“Motivação económica é primeiríssima razão” do terrorismo em Cabo Delgado, diz bispo de Pemba

| 17 Dez 20

Um dos momentos da sessão, quando o bispo Luiz Fernando Lisboa explicava a situação de Cabo Delgado e alguns dados culturais, demográficos e económicos da província.

 

O extremismo religioso é um “elemento importante” para explicar as causas da guerra em Cabo Delgado, mas “não é o principal: a motivação económica está em primeiríssimo lugar”. A afirmação é do bispo de Pemba (Norte de Moçambique), Luiz Fernando Lisboa, a propósito dos ataques terroristas que, desde há três anos, se têm verificado na província de Cabo Delgado.

Luiz Lisboa denuncia uma situação humanitária muito grave, com pessoas já a passar fome, a viver em acampamentos sem quaisquer condições e que pode ainda piorar. O bispo falava nesta terça à noite, a convite de várias organizações católicas, numa conversa em vídeo com quase 300 pessoas, entre os quais vários jornalistas. O encontro foi organizado pela FEC – Fundação Fé e Cooperação, Centro Missionário Arquidiocesano de Braga, Cáritas Portuguesa, Comissão Nacional Justiça e Paz, Fundação Gonçalo da Silveira, Ponto SJ, Rosto Solidário e Fundação Ajuda à Igreja que Sofre.

As incursões dos grupos armados já terão provocado mais de dois mil mortos e cerca de 600 mil deslocados, de acordo com as últimas estimativas do Governo, citadas pelo bispo.

Cabo Delgado, com um tamanho equivalente a Portugal, tem importantes e ricos recursos naturais: a reserva de gás é a maior de África, mas também há rubis, ouro, grafite, mármores e várias madeiras valiosas – neste caso, explorada “de modo selvagem, sem controlo”, deixando vastas “regiões desmatadas, com repercussões na natureza”.

A motivação mais forte para os ataques será, por isso, “económica, por causa dos recursos naturais…”, diz o bispo: os distritos que têm sido atacados – nove dos 17 que compõem a província, entre os quais Mocímboa da Praia, Quissanga ou Macomia, Muidumbe ou Nangade (aqui, um ataque recente fez 14 mortos) – estão na região norte, onde se encontra o gás.

Além da riqueza de recursos naturais, a pobreza é grande e Cabo Delgado ficou fora do investimento público durante muitos anos; há muitos jovens na província sem escolaridade; e por vezes surgem intrigas internas em grupos políticos ou étnicos.

O bispo insiste que o factor religioso é apenas mais um elemento entre esses vários. E apresenta factos quem na sua opinião, contrariam a tese de que os ataques são sobretudo por causa da religião: os ataques tanto vitimam cristãos como muçulmanos; há catequistas católicos e responsáveis islâmicos mortos, há igrejas e mesquitas destruídas e queimadas; católicos e muçulmanos são “mortos e atacados em conjunto” com quaisquer outras pessoas das aldeias e vilas. “Não é só Igreja Católica que é atacada”, sublinha.

Por outro lado, a relação entre cristãos e muçulmanos na diocese de Pemba (que abarca toda a província de Cabo Delgado) é muito positiva: já houve celebrações e caminhadas pela paz em conjunto; e em todas as aldeias visitadas pelo bispo, o líder muçulmano está sempre presente a assistir missa e quase sempre leva um presente para o bispo.

“Os muçulmanos de Cabo Delgado não aceitam a motivação religiosa como fundamento para a guerra” e há “um bom relacionamento entre religiões”, resume, repetindo de novo que “o principal problema é económico”.

 

Tudo é muito precário, mas pode ainda piorar

A maior parte das pessoas estão a ser acolhidas em famílias de Pemba, Nampula e outras localidades. Foto: Direitos reservados

 

A situação criada, entretanto, é muito grave: mortos e deslocados (40 mil na cidade de Nampula, mais a sul, 150 mil só na cidade de Pemba), acampamentos extremamente precários, onde não há barracas, tendas, cobertores ou sequer esteiras. “Tudo é muito precário”, diz o bispo Lisboa, oriundo do Brasil, que trabalha em Pemba como missionário (da Congregação da Paixão de Cristo, ou Passionistas) desde 2011, e é bispo desde 2013.

