Morte de George Floyd: hierarquia católica criticada por não combater ativamente o racismo

| 29 Mai 20

Imagem difundida em vídeos e redes sociais, do momento em que o agente policial sufocava George Floyd, que morreria pouco depois.

 

A hierarquia da Igreja Católica dos EUA tem sido alvo de fortes críticas por não ter condenado de forma mais veemente as circunstâncias que levaram à morte de George Floyd, nem assumir um papel ativo na luta contra o racismo no país.

Floyd, um homem negro de 46 anos, morreu esta segunda-feira em Minneapolis, na sequência de uma detenção policial. O momento foi captado em vídeo por testemunhas e difundido nas redes sociais, mostrando um agente branco ajoelhado em cima do pescoço da vítima, que várias vezes pede socorro e diz que não consegue respirar.

Num comunicado publicado no dia seguinte, a Conferência Católica do Minnesota, representando os bispos das seis dioceses daquele estado, qualificou o sucedido de “tragédia” e elogiou o facto de ter sido iniciada uma investigação sobre o caso. “As pessoas precisam de se sentir seguras nas suas comunidades e ter confiança nas forças policiais, que deveriam exercer o seu poder num espírito de serviço”, afirmam os bispos. “Se houve uma má conduta, esperamos que seja feita justiça”.

Em declarações ao jornal Crux, a escritora e investigadora Olga Marina Segura considera esta reação “uma desilusão” e “um exemplo de cobardia que tantos de nós se habituaram a esperar dos bispos e outros líderes”.

Bryan Massingale, professor de Teologia e Ética Social na Universidade de Fordham, partilha da mesma opinião. “Estou sem palavras. Estou a tentar conter a minha raiva e nojo em relação à resposta anémica e patética da Igreja Católica face ao desrespeito flagrante pelas vidas negras – pela vida humana – que vimos em Minneapolis”, afirmou.

“Infelizmente, isso não é surpreendente. Este padrão é consistente com o envolvimento católico em relação ao racismo”, continua o professor universitário. “Eles estão mais preocupados com o conforto das pessoas brancas do que com o terror com o qual o racismo força as pessoas de cor a viverem”, acusa Massingale.

Olga Marina Segura recorda que, apesar de os bispos católicos dos EUA terem publicado em 2018 a sua primeira carta sobre o racismo em quase 40 anos, a mesma teve poucas repercussões práticas, tendo ficado pelas “promessas e retórica vazia”.

Num artigo que escreveu em novembro do ano passado para a revista jesuíta America magazine, Segura conta que contactou cada uma das 197 dioceses católicas dos EUA para saber se, no seguimento da carta, tinham posto em prática algum tipo de iniciativa de combate ao racismo. Das 74 que responderam, apenas 30 afirmaram tê-lo feito.

Massingdale conclui que, se João Paulo II considerou o racismo como “o mais persistente e destrutivo mal da nação”, então a inação da hierarquia e da Igreja face a este mal é uma “evidência da cumplicidade dos católicos com as mortes injustas”.

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