Suspenso processo de beatificação

Movimento de Schoenstatt quer esclarecer a verdade sobre o fundador e acusações de abusos

| 5 Mai 2022

Josef Kentenich, fundador do movimento de Schoenstatt, em Milwaukee (EUA), durante o seu exílio, entre 1951 e 1965, por causa de acusações não esclarecidas.

Josef Kentenich, em Milwaukee (EUA), durante o exílio entre 1951 e 1965, por causa de acusações não esclarecidas. Foto: Direitos reservados.

 

“Temos todo o interesse em que se esclareça” o que aconteceu com o fundador do Movimento Apostólico de Schoenstatt (MAS), padre Josef Kentenich, acusado de abusos sexuais e de abuso de poder, diz ao 7MARGENS Ana Sanches, que integra a presidência nacional daquela organização católica.

A declaração da responsável surge na sequência da notícia de que o processo de beatificação do fundador de Schoenstatt, que morreu em 1968 e cujo processo foi aberto em 1975, tinha sido suspenso.

Foi o bispo da diocese alemã de Trier (Tréveris), Stephan Ackermann, que tomou a decisão, com o acordo do Vaticano, depois de há dois anos terem surgido várias alegações, que retomavam suspeitas antigas.

“Estamos sintonizados com a decisão, porque nos interessa, como família de Schoenstatt, que o assunto fique clarificado de uma vez por todas”, diz Ana Sanches.

A presidência nacional do movimento de Schoenstatt em Portugal divulgou também uma carta aos directores e coordenadores diocesanos das diversas estruturas do movimento. “Acolhemos esta decisão em união de Família e devemos não só conhecê-la, como acolhê-la com confiança. A Divina Providência desafia-nos para aproveitar este momento como um impulso criador de mais profundo conhecimento sobre a pessoa, o carisma e a missão do nosso Pai e Fundador”, diz o documento, a cujo texto o 7MARGENS teve acesso.

Na carta, a presidência nacional do MAS descreve o que aconteceu: o bispo Ackermann entendeu que, “antes de prosseguir com o processo de beatificação, é preciso clarificar definitivamente as acusações levantadas contra o Padre Kentenich em 2020 que, ainda que já fossem conhecidas e esclarecidas na investigação do processo de beatificação, devido à reserva, não eram de conhecimento geral”.

Numa entrevista dada terça-feira, 3, ao jornalista alemão Felix Neumann, o bispo de Tréveris afirmava: “Havendo alegações de abuso, o procedimento deve ser diferente do previsto num processo de beatificação. Se surgirem novos dados que respondam satisfatoriamente a todas as questões em aberto, não se exclui a possibilidade de que o processo possa ser retomado.”

A carta da direcção portuguesa, presidida pelo padre Juan Barbudo, recorda ainda que em Março do ano passado foi revelado que um cidadão dos EUA fizera, já nos anos 90, uma queixa contra Kentenich. Essa acusação tinha sido averiguada pela diocese de Milwaukee, mas o bispo Ackermann pediu agora a revisão do processo de acordo “com os critérios actuais em relação às situações de abuso”.

Também é importante que as acusações sejam esclarecidas de forma independente em relação ao processo de beatificação, que assim fica suspenso “até que as alegações sejam refutadas”, dizem ainda os responsáveis nacionais do movimento. A par disso, as pessoas que trabalham no âmbito do processo de beatificação continuam o seu trabalho.

 

Novos documentos
Josef Kentenich, fundador do movimento de Schoenstatt.

Josef Kentenich, fundador do movimento de Schoenstatt: “É preciso ainda pesquisar-se muito mais”, diz o bispo Ackermann. Foto: Direitos reservados.

 

Na entrevista citada, o bispo Ackermann afirmava ainda que o aparecimento de novos documentos nos últimos dois anos mostra que não se esgotou “o que se tem a dizer sobre a vida, a obra e a espiritualidade” de Kentenich. “É preciso ainda pesquisar-se muito mais. Ao mesmo tempo, porém, não posso continuar o processo de beatificação de uma pessoa contra a qual existem acusações que, no momento, não podem ser refutadas com segurança”, justificava.

“Acolhemos com toda a confiança a decisão do bispo de Tréveris, para termos noção do que aconteceu e aguardando os resultados da comissão independente”, reforça Ana Sanches, que acrescenta já ter a direcção portuguesa do movimento pedido audiências ao bispo de Leiria-Fátima, José Ornelas, e ao patriarca de Lisboa, Manuel Clemente.

Também a presidência internacional do movimento divulgou uma carta a anunciar a decisão e a afirmar que a beatificação e canonização “não são um fim em si mesmo”. E acrescenta: “Está em questão o Padre Kentenich autêntico, com a sua grandeza e limitações, mas especialmente como estimulante figura profética, que queremos profundamente reconhecer e transmitir. Ele era e continua a ser um sinal de contradição”, diz a carta, assinada pelo padre Juan Pablo Catoggio.

O responsável internacional do MAS considera esta nova situação como “uma oportunidade e um desafio para que seja conhecida a verdade histórica com seriedade e em liberdade profundamente investigada”. Tarefa “complexa que custará muito tempo e energia, bem como recursos financeiros”, ela será acolhida pela direcção de Schoenstatt garantindo que a vida e mensagem do fundador “sejam estudadas e divulgadas exaustivamente” – há já “um grupo internacional de investigação” a trabalhar nesse sentido.

O bispo Ackermann afirmava ainda na entrevista que “a suspensão do processo de beatificação não é um juízo negativo sobre o trabalho de todos aqueles que estão envolvidos nos vários grupos e institutos do Movimento de Schoenstatt”.

Josef Kentenich nasceu em 1885 em Gymnich e morreu em 1968 em Schoenstatt, pequena localidade pero de Coblença, entre Frankfurt e Colónia. A fundação do movimento dedicado ao apostolado e sob a invocação de Maria, dá-se em 1914. Kentenich esteve preso no campo de concentração de Dachau, durante o período nazi, mas depois da guerra o movimento cresceu. O movimento cria pequenos santuários marianos nos sítios onde se encontra implantado: no mundo, são actualmente mais de uma centena e em Portugal há quatro na Gafanha da Nazaré (Ílhavo), Soutelo (Braga), Lisboa e Canidelo (Gaia). O processo de beatificação do padre Kentenich foi aberto em 1975 em Tréveris.

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Casa-mãe do movimento de Schoenstatt, na Alemanha. Foto: Direitos reservados.

 

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