A vida de um professor – que digo? de um qualquer profissional de educação – é um mistério nos tempos que correm. Segundo notícia inserta no Público de 14 de Novembro [1], uma mãe de Braga, “a idólatrica” (nas imorredoiras palavras do obsceno Pacheco), certamente não libertina, processou um colégio, com o propósito aparente de colher reparação em euros por mor de acidente de seu filho menor. O garoto, hoje com 17 anos e candidato potencial a um dos cursos que melhores médias de exame convocam, partiu um dos membros inferiores enquanto brincava, alerta laranja! à apanhada, alerta vermelho! no recreio do dito colégio, isto ainda antes da pandemia.
Da notícia facilmente se depreende, contra os cínicos, o propósito civilizador da progenitora, orgulhosamente secundada pelo causídico que a assiste nesta sua secular via-sacra. Deve dizer-se, em abono da verdade, que, pior do que professor remediado, só mesmo advogado em causas descabeladas, obrigado a manter a compostura que as normas deontológicas impõem, que não a simples, corrente, decência, a qual fica por conta do cliente. Esta e a, sempre modesta, razoabilidade são bem mais exigentes, mas não constam da profissão de fé profissional dos jurisconsultos e, muito menos, do código que regula a ocupação profissional da cidadã em causa, pelo que não lhes assacaremos especial responsabilidade em matéria que seria geralmente regulada por um sentido, ainda que moderado, do melhor interesse da criança.
Não os lamentemos, posto que, como veremos, o seu empenho em ver suprimida a brincadeira parece não se conformar com a claríssima réplica do Supremo Tribunal de Justiça: “O jogo das apanhadinhas, que encheu a infância de todos nós, será, em abstracto, das actividades menos perigosas que se conhecem, situando-se no campo diametralmente oposto aos explosivos, às armas, às derrocadas, aos deslizamentos de terra, ao uso de engenhos de força muito superior ao ser humano e capazes de o destruir”. E, numa observação final, que mesmo uma amiba devidamente amestrada subscreveria, entendem os meritíssimos juízes (falamos com uma mãe de Braga, por onde, em tempos, se passeou “o libertino”) ser a apanhada “porventura mesmo imprescindível para o desenvolvimento psicomotor, social e cognitivo das crianças”. Retenha-se o prudente “porventura”, a sugerir, talvez, que nem o impecável colectivo está já muito seguro da coisa.
Jonathan Haidt, esse perigosíssimo apologista da brincadeira, do esfolanço e da cabeça partida, em lugar do cocoon emocional, não verbal e misantrópico que faz meninos carentes de todos os bens que a humanidade partilhada proporciona – e hoje é tomado pela chave do futuro, com seu tutor prometido AI!-tchet-gipitiie (transcrição fonética da coisa em língua adolescente): cumprimentos a Gonçalo Matias! –, apresentava, na obra A Geração Ansiosa. Como a Grande Reconfiguração da Infância está a provocar uma Epidemia de Doença Mental, Dom Quixote, 2024, o que, a seu ver, era o melhor brinquedo disponível nos parques e recreios para a infância (ver fig. 1). E dado o zelo exibido pela empresária hoteleira bracarense, só podemos esperar que eventual «novo recurso [para o] Supremo Tribunal de Justiça, ou mesmo uma queixa ao Tribunal Europeu dos Direitos Humanos» incluam, como prova de grave atentado contra o bem-estar dos infantes do planeta, o dito aparelho, para que o mesmo seja devidamente apreendido e prontamente entregue ao Museu dos Horrores mais próximo.

Figura 1. Diz Haidt, a respeito deste carrossel: «…é, na minha opinião, a melhor peça de equipamento de recreio alguma vez inventada. Requer cooperação para ser posto em movimento: quantos mais miúdos se associarem, mais veloz será e mais gritam, e as duas coisas ampliam a excitação. As sensações físicas proporcionadas pela força centrífuga não se obtêm em qualquer outro lugar, o que o torna educativa e experiencialmente único. Provoca alteração da consciência, se nos instalarmos no centro (tonturas). Para cúmulo, oferece ilimitadas oportunidades para correr riscos, como estar de pé [sem apoio], pendurar-se de lado ou atirar uma bola com os outros miúdos, enquanto gira.» (pág. 82 da edição paperback inglesa, Penguin Books, 2025). Foto: https://www.afterbabel.com/p/a-norwegian-approach-to-supporting.
E o já citado criminoso, em entrevista concedida a essa central da desobediência que é o Daily Show, teve o desplante de declarar: «As crianças precisam de correr riscos e, se não as deixarmos, elas encontrarão uma maneira de o fazer. Em todas as gerações, para horror dos pais, as crianças encontraram maneiras de se magoar e de fazer coisas estúpidas, como andar de patins em corrimãos ou saltar de um telhado para outro. Por mais perigoso e horrível que isso pareça para os adultos, é adaptativo, o que significa que faz parte de um desenvolvimento saudável.» [2]
Mas ainda não me basta o mau exemplo do psicólogo. Permito-me acrescentar uma tabela constante do artigo A Norwegian Approach to Supporting Children’s Risky Play, de Ellen Sandseter [3].

Figura 2. Barreiras parentais à brincadeira das crianças ao ar livre (em percentagem).
Veja-se a postura exemplar dos progenitores nacionais, a contrastar vivamente com o laxismo dos nórdicos. O que mais os convoca são, precisamente, os fantasmas que uma apaixonada hostilidade à partilha racional e cuidadosa do espaço público neles inculcou: medo do trânsito (67.7), medo induzido pelos media, que os faz recear ferimentos e raptos (