Movidos pela fé, com Deus eles vão

| 18 Jan 19

A Igreja deve perceber porque se afastam os mais novos, diz um jovem seminarista; Deus tem muitos nomes, afirma um muçulmano; é possível evangelizar a fazer truques de ilusionismo, acrescenta um ciclista católico. Poucos dias antes da Jornada Mundial da Juventude, que se realiza no Panamá entre 22 e 27 de Janeiro, e depois de um Sínodo dos Bispos católicos que, em Outubro, debateu o tema dos jovens e da sua relação com a fé, o 7MARGENS ouviu cinco jovens que se declaram “movidos pela fé” para perceber as suas razões, perguntas e convicções. Como a de que a fé “orienta para um caminho do bem, um caminho bom”.

“Se os mais novos estão fechados sobre as tecnologias, sobre o dinheiro, sobre adições, isto não vai melhorar. É bom que a Igreja comece a ouvir os jovens e a perceber o que se passa, porque é que eles não vão à igreja, porque é que não querem ir à missa ao domingo.”

Quem o diz é Duarte Folque, 21 anos, que até há bem pouco tempo estudava na Faculdade de Direito na Universidade de Lisboa. Mas a fé católica que sempre o moveu levou-o a optar por outro compromisso: largar tudo e ir para o seminário, preparando-se para ser padre. Começou a nova etapa no final de Setembro.

Amante de política, ex-militante de um partido político, pensou várias vezes em acabar o curso antes de se tornar seminarista. A família e os amigos queriam que fosse esse o percurso. Mas Duarte soube explicar que o seu “era um caminho que já vinha a ser traçado: as minhas inquietações já são antigas e é por isso que vou agora para o seminário, para as tentar esclarecer”.

Duarte cresceu numa família convictamente católica. Ao crescer, sempre sentiu algum gozo por se assumir como católico e defensor da Igreja. No entanto, ao chegar à faculdade, descobriu a Missão País, uma dinâmica de universitários católicos que vão para diferentes zonas do país, com o objectivo de ajudar e evangelizar. Foi isso que o fez descobrir a sua vocação: a entrega aos outros.

 

 

Mesmo assim, ir para padre não é algo que faça sem reservas. Apesar de considerar o celibato “a melhor disciplina para aqueles que querem ser ordenados”, sabe que, do ponto de vista pessoal, a solidão traz alguma preocupação: “Pensar no meu futuro como uma pessoa sozinha, já que não vou poder casar e formar família, não é totalmente pacífico para mim. Mas hoje em dia ninguém está para compromissos: ninguém está para namoros longos, para esperar por outra pessoa, ninguém está para ajudar ninguém – é cada um por si e não se repara no próximo. O celibato obriga a que a pessoa viva para os outros. Os padres só são pessoas sozinhas quando se fecham sobre si.”

Este aspirante a padre da geração millenial tem muitas ambições e ideias que espera que a Igreja comece a concretizar: “A ação no meio académico é muito importante – a Igreja hoje em dia também tem de estar de outra forma para as pessoas, de arranjar mecanismos que, no século XXI, sejam mais eficientes para chegar às pessoas.”

Duarte Folque, 21 anos.

Duarte Folque considera que a vertente de voluntariado católico traz esta proximidade da Igreja que, antes, vinha através da catequese e dos grupos de jovens das paróquias: “Vai ter que haver uma evangelização para agora. É preciso que a Igreja oiça os jovens porque, nesta idade, temos necessidade de alguém que nos escute. E a Igreja tem de responder, porque as pessoas não estão esclarecidas. Tem de haver quem os esclareça e quem os oiça.”

Num outro registo, mas igualmente ligado à instituição onde se insere, Nadime Abdulrahman, 24 anos, engenheiro de maquinaria, faz parte da CIL-Jovem, a comissão de jovens da Comunidade Islâmica de Lisboa. Como coordenador, dinamiza iniciativas voltadas para os mais novos, dos mais variados géneros – como um torneio de paintball que juntou 60 jovens muçulmanos. Desde criança, Nadime integra ainda a comissão de jovens da mesquita de Alverca, onde também está envolvido em vários projetos.

Para ele, não há dúvidas: “Deus é único, é o criador, é todo-poderoso e omnipresente. Nós, muçulmanos, temos 99 nomes para adjetivar Deus…”

Nadime Abdulrahman, 24 anos.

