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Mudamos por um vírus, não mudamos pelo clima?

| 23/03/2020

Mudamos por um vírus, não mudamos pelo clima?

by | 23 Mar 20

O novo coronavírus está a ter um efeito directo na redução das emissões de carbono pela nossa mudança de hábitos. Neste caso, uma mudança forçada.

Adianta a agência Lusa, reunindo dados da imprensa internacional, que há menos um milhão de toneladas de CO2 por dia no mundo por causa do coronavírus graças à queda na procura do petróleo, o abrandamento no consumo de carvão e a suspensão de milhares de voos.

A China, um dos maiores poluidores do mundo juntamente com a América e a Europa, reduziu drasticamente, com a pandemia, as suas emissões de carbono: em duas semanas emitiu a mesma percentagem que, adivinhe-se, Portugal num ano inteiro.

Estamos a viver a maior crise dos últimos tempos e eu a falar de alterações climáticas… que mau tom e falta de noção, poderão pensar algumas pessoas.

Na verdade, a crise climática é mais grave do que a crise da covid-19, obriga do mesmo modo à mudança global de comportamentos e matou, mata e matará mais gente do que a covid-19.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), só a poluição do ar mata actualmente cerca de 7000 pessoas por ano. Como já referi num artigo no 7MARGENS, e segundo a mesma organização, 250 mil pessoas em cada ano morrerão, até 2050, vítimas de problemas derivados das alterações climáticas. Sim, a OMS, a mesma organização que está a liderar o mundo e os responsáveis dos governos para enfrentar a covid-19.

Numa visita oficial de Justin Welby, arcebispo de Cantuária e primaz anglicano, um habitante das ilhas Fiji, no Pacífico, disse-lhe: “Para vocês europeus, o clima é um problema para o futuro. Para nós, é uma questão de sobrevivência diária.“

Agora que, com a covid-19, sabemos o que é uma crise, adoptar comportamentos em prol da sobrevivência diária, nossa, dos nossos e de todos à nossa volta, já podemos acreditar nestes dados? Conseguimos já ter empatia com outros habitantes de sítios diferentes do planeta que vivem numa crise permanente, a crise climática?

Neste momento, o Ambiente respira e as pessoas deixam de respirar. Precisávamos mesmo de chegar a esta contradição? Não poderiam ambos respirar?

Um artigo do The Guardian perguntava: como seria se tratássemos a crise climática como estamos a tratar o Corona? Algumas respostas: cancelavam-se voos e aeroportos, deixava-se o carro em casa, estabeleciam-se linhas de crédito de milhões (para reduzir o impacto na economia da transição climática obrigatória urgente), criavam-se fundos de apoio e meios para trabalhar em casa (reduzindo as emissões de CO2).

Ou seja, exactamente, o que estamos a fazer agora por causa do novo coronavírus.

Então, qual a diferença do nosso comportamento, como pessoas individuais e colectivas (Estados e empresas), da crise da covid-19 para a crise climática? Será só porque, nesta última, não somos nós directamente a morrer, mas outros?

Tínhamos de estar em risco (nós: ocidentais/hemisfério Norte) para adoptarmos medidas que baixem as emissões de gases com efeito de estufa?

Seremos tão egoístas que apenas tratamos algo como uma crise e com urgência, adoptando desde logo mudanças nos nossos hábitos, quando ela acontece no nosso país, no nosso continente, e não com outra pessoa longe?

Recuso-me a pensar que seja assim: a minha Fé na humanidade e nos crentes ficaria perdida para sempre. Nas palavras simples de Greta Thunberg: ”Se tivessem consciência e se continuassem a não mudar era porque eram todos maus” e ambas nos recusamos a pensar assim.

Acredito que é falta de informação e de consciência.

O nosso cérebro parece estar programado para evitar coisas difíceis porque consomem mais energia. Só a palavra mudança já acciona esse mecanismo, esse alarme no cérebro, para não fazer, porque consome energia. Isto faz com que muitas vezes, contra todo o entendimento científico, de organizações mundiais, de vozes proféticas, agarramos mentalmente bodes expiatórios, anti-mudança climática, criados pelas empresas e sectores que vão perder dinheiro se mudarmos. Deixamos a confortável dúvida pousar para evitar fazermos alguma coisa que poderia afastar o colapso climático. Esta é a minha visão para não perder a esperança na humanidade: tal como por causa deste vírus, temos plena capacidade para mudar e nos adaptarmos.

 

Catarina Sá Couto é missionária leiga da Igreja Lusitana – Comunhão Anglicana, “jovem líder” da Carta da Terra e representante em Portugal dos Green Anglicans – Rede Lusófona

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