
Francisco de visita a Bento XVI (com o secretário deste, Georg Gänswein), em agosto de 2022, quando do consistório de cardeais. Foto © Vatican Media, via Ecclesia.
No regresso a Roma, depois da terminada a visita ao Sudão do Sul, o Papa Francisco foi questionado pelas alegadas críticas que Bento XVI terá dirigido a algumas das suas decisões, e — sem nomear ninguém — disse acreditar que a morte do Papa emérito, a 31 de dezembro passado, aos 95 anos, foi instrumentalizada “por pessoas sectárias [no original, em italiano, “gente di partito”] e não da Igreja”.
Numa notícia da Lusa, com origem em agências internacionais, e difundida pelo DN, Francisco afirmou mesmo que “algumas histórias que circulam, que Bento ficou amargurado por coisas que o novo Papa fez”, são como um conto de fadas. O Papa usou a expressão em italiano “storie cinesi”, “histórias chinesas”, que a agência Vatican News publicou com outra expressão idiomática, “telefone sem fios”, avariado.
Francisco aludia a Georg Gänswein, ainda que não o nomeasse, a propósito de uma entrevista em que o ex-secretário pessoal de Bento XVI assegurou que o anterior bispo de Roma não gostou do limite que Papa Francisco reintroduziu às missas no rito tridentino, anteriores ao Concílio Vaticano II, e que são celebradas em latim e de costas para os fiéis.
“Na realidade, consultei Bento [que abdicou em 2013] em relação a algumas decisões que tomei. E ele concordou”, referiu, dizendo acreditar que a morte do Papa emérito foi “instrumentalizada” por “pessoas sectárias”, que querem “levar a água ao seu moinho”, como explica a Vatican News, na tradução em inglês. O Papa considera que “aqueles que instrumentalizam uma pessoa tão boa, tão de Deus, quase um Santo Padre da Igreja, são pessoas sem ética, são pessoas sectárias, não de Igreja”.
Recorde-se que, após a morte de Ratzinger, Georg Gänswein publicou um livro e deu entrevistas onde revelou a existência de tensões entre o antigo e o atual bispo de Roma.
A bordo do avião papal, e também a responder aos jornalistas, estiveram o primaz da Igreja Anglicana, o arcebispo de Cantuária, Justin Welby, e o moderador da Igreja Presbiteriana da Escócia, Iain Greenshields, que acompanharam o Papa ao Sudão do Sul, numa “peregrinação ecuménica pela paz”.
“A criminalização dos homossexuais é uma injustiça”
Francisco foi também questionado por declarações recentes suas, sobre a homossexualidade, e reiterou as críticas à sua criminalização. “A criminalização dos homossexuais é uma injustiça”, sublinhando, no entanto, também a doutrina da Igreja de que se trata de “um pecado”.
Questionado sobre a perseguição sofrida por homossexuais em alguns países africanos, o Papa disse: “Se uma pessoa é de tendência homossexual e crente e procura Deus, quem sou eu para o julgar?”. A “criminalização da homossexualidade é um problema que não deve deixar de ser contestado”, apontou, estimando em perto de 50 o número de países que, de uma forma ou de outra, criminalizam homossexuais. “Alguns dizem ser ainda mais [países] e, em alguns destes, cerca de dez, há mesmo a pena de morte para homossexuais. Isto não é justo”, criticou.
Reiterando o que afirmara na entrevista à agência Associated Press (AP), o Papa disse que as “pessoas com tendências homossexuais são filhas de Deus”. “Deus ama-os, Deus acompanha-os e condenar tal pessoa é um pecado.” “Criminalizar pessoas com tendências homossexuais é uma injustiça. Não estou a falar de grupos, isso é outra coisa, os lóbis são outra coisa. Estou a falar de pessoas e o catecismo da Igreja já diz que ninguém deve ser marginalizado”, completou.










