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Sebastião Salgado, Mineiros de carvão em Dhanbad, estado de Bihar (Índia) 1989. Colecção MEP (Maison Européène de la Photographie).

Sebastião Salgado (1944-2025)

Morreu um fotógrafo que ia, descobria, conhecia e transmitia

 

 

Os obituários que têm sido publicados sobre Sebastião Salgado, que morreu na sexta-feira, 23, em Paris, aos 81 anos, têm quase invariavelmente referido o contraste entre as duas linhas de trabalho de um dos mais famosos fotógrafos do mundo: uma documentava os horrores que em vários pontos do planeta os seres humanos causam a outros seres humanos; outra exibia a natureza, encantadora, ainda intacta em diversos sítios do mundo. Muitos destes trabalhos foram recolhidos em livros também publicados em Portugal.

Sebastião Salgado, Manifestação de trabalhadores dos TLP (Lisboa, Julho de 1975). Foto reproduzida do livro Um Fotógrafo em Abril, disponível em linha na página do Centro de Documentação 25 de Abril.

Sebastião Salgado, Manifestação de trabalhadores dos TLP (Lisboa, Julho de 1975). Foto reproduzida do livro Um Fotógrafo em Abril, disponível em linha na página do Centro de Documentação 25 de Abril.

 

Sebastião Salgado esteve em Portugal na Revolução dos Cravos, podendo as suas fotografias ser presentemente observadas na exposição Venham mais cinco, que mostra, em Almada, no Parque Empresarial da Mutela, junto à antiga Lisnave, o trabalho de 30 fotógrafos estrangeiros que retrataram o período entre 25 de Abril de 1974 e 25 de Novembro de 1975. Um Fotógrafo em Abril, que a Editorial Caminho publicou em 1999, recolhe duas dezenas de imagens de Portugal, Angola e Moçambique nessa altura.

O fotógrafo brasileiro que vivia em França recebeu inúmeras distinções. Recebeu o Prémio W. Eugene Smith de Fotografia Humanitária, foi cavaleiro da Legião de Honra em França, venceu um World Press Photo, foi o primeiro fotógrafo a receber em Espanha o Prémio Príncipe das Astúrias das Artes. Quando o jornalista Manuel Morales, do diário El País, lhe recordou estes reconhecimentos, assim como a que acabara de receber, um prémio da Sociedade Geográfica Espanhola “pela qualidade e espírito de seu trabalho de viagens”, o fotógrafo reconheceu: “Se é por isso, mereço porque sou, provavelmente, uma das pessoas do planeta que mais caminharam [risos]. Quando estava no avião e via pela janela as montanhas, os rios… o planeta é maravilhoso”. Sebastião Salgado insistia na natureza errante do seu ofício: “Sempre pensei que, por meu tipo de fotografia, sou como aqueles homens que na Idade Média, movidos pela curiosidade, iam de cidade em cidade para conhecer as coisas e transmiti-las. A vida dos fotógrafos é assim: ir, descobrir, conhecer e transmitir. A fotografia que faço é o espelho da sociedade. É uma função que não existia há 100 anos e que não acho que irá existir daqui a 20…”

Sebastião Salgado, Chaîne Brooks, Refúgio Nacional da Vida Selvagem do Ártico, Alasca, EUA. Colecção MEP (Maison Européène de la Photographie).

Sebastião Salgado, Chaîne Brooks, Refúgio Nacional da Vida Selvagem do Ártico, Alasca, EUA. Colecção MEP (Maison Européène de la Photographie).

 

Não é propriamente uma distinção, mas O Sal da Terra, o documentário inspirado na sua vida e obra, realizado pelo filho Juliano e Wim Wenders em 2014, é uma homenagem prestada ao fotógrafo que nasceu no dia 8 de Fevereiro em 1944 em Aimorés, Minas Gerais.

Foi comunista, tendo, desde cedo, estado envolvido na luta contra a ditadura militar no Brasil. Desistiu de uma carreira como economista para privilegiar a fotografia. Trabalhou para as agências Sygma, Gamma e Magnum e lançou a Amazonas Images.

Trabalho, Êxodos, Crianças, Genesis e Amazónia são alguns dos títulos que recolhem o trabalho de Sebastião Salgado, apresentado em diversos países, incluindo Portugal.

Trabalho: Uma Arqueologia da Era Industrial (Editorial Caminho, 1996) é, como diz a nota de apresentação, uma epopeia que “presta homenagem à tradição do trabalho manual, que os séculos honraram, na altura em que se aproxima um novo milénio e os trabalhadores, em todo o globo, estão a ser substituídos por máquinas e computadores”.

Sebastião Salgado, Mineiros de carvão em Dhanbad, estado de Bihar (Índia) 1989. Colecção MEP (Maison Européène de la Photographie).

