Muhammad Yunus: “Começar do zero” e aproveitar os “horizontes ilimitados” que a pandemia abriu

| 6 Mai 20

Muhammad Yunus na Associação Nacional do Direito ao Crédito, em Lisboa, a 24 de Janeiro de 2006. Foto © José Centeio.

 

O economista Muhammad Yunus, fundador do Grameen Bank (“banco de aldeia”) no Bangladesh, impulsionador do conceito de microcrédito e dos negócios sociais e Prémio Nobel da Paz em 2006, chama a atenção para “os horizontes ilimitados” que a crise da covid-19 abriu. Esta é a oportunidade para “começarmos do zero”, diz, num texto publicado esta terça-feira, 5 de maio, na página digital do jornal francês Le Monde.

No texto, Yunus apresenta as suas premissas para o que ele chama de “reconstrução” e não apenas de recuperação da economia ou mera resolução da crise. Os danos causados por esta pandemia são também uma oportunidade única, defende. Devemos voltar ao mundo como era antes ou repensá-lo? A decisão é colectiva, mas seria bem mais fácil se houvesse entendimento a nível mundial. Voltar ao que era antes, sugere, é um suicídio anunciado, já que o caminho antes da pandemia era o prenúncio de uma avalanche de tragédias: a catástrofe climática, cuja contagem regressiva há muito se iniciara e que tornaria o planeta inabitável; a inteligência artificial e o desemprego em massa; a concentração de riqueza que atingiu níveis explosivos. Esta década é a oportunidade derradeira, aponta.

“Devemos, acima de tudo, concordar que a economia é apenas um meio para alcançarmos as metas que nos impusemos. A economia não é uma armadilha mortal projetada por um poder qualquer divino com o intuito de nos punir”, escreve o economista. “Em nenhum momento devemos esquecer que é apenas uma ferramenta criada por nós. Uma ferramenta que devemos constantemente pensar e repensar até que nos conduza ao maior bem-estar comum possível” Mas quando a economia não nos leva onde queremos chegar, acrescenta Yunus, significa que existe um qualquer erro no hardware ou no software.”

 

Negócios sociais, primeiro passo de um plano de reconstrução

Trata-se, para o fundador do Grameen, de uma reconstrução social e ecológica que terá as empresas como centro e deve assentar num princípio fundamental: “A consciencialização social e ambiental como o pilar central de todas as decisões. Os Estados devem garantir que nem um único dólar seja destinado a entidades ou projetos que não tenham, acima de tudo, o interesse social e ecológico da sociedade como objetivo”. Sendo esta a chave, Yunus aponta os alicerces sobre os quais deve assentar esse plano de reconstrução.

De acordo com o Nobel da Paz 2006, esta forma de empreendedorismo deve ter um papel central na reconstrução. Ou seja, o seu único objetivo é resolver os problemas das pessoas, sem qualquer retorno para os investidores que não seja o da recuperação do investimento. Depois deste resultado, todos os lucros devem ser reinvestidos no negócio. Ao Estado caberá ser a força motriz, ou seja, não deve esperar que essas iniciativas surjam sozinhas e em número suficiente e apoiando as empresas onde as iniciativas de empreendedorismo social levarão tempo a surgir.

Yunus sugere que, para acelerar o seu aparecimento, as autoridades públicas criem a nível nacional e local, fundos de capital de risco especializados em empreendedorismo social. Por outro lado, acrescenta, podem incentivar o setor privado (fundações, instituições financeiras, fundos de investimento) a fazerem o mesmo e ainda estimular as empresas tradicionais a que se reconvertam ou trabalhem em conjunto com as entidades da economia social e solidária.

Nesta nova economia caberá também aos Estados a assistência financeira às empresas de negócios sociais para a aquisição de outras ou reconversão de empresas em dificuldade. Neste plano de reconstrução, há que envolver o maior número de atores.

 

Aumentar a participação do empreendedorismo social

Será que podemos confiar na economia para esta transformação? Yunus responde: “Enquanto a economia continuar sendo uma ciência dedicada à maximização de lucros, não podemos confiar nela para a reconstrução social e ecológica. A estratégia certa é aumentar a participação do empreendedorismo social na economia global à medida que a economia se recupera.”

A esperança do “banqueiro dos pobres” nesta revolução vai muito além de um pequeno núcleo de empreendedores: “Esses empresários não são uma pequena comunidade de beneficentes. Há todo um ecossistema global composto por multinacionais gigantes, grandes fundos de investimento, muitos líderes empresariais talentosos, fundações e empresas financeiras, todos com longa experiência em financiamento e gestão de empresas sociais internacionais ou locais.” Para que esta força se ponha em movimento é necessário que os estados apoiem, reconheçam e deem visibilidade ao empreendedorismo social, acrescenta.

Muhammad Yunus em Lisboa, em 2006: é preciso derrubar o muro entre cidadãos e poderes públicos, defende no artigo. Foto © José Centeio.

Cidadãos, autoridades públicas e uns Jogos Olimpícos vencedores

O plano de reestruturação, segundo Yunus, deve ainda derrubar o muro entre cidadãos e poderes públicos de forma a incentivar o envolvimento do maior número de pessoas, criando as suas empresas sociais. Diante do desespero e da urgência no pós-covid-19, “um Estado que adote a atitude correta poderá provocar uma proliferação de atividades nunca antes vista”.

Muhammad Yunus não tem dúvidas: “É com esse critério que avaliaremos a qualidade dos líderes: mostrando o caminho para um renascimento radical do mundo, unindo todos os cidadãos.” E acrescenta: “Se não apontarmos ao sítio certo na reconstrução social e ecológica, vamos diretamente para um desastre ainda pior que o do coronavírus. (…) se ignorarmos os sérios problemas que o mundo enfrenta, não teremos para onde escapar da ira da mãe natureza e das pessoas de todo o mundo.”

Pode duvidar-se do otimismo quase desmesurado de Yunus, mas ele não desiste de estabelecer pontes entre margens que se diria impossíveis de aproximação, tentando lançar sementes de transformação em terrenos à partida pouco propícios. Uma dessas pontes ficou bem evidente na sua proposta para que os Jogos Olímpicos previstos para 2024, em Paris, fossem económica e socialmente responsáveis.

No início, poucos acreditavam na ideia: propor um novo modelo de jogos, aberto a todas as empresas, mesmo as micro, as mais atípicas, as mais inovadoras, onde as pessoas mais afastadas do mercado de trabalho pudessem ser integradas. A verdade é que nasceu uma parceria entre a sociedade Paris 2024 (responsável pela organização), a Solideo (responsável pelas obras), o município, o Yunus Center (Centro mundial de recursos no domínio da Economia Social e Solidária) e a associação Les Canaux (que apoia atores da Economia Social e Solidária, em França e outros países). Foi essa a candidatura vencedora que, assim se propõe, dará origem aos primeiros Jogos Olímpicos inclusivos e solidários.

Em Portugal são já vários os exemplos de empreendedorismo social, embora seja ainda longo o caminho a percorrer no país, até agora pouco atento a estas realidades. A única instituição que, no país, apostara em promover e desenvolver um projeto de microcrédito orientado para os mais vulneráveis e excluídos (a Associação Nacional do Direito ao Crédito) viu-se obrigada a encerrar as suas portas, deixando muitos homens e muitas mulheres empreendedoras sem qualquer outra alternativa de acesso a microcrédito.

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