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muhammad yunus à chegada ao Bangladesh, 8 de agosto de 2024. Foto reproduzida a partir do perfl de X @AJEnglish

"Um dia glorioso"

Muhammad Yunus já está no Bangladesh, e quer remodelar o capitalismo com altruísmo

| 08/08/2024

muhammad yunus à chegada ao Bangladesh, 8 de agosto de 2024. Foto reproduzida a partir do perfl de X @AJEnglish

Visivelmente feliz e emocionado á chegada ao Bangladesh, naquele que descreveu como “um dia glorioso”, Muhammad Yunus comprometeu-se a restaurar a “lei e a ordem”. Foto reproduzida a partir do perfl de X @AJEnglish

Muhammad Yunus chegou esta quinta-feira, 8 de agosto, ao Bangladesh, onde foi empossado como chefe do novo governo provisório. Conhecido como o “banqueiro dos pobres” e vencedor do Nobel da Paz em 2006, Yunus assegurou que “o novo governo protegerá o povo e ganhará a sua confiança” e pediu à população que pare com a violência. Ele que continua a acreditar que o altruísmo é a solução para os grandes problemas do país… e do mundo.

“O Bangladesh criou um novo dia de vitória. O Bangladesh tem uma segunda independência”, disse Yunus aos jornalistas e apoiantes ainda no aeroporto de Daca. Visivelmente feliz e emocionado com aquele que descreveu como “um dia glorioso”, o economista de 84 anos lembrou no entanto que “a indisciplina e a violência são grandes inimigos do progresso” e do “caminho iniciado” no país, e comprometeu-se a restaurar a “lei e a ordem”.

Yunus, que criou em 1976, no Bangladesh, a primeira organização de microcrédito (o Grameen Bank), conseguiu com essa iniciativa tirar milhões da pobreza, especialmente mulheres. Em janeiro deste ano, foi condenado a seis meses de prisão por alegadamente violar leis laborais. Tendo proclamado sempre a sua inocência, diz ter sido vítima de “assédio constante” pela ex-primeira-ministra, Sheikh Hasina, que chegou ao poder em 2009 e abandonou esta segunda-feira o cargo (e o país), sob a pressão dos protestos estudantis que começaram pacificamente a 01 de julho, mas que se tornaram violentos e acabaram por exigir a demissão de Hasina após a brutal repressão dos mesmos.

 

A origem e força dos protestos

Na origem dos protestos esteve um controverso sistema de quotas, que reservava até 30% dos empregos públicos para os familiares dos veteranos que lutaram na guerra de independência do Bangladesh contra o Paquistão em 1971.

A 16 de julho, os protestos tornaram-se violentos, com os estudantes a entrarem em confronto com agentes de segurança e ativistas pró-governamentais, o que levou as autoridades a dispersar as manifestações com gás lacrimogéneo, a disparar balas de borracha e a impor um recolher obrigatório com ordem de disparo à vista. A Internet foi desligada.

Apesar de o Supremo Tribunal ter decidido rever o sistema de quotas, os protestos continuaram a expandir-se, atraindo pessoas de todos os quadrantes e ganhando o apoio dos principais partidos da oposição. Uma nova vaga de manifestações antigovernamentais prolongou-se durante o fim de semana passado e os confrontos violentos recomeçaram. O dia mais mortífero foi o passado domingo, 4 de agosto, quando pelo menos 95 pessoas foram mortas, de acordo com os meios de comunicação social locais. Sheikh Hasina demitiu-se no dia seguinte e terá fugido do país.

Escolhido pelo presidente do Bangladesh, Mohammed Shahabuddin, como líder interino e responsável pela transição (o que respondeu às expetativas do movimento estudantil de protesto), Muhammad Yunus já havia garantido estar pronto para liderar um governo provisório, numa declaração escrita à agência de notícias France-Presse (AFP).

De resto, em 2007, Yunus tinha tentado fundar o seu próprio partido para rivalizar com as duas forças mais importantes do país asiático, a Liga Awami, de Hasina, e o Partido Nacional do Bangladesh.

 

Resolver problemas sociais traz a felicidade

O Nobel da Paz continua a acreditar que “os humanos não são apenas egoístas. Também são altruístas”. Foto © Ralf Lotys (Sicherlich), via Wikimedia Commons

Depois do restabelecimento da ordem, Muhammad Yunus considera que a educação “é a chave” para os problemas do país. “O sistema educacional de hoje ensina apenas uma ideia: maximização do lucro. As escolas devem incorporar a dimensão social dos negócios para que os alunos tenham ambos os ensinamentos. Assim, uma vez formados, os jovens terão a escolha do que querem fazer: ganhar sempre mais dinheiro ou tentar resolver problemas sociais com os seus negócios”, afirmava o economista, em entrevista ao jornal La Croix [artigo exclusivo a assinantes), há pouco mais de um mês.

O Nobel da Paz continua a acreditar que “os humanos não são apenas egoístas. Também são altruístas. Eles trabalham para ganhar dinheiro, melhorar a sociedade e o meio ambiente e ajudar os outros”. Na sua perspetiva, é o sistema capitalista de hoje que “reprime completamente o lado altruísta” e está na origem de problemas como as mudanças climáticas, o desemprego ou as desigualdades. E “é por isso que o ‘negócio social’ complementa o capitalismo. Se ganhar dinheiro contribui para a felicidade, resolver problemas sociais ou ambientais com o seu dinheiro deixá-lo-á ainda mais feliz — é uma experiência extraordinária!”, garantiu na referida entrevista.

Muhammad Yunus assegurou ainda que este modelo não é utópico. Prova disso mesmo são os Jogos Olímpicos de Paris, em cuja organização colaborou. “Quinhentas empresas de economia social e solidariedade mobilizaram-se para o evento, seja para construção de infraestruturas ou para a organização. Além disso, quando os atletas deixarem a Aldeia Olímpica, ela irá tornar-se um bairro com capacidade para seis mil pessoas, incluindo estudantes. E a primeira incubadora dedicada a atletas de alto rendimento em transição, juntamente com um projeto de negócios sociais ou ambientais, foi criada em Paris”, exemplificou, adiantando ainda que já estabeleceu uma parceria com os organizadores das Olimpíadas de Inverno de 2026, em Milão, para que também elas sejam “um evento social e solidário”.

 

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