Muçulmanos começam Ramadão sem poder rezar nas mesquitas

| 24 Abr 20

Mesquita Central de Lisboa. Oração. Islão

Oração na Mesquita Central de Lisboa: durante o mês de Ramadão, que começa nesta sexta-feira, o lugar de culto continuará vazio. Foto © CIL

 

Às 5h09 da manhã desta sexta-feira, 24 de Abril, os cerca de 50 mil ou 60 mil muçulmanos portugueses ou que residem em Portugal iniciam o jejum do primeiro dia de Ramadão, o mês mais sagrado do islão. E a quebra do jejum, às 20h25, assinalado pelo partir de uma tâmara, será feita em casa e não no jantar comunitário da mesquita, depois da oração de tarawih.

Desta vez, por causa da pandemia de covid-19, contrariando os preceitos do islão e a vontade pessoal, os muçulmanos são convidados a ficar em casa e não frequentar as mesquitas para a oração (sobretudo do meio-dia), o que seria a situação normal num tempo sem pandemia.

“Iremos, para já, esperar até 2 de Maio”, data em que se prevê o levantamento do estado de emergência nacional, diz o xeque David Munir, imã da Mesquita Central de Lisboa, em declarações ao 7MARGENS. Só depois disso, os responsáveis das diferentes mesquitas existentes no país decidirão se abrirão ou não, de novo, os espaços de oração. Mas, acrescenta Munir, a abertura deverá ser muito lenta. “Não é importante abrir já os lugares de culto, até porque podemos fazer oração em casa”, justifica.

Durante o mês de Ramadão, que durará até 24 de Maio, os muçulmanos são convidados a reflectir sobre a renovação da sua fé, a viver mais intensamente a ajuda e a solidariedade para com outras pessoas mais necessitadas, bem como a frequentar de forma mais assídua a mesquita. Para colmatar a impossibilidade de ir à mesquita, há ensinamentos, orações e recitações do Alcorão transmitidos em vídeo pela internet e redes sociais, cujos horários estão disponíveis, no caso da Comunidade Islâmica de Lisboa, na sua página de Facebook. 

E qual é o espírito do Ramadão por detrás destes apelos espirituais e materiais? Há duas semanas, num dos seus ensinamentos sobre o Alcorão, Munir dizia: “É o momento de cada ser humano reflectir o que estamos a fazer. Estamos a fazer vários estragos, não há justiça, a riqueza não é bem dividida, as pessoas sofrem, a guerra não acaba, por interesses económicos e políticos.” E “também destruímos o nosso planeta”, acrescenta, num vídeo gravado e colocado na página da Comunidade Islâmica de Lisboa na rede social Facebook.

Esse é o espírito do Ramadão, diz ao 7MARGENS: “As pessoas estavam até agora muito habituadas a ir às mesquitas. Este ano será muito voltado para o interior, para si mesmo, para a família, que irá partilhar o mesmo espaço. E este espírito irá intensificar a espiritualidade de cada pessoa”, diz.

 

Um retiro espiritual em casa

Quem tem aproveitado o estado de emergência para essa reflexão interior é o xeque Rachid Ismael, responsável do Colégio Islâmico de Palmela. Desde o início da quarentena que decidiu fazer uma espécie de retiro espiritual em casa: “Encaro este tempo como uma oportunidade de, quando menos esperava, poder fazer um retiro espiritual e uma reflexão para me tentar aproximar de Deus”, conta.

Nos seus dias, desde há mais de um mês, tem entrado o jejum diário, enquanto há luz do sol. “Há uma máxima do Profeta [Muhammad, ou Maomé], que terá surgido talvez num contexto de guerra, que diz: ‘No tempo da extrema calamidade ou peste, faz três coisas: fica em casa; controla a tua língua e olha a tua vida.’”

Esta máxima tem tudo a ver com a presente situação, diz Rachid Ismael. A recomendação sobre a língua tem a ver com o modo como devemos relacionar-nos com os outros, mesmo em casa, onde o facto de estarmos confinados pode “dar azo a discussões ou mal-entendidos”; e quando diz para olhar a vida é para pensarmos no que temos feito ou podemos vir a fazer”, esclarece.

O tempo de retiro em casa tem sido aproveitado para a recitação do Alcorão, meditação, tempos de silêncio e leituras. Depois, reserva também momentos para estar com a família ou responder ao telefone e correio electrónico.

Rachid Ismael também acredita que o confinamento e a distância social devem ser mantidos. E de novo aqui, socorre-se do exemplo de Muhammad, que além de recordar que se deve mantar o afastamento em relação a alguém com doença contagiosa, dizia: “Se souberem de alguma epidemia que ocorra, não vão para essa zona e quem lá está não deve sair.”

 

Um grande vazio em volta da Caaba

Não é só em Portugal que as mesquitas estarão fechadas, tal como tem acontecido com lugares de culto de outras religiões. Mas, em regiões do mundo mais longínquas, há quem use expressões mais dramáticas para se referir à ausência sentida pelos crentes: “Os nossos corações choram”, lamentava o muezzin [responsável do chamamento à oração] da Grande Mesquita de Meca, a principal cidade santa do islão, citado no jornal La Croix.

“Estamos habituados a ver a Grande Mesquita cheia de gente durante o dia, a noite, todo o tempo. É uma profunda frustração”, dizia o muezzin Ali al-Molla.

Por todo mundo, muitas mesquitas – nomeadamente as mais importantes, como é o caso das de Meca, Medina e Jerusalém – estão fechadas e assim irão permanecer durante este mês sagrado. E na cidade de Meca, no lugar dos peregrinos envolvendo a Caaba, há um grande vazio.

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