Este quadro corre o risco de se agravar ainda mais, já nos próximos dias ou semanas, tendo em conta que a região entrou agora na época das chuvas. “O tempo de chuva vai dificultar tudo. E isso preocupa-nos muito”, tendo em conta os acampamentos de vários milhares de pessoas onde não há nada e tudo falta.

Onde tudo é grave, pode ainda ficar pior: o PAM (Programa Alimentar Mundial, das Nações Unidas), a principal organização a ajudar na distribuição de comida, já avisou que os recursos estão a esgotar e a comida pode faltar dentro de semanas, se a ajuda internacional não acudir à urgência.

Tentando contrariar esta situação, o Governo tem agora um plano de uma centena de assentamentos para dar às pessoas o mínimo de abrigo e uma pequena machamba para cultivo. “Não é o ideal, mas o possível e é uma resposta”, comenta o bispo. Desse modo, as pessoas terão, “pelo menos uma casinha e um lugar para plantar”.

O Governo de Moçambique, aliás, “tem feito a sua parte para ajudar os deslocados” e já pediu ajuda à União Europeia, Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC, na sigla inglesa), aos Estados Unidos… Sobretudo nas  áreas de formação, material logístico e assistência humanitária. E há várias organizações e agências internacionais a ajudar no terreno, além do PAM: Cáritas (local, de vários países e federação internacional) e Organização Internacional das Migrações são alguns exemplos. “Todas em colaboração com o Governo”, faz questão de sublinhar Luiz Lisboa.

Militarmente, a situação também não tem melhorado: as forças moçambicanas de defesa, apesar da boa vontade e de o número de efectivos ter aumentado, “não conseguiram conter os ataques”. Muitos dos militares não conhecem a região e os terroristas terão mais meios do que as Forças Armadas de Moçambique. “Aconteceu alguns fugirem em conjunto com a população”, conta o bispo de Pemba. “Falta um serviço de inteligência forte”.

O que se tem comentado recentemente é que o Governo estará a contratar grupos privados sul-africanos de segurança, que deverão ser muito caros. Casos como o do grupo de militares que, em Setembro, perseguiu e matou uma mulher que caminhava nua numa estrada serão raros, diz o bispo.

 

“Deixar a dor doer…”

“Imaginem um pai que tenha perdido tudo; ou crianças sem pais; ou pais cujas filhas foram raptadas…”, diz o bispo de Pemba. Foto reproduzida da página de D. Luiz no Facebook.

 

Uma das principais preocupações de D. Luiz é proporcionar apoio psicológico às pessoas obrigadas a fugir. “Imaginem um pai que tenha perdido tudo, e está sozinho com seus filhos; ou crianças sem pais; ou pais cujas filhas foram raptadas…” Há duas religiosas psicólogas na diocese que têm estado a fazer formação na área para que dezenas de pessoas possam atender as vítimas e prestar ajuda nesse campo – nestas quarta e quinta-feira, precisamente, há uma formação em Nampula, dirigida por essas duas religiosas.

“A ideia é deixar que as pessoas falem, que desabafem e contem as suas histórias, como saíram [das aldeias], se alguém foi morto… É preciso deixar a dor doer”. E repete: “Deixar a dor doer…” Perguntando ainda: “Como celebrar o Natal? Como será o Natal dessa gente? Ao celebrar o Natal, o Menino Jesus, é impossível não pensar nesses outros meninos e meninas que estão nos acampamentos…”

A solidariedade, entretanto, faz-se de muitos modos: não só de organizações internacionais mas (sobretudo?) das famílias que acolhem os deslocados. “Esta guerra tem mostrado o quanto os pobres são solidários”, diz. “Oitenta por cento das pessoas estão sendo acolhidas nas famílias. O povo de Cabo Delgado está dando um belíssimo exemplo de solidariedade. Temos visto famílias pobres que estão a acolher duas, três, quatro outras famílias…”

E até os animais dão uma ajuda: quando fogem, muitas das vítimas dos ataques passam duas, três quatro noites no mato. E diante da pergunta sobre eventuais ataques de animais, a resposta é constante: “Não, os animais sabem que a nossa situação é difícil.” O bispo comenta que não conhece “nem um caso” de alguém que tenha sido atacado por animais.

