encontrado como podia, mas não era fácil, uma vez que era bispo. É para mim uma grande alegria, uma grande esperança. Não pensava, na minha vida, fazer o que faço hoje”, acrescentava na entrevista, publicada no livro Deus Vem a Público (ed. Pedra Angular) e no Religionline, onde pode ser lida na íntegra.
“Estou aí por eles”

O bispo Jacques Gaillot (dirª), da diocese virtual de Parténia, com o holandês Jef Ulburghs. Foto René Peetermans/WIkimedia Commons
A escritora Leonor Xavier, que morreu em Dezembro de 2021, registaria, no 7MARGENS, uma das afirmações do bispo em 2004, numa das vindas de Jacques Gaillot a Lisboa: “Encontrei Deus naqueles que a sociedade rejeita… A Igreja nunca é Igreja sem os pobres… Mas não é por causa dos pobres que devemos ficar com boa consciência.”
O bispo Jacques Gaillot publicou dezena e meia de títulos, entre os quais, em português, Conversas no Adro da Igreja (ed. Notícias/Casa das Letras) e No que Eu Acredito (ed. Piaget).
“Inconformista, iconoclasta e provocador, excitante ou irritante, marginal no episcopado, defendendo os marginalizados na sociedade”, resumia Henri Tincq no texto agora publicado no Monde. No fundo, acrescentava o jornalista, a demissão de Gaillot colocava em questão o papel do bispo: deverá ele vincular-se, antes de mais, à “disciplina da Igreja a que pertence ou, como dita o exemplo de Cristo, deveria ele dar prioridade aos excluídos e aos pobres”? Gaillot considerava que a tarefa do bispo é menos cuidar dos 1% ou 2% dos fiéis que vão à missa do que daqueles que nunca puseram os pés na igreja, resumia Tincq.
Na entrevista em Lisboa, antes citada, Gaillot defendia a importância dos grupos que lutam por mudanças no interior do catolicismo: “Creio que é bom haver grupos, na Igreja, que estejam preocupados pela reforma da Igreja: a democracia, o lugar das mulheres… Creio que, para reformar a Igreja, é preciso estar ligado ao mundo da exclusão. É bom que também haja grupos que, em relação à instituição Igreja, digam que não é aceitável deixar as mulheres de lado, não haver práticas democráticas, etc. É importante que esses grupos existam.”
As suas questões, no entanto, eram outras: “As minhas são as questões da sociedade: a injustiça, a paz, a ecologia. (…) Sou um bispo, creio que fui libertado pelo evangelho, fui seduzido pela liberdade de Cristo. Sou um bispo que não está aí sobretudo por causa da doutrina, (…) mas para despertar as pessoas para aqueles que estão à beira do caminho, aos que sofrem. São os seres humanos que estão em primeiro lugar. Estou aí por eles.”










