
Ilustração: Direitos reservados
É possível mobilizar os cristãos em favor do clima e de um estilo de vida mais saudável para as populações e o planeta? Durante este sábado, 19, dezenas de animadores e de membros do Movimento Laudato Si’ (MLS) em Portugal estarão reunidos no Centro de Espiritualidade Jean Gailhac, na Gafanha da Encarnação (Ílhavo, Aveiro) e procurarão encontrar formas de responder àquela pergunta.
“A pergunta que se me põe é: como não temos essa mobilização?”, diz ao 7MARGENS Rita Reino Assunção, do Grupo Cuidar da Casa Comum em Santa Isabel (Lisboa), que irá intervir numa das oficinas do encontro, abertas a todos os interessados, a propósito do tema “Mobilização Profética da Igreja”.
“Devíamos ser inspirados pela obrigação natural e amorosa de proteger a Criação de Deus, e de tudo o que nos foi oferecido por Ele, sabendo que nos fez à Sua imagem e semelhança”, diz Rita Assunção, que há um ano publicou no 7MARGENS um testemunho sobre o que é “ser mãe de um jovem activista pela justiça climática”.
Testemunho: Ser mãe de um jovem ativista pela justiça climática
“Como perdemos essa ideia da semelhança no cuidado de todos e todas as criaturas?”, pergunta. E “como é possível não nos mobilizarmos para a recuperação desse equilíbrio, como é possível vermos os recursos naturais estarem a ser devastados, destruídos e não nos revoltarmos?” E ainda: “Estão/estamos a destruir a Criação; não será isto um pecado ‘mortal’, uma vez que leva à morte dos que sustentam o nosso conforto?”
Esta será uma “primeira reunião presencial dos membros do MLS em Portugal” para “discernir em conjunto sobre como viver mais plenamente” a missão a que o movimento se propõe: a de contribuir para uma maior consciência da emergência climática e das atitudes que os crentes devem tomar perante ela, seguindo as perspectivas da encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco.
“A mobilização profética refere-se ao acto de inspirar e mobilizar pessoas para agir”, diz Rita Reino Assunção. “A falta de acção é ‘pecado’. Em última instância estamos a destruir Deus, pois tudo aquilo que Deus toca é divino e tudo onde Deus habita é divino.”
Na senda do que o Papa Francisco escreveu em 2015 na Laudato Si’, Rita Reino Assunção recorda que “os recursos da terra são finitos e isso é consensual, mesmo para os mais cépticos”. Por isso, esta activista do grupo Cuidar da Casa Comum em Santa Isabel faz ainda mais perguntas, que repetirá na manhã deste sábado durante o encontro: “Que direito tem a nossa geração de nada fazer, tendo este conhecimento? Como não ouvimos Deus no clamor da Terra, quando são devastadas florestas inteiras, abertas feridas na terra para extracção de minério ou combustíveis fósseis, entre tantos outros exemplos?”
“Estamos a matar os nossos irmãos, para produzirem o nosso conforto”

Ilustração: Direitos reservados
Na sua intervenção, Rita Assunção continuará a fazer perguntas: “Estamos a matar os nossos irmãos, quando são escravizados para produzirem o nosso conforto. Sabendo que Deus habita neles, como usamos confortavelmente esses bens produzidos à custa de ‘sangue’ de outros, à custa do sangue do nosso Deus que neles habita? Como não ouvimos Deus no Clamor dos pobres? Como, no caso dos católicos, vamos confortavelmente à missa ao domingo ouvir a palavra de Deus, comungar o seu corpo e sangue, mas depois achamos que esta ‘coisa’ da ecologia integral não nos diz respeito? Como ficamos confortavelmente satisfeitos porque fazemos reciclagem?”
A mobilização dos crentes passa por gestos muito concretos, sublinha Rita Assunção: “Para uma verdadeira justiça social mundial temos de decrescer no consumo, para que assim todos tenham uma vida mais digna, mais à imagem que Deus criou para todos.” E apesar da realidade deixar pouco espaço para o optimismo, afirma: “Como mulher de fé e esperança, sei que é possível; ainda vamos a tempo de nos salvar e de salvarmos toda a criação. Amar e cuidar, agir e rezar é o necessário. Exige mudanças individuais, colectivas e políticas, mas com a força da oração teremos coragem para as realizar.”
Precisamente sobre algumas dessas mudanças, na perspectiva dos estilos de vida para uma sustentabilidade plena falará Manuel José Marques, que tem uma produção agrícola em Valongo do Vouga (Águeda). A outra intervenção nas oficinas da manhã, nas quais podem participar todas as pessoas interessadas nos temas, será de Ana Pina, religiosa das Escravas do Sagrado Coração de Jesus, que abordará o tema “Espiritualidade e conversão ecológica”.
Na primeira parte da manhã, o encontro começa com a celebração da eucaristia, presidida pelo bispo de Aveiro, António Moiteiro Ramos, e a intervenção de Susana Réfega, diretora executiva do Movimento Laudato Si’.
https://laudatosimovement.org/pt/em-caminhada-sinodal-rumo-a-2025/
À tarde, os animadores irão debater como viver mais plenamente a missão do Movimento, contribuindo para o processo de discernimento global que o MLS está a fazer.
O encontro pretende inserir-se também na caminhada sinodal da Igreja Católica, rumo ao Jubileu proclamado pelo Papa para o próximo ano. Em Maio de 2025 assinalam-se precisamente dez anos da encíclica que dá nome ao movimento e celebram-se igualmente os 800 anos do Cântico das Criaturas, de São Francisco de Assis.