Sebastião Salgado, Mineiros de carvão em Dhanbad, estado de Bihar (Índia) 1989. Colecção MEP (Maison Européène de la Photographie).

 

Êxodos (Editorial Caminho, 2000) apresenta fotografias feitas em 40 países sobre “Migrantes e refugiados: o instinto de sobrevivência”, “A Tragédia Africana: um continente à deriva”, “América Latina: êxodo rural, desordem urbana” e “Ásia: a nova face urbana do mundo”.

Em Crianças (Taschen, 2016), Sebastião Salgado, com Lelia Wanick Salgado, sua mulher, apresenta quase uma centena de retratos de jovens com menos de 15 anos, exilados, migrantes e refugiados de vários países afectados por dramas diversos.

Aquilo que no mundo sobrevive inalterado ao “ataque devastador provocado pelo desenvolvimento da sociedade moderna” é o que nos é dado a ver em Genesis (Taschen, 2016). De uma viagem de seis anos pela Amazónia brasileira, resultou Amazónia (Taschen, 2022) que captura “a beleza incomparável desta região extraordinária: a floresta tropical, os rios, as montanhas, as pessoas que ali vivem – este tesouro insubstituível da humanidade em que o imenso poder da natureza é sentido como em nenhum lugar mais na terra”.

Sebastião Salgado, As mulheres Zo’é tingem o corpo com um fruto vermelho, urucum ou roucou, na aldeia de Towari Ypy, Pará (Brasil). 2009, Colecção MEP (Maison Européène de la Photographie). Doação de Sebastião Salgado et Lélia Wanick Salgado en 2018 © Sebastião Salgado

Sebastião Salgado, As mulheres Zo’é tingem o corpo com um fruto vermelho, urucum ou roucou, na aldeia de Towari Ypy, Pará (Brasil). 2009, Colecção MEP (Maison Européène de la Photographie). Doação de Sebastião Salgado et Lélia Wanick Salgado en 2018 © Sebastião Salgado

 

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Amazónia é “encanto e solenidade, mistério e encontro”. É, sobretudo, “um convite ao abandono de toda cobiça predatória e à escuta de homens e mulheres orgulhosos, guardiães de majestosa e frágil beleza”, escreveu Antonella Palermo, no Vatican News, quando Roma acolheu em 2022 a exposição do fotógrafo sobre essa terra em que, como pretendia o Papa Francisco, os mais pobres, os povos originais, têm de ser escutados e a sua dignidade promovida.

Antonella Palermo cita também as palavras de Sebastião Salgado que, dizendo que a Amazónia “é a última fronteira, um universo misterioso próprio, onde o imenso poder da natureza pode ser sentido como em nenhum outro lugar na terra”, desejou que daqui a 50 anos as suas fotografias não se assemelhem ao registo de um mundo perdido – o que, como se sabe, está muito longe de estar garantido.

A propósito da exposição retrospectiva patente até ao próximo dia 1 de Junho em Deauville (França, 200 quilómetros a nordeste de Paris), Salgado dizia, em entrevista a Daniele Zappalà, no número de Maio da revista Luoghi dell’Infinito: “A maior viagem de todas é a que fiz dentro de mim, para descobrir que somos uma espécie rodeada de outras espécies tão importantes como a nossa.” E acrescentava: “Assim, a esperança renasceu em mim, a partir desta solidariedade entre as espécies do planeta. Mesmo não sendo crente, creio que hoje no nosso planeta existe uma espécie de sabedoria subjacente, colossal, ligada à evolução. Mas para melhor compreender o nosso planeta, precisaríamos de viver não um século, mas um milénio.”

As imagens de Sebastião Salgado da Amazónia tinham já sido projectadas na fachada da Basílica Superior de Assis na conclusão da 5.ª edição do “Pátio de Francisco”, que, tendo por tema “Encontro entre comunidades, povos, nações”, reuniu de 19 a 22 de Setembro de 2019, na terra de São Francisco, representantes da sociedade civil e religiosa, do mundo artístico e dos media. “Estou feliz por ter sido convidado para estar aqui em Assis. Os frades do convento de São Francisco são homens de espiritualidade, e hoje devemos voltar a viver espiritualmente o planeta”, afirmou o fotógrafo na altura.

As fotografias de Sebastião Salgado sobre dramas contemporâneos não foram isentas de críticas. Como o próprio recorda na entrevista concedida a Manuel Morales, Susan Sontag dissera “que Salgado fazia estética da miséria…”. O fotógrafo, porém, garante: “Não quis retratar os desfavorecidos, eu nunca fui um militante, é somente minha forma de vida e o que eu pensava”. Ou dizendo de outro modo: “Eu fotografo meu mundo, sou uma pessoa do Terceiro Mundo”.

 

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