 

Mais a norte, em Aveiro, Francisco Power acredita que uma evangelização dos jovens pode ser feita de várias maneiras. Mesmo com ilusionismo no seu canal de Youtube?

 

 

Com apenas 20 anos, Francisco já pedalou duas vezes 350 quilómetros até Santiago de Compostela, foi às Jornadas Mundiais da Juventude, em Cracóvia (2015), e participou no Jubileu Jovem, em Fátima (2017). Fez voluntariado com grupos de jovens em várias ocasiões (por exemplo, em Castanheira de Pêra, a seguir ao grande incêndio de Junho de 2017) e considera todos estes dinamismos importantes para mobilizar os jovens e manter a fé: “Pessoalmente, no meu dia-a-dia na licenciatura de engenharia mecânica, lido com colegas não-crentes, ateus ou desinteressados da fé. Acaba por ser muito complicado pensar nisso, acabamos por divergir para outros assuntos. Com estes grupos de jovens sabemos que estamos todos na mesma situação e, por isso, conseguimos ter conversas mais profundas, estamos muito mais soltos. Aqui conseguimos mesmo ser nós próprios na vivência da fé.”

Desde pequeno, Francisco foi educado na Igreja Católica, com pais muito ativos na Igreja que o habituaram a rezar desde pequeno. Juntamente com os sete filhos, Teresa e Niall criaram as Famílias de Caná, um movimento para famílias católicas que dinamiza encontros e atividades várias.

Para lá da sua fé, Francisco tem outra grande paixão: o ilusionismo. Em vários tipos de eventos, faz truques e atuações de magia semi-profissionalmente, juntando-lhe mesmo referências bíblicas ou evangelizadoras.

 

 

A ideia de juntar as duas coisas vem, segundo Francisco, de São João Bosco, o padroeiro dos ilusionistas: “Para chamar os jovens, ele aprendeu a fazer de tudo, malabarismo, andar sobre uma corda, e tudo mais. Era assim que ele lhes falava da fé. Na altura em que comecei foi o meu pároco, que era padre salesiano, que me desafiou a fazer algo assim.” As pessoas que assistem acham muito “interessante”, diz, pois acaba sempre por passar uma mensagem: “É uma maneira diferente de mostrar que a evangelização pode ser divertida”, acrescenta.

Elena e Eddy não nasceram em Portugal mas não foi por terem vindo para um país diferente que deixaram de dar importância à sua fé. Elena Mihaela Morari, 30 anos, trabalha no Instituto de Microbiologia Médica (IMM), no Hospital de Santa Maria (Lisboa) e é romena e cristã ortodoxa.

 

Elena Mihaela Morari, 30 anos.

Em Portugal há onze anos, apesar de se sentir um pouco desligada da religião organizada, Elena continua a mover-se pela fé e querer saber mais: “Somos muito tradicionais e restritos em certas coisas, mas também temos muitos programas com jovens que tentam não tirar a curiosidade e não impor só regras. Neste sentido, a Igreja está a tentar acompanhar os jovens e as suas necessidades. Por exemplo, os jovens ortodoxos organizam congressos. Eu, que vivo em Lisboa, fui a um congresso para ortodoxos que vivem no estrangeiro, na Europa. Falou-se de coisas atuais, como o que significa a religião hoje em dia, o que é ser ortodoxo no mundo – e isso ajuda-nos a tirar dúvidas importantes para nós e há quem nos oiça, o que é importante.”

Já Edmilson Fonseca, Eddy como é mais conhecido, 19 anos, estudante, vive na Cova da Moura. Considera o Papa Francisco uma pessoa inspiradora por falar muito da realidade contemporânea e dos valores a que muitos não dão atenção. Envolvido com um grupo de jovens católicos no bairro onde vive, diz ser dos poucos, entre os seus amigos, que é crente, pois considera que os jovens olham para a religião como algo “mais para velhos”. Pela mesma razão, nota diferenças de comportamento entre ele e os seus amigos “na maneira de ser, de falar com as pessoas e de pensar”.

“Acho que a religião oferece um caminho. Ela ensinou-me muitas coisas, aprendi muitos valores bons com a religião. De uma certa forma, orienta-nos para um caminho do bem, um caminho bom.”

Edmilson “Eddy” Fonseca, 19 anos.

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