Agora, o que é preciso é que a ajuda não pare: seja de Portugal e da União Europeia, seja das igrejas – os bispos brasileiros lançaram uma campanha de apoio que decorre até final de Janeiro, por exemplo.

E se os portugueses tomassem idêntica iniciativa? – pergunta o 7MARGENS. “A ajuda das igrejas faz-se pela presença, por telefonemas, fazendo campanhas… Cada diocese, cada conferência, cada país tem também os seus problemas e na medida do possível o apoio é sempre bem-vindo”, responde o bispo de Pemba, sublinhando algumas campanhas que já decorrem em Portugal e referindo o apoio de 100 mil euros dado recentemente pelo Papa.

 

“Prioridade é atender as pessoas e as suas necessidades”

O bispo numa comunidade católica: “Não estamos preocupados em reconstruir igrejas, não é o momento para isso; estamos preocupados em atender as pessoas e às suas necessidades.” Foto reproduzida da página de D. Luiz no Facebook.

 

De uma coisa o bispo de Pemba tem a certeza: “Não estamos preocupados em reconstruir igrejas, não é o momento para isso; estamos preocupados em atender as pessoas e às suas necessidades.” Cita uma visita recente de bispos sul-africanos para conhecerem a situação e o comentário de um deles: “Estive no Darfur e isto é pior.”

De resto, a ajuda faz-se rezando “para que o povo tenha coragem, porque a oração move montanhas e comove corações”; falando do tema sempre que possível para fazer crescer o conhecimento e “vencer a indiferença”; e desenvolver alguma acção solidária, refere. Depois de o Papa Francisco ter falado de Cabo Delgado, na Páscoa, a situação tornou-se “conhecida no mundo inteiro”, diz o bispo, e já não é possível esconder mais o que se passa.

A uma pergunta do 7MARGENS, sobre a eficácia da ajuda internacional – incluindo Portugal –, o bispo Luiz Lisboa diz que “tudo está pouco a pouco tornando-se apoio concreto”. Sublinha a militância de eurodeputados portugueses – Paulo Rangel tem insistido no problema, António Maló de Abreu esteve na região, vários eurodeputados portugueses de diferentes partidos têm sublinhado a importância da ajuda da UE.

Agora, com a presidência portuguesa da União a iniciar-se a 1 de Janeiro, o bispo Lisboa tem um pedido especial: “Portugal faria um grandíssimo favor se levasse a debate na União Europeia o uso dos recursos pelo mundo; que tipo de submissão” e que tipo “de novo colonialismo se estão a promover”? A discussão “tem de ser feita seriamente”, diz.

 

“Facilidade impressionante para a música” e rezar debaixo dos cajueiros  

O bispo Luiz Fernando Lisboa durante um momento da sessão da noite de terça-feira, 15. 

 

Juntamente com as províncias de Niassa e Nampula, Cabo Delgado constitui a região Norte de Moçambique. Os dois milhões, 340 mil habitantes da província falam cinco línguas, além do português, sendo os macuas, macondes e muânis as três etnias principais.

São povos com uma “facilidade impressionante para a música”, que está “no sangue” das populações, descreve o bispo. “Ouvi-los cantar nas comunidades grandes é muito bonito”, mesmo em celebrações da missa, que são longas e feitas sem pressa – e durante as quais as crianças estão sempre “muito atentas”…

Mas este é um povo que reza também “debaixo dos cajueiros, das mangueiras” e que é capaz de percorrer a pé distâncias grandes, por vezes tendo de andar dois ou três dias, “para participar em iniciativas da Igreja” ou de outras organizações.

“Bons intérpretes” de música, dança e teatro, os moçambicanos da região têm pouco a água potável. “Ainda não houve investimento para levar água” a muitas aldeias, diz, nem outras políticas públicas como a educação, a saúde ou o saneamento. E, de facto, a luta das populações em muitos sítios ainda é para poder ter um furo de captação de água na aldeia, evitando que as crianças e as mulheres tenham de percorrer 20 ou 30 quilómetros para se abastecerem.

 

(A intervenção completa do bispo Luiz Fernando Lisboa pode ser vista na página da FEC no Facebook ou na gravação da sessão no Zoom, usando a senha cabodelgado_15122020.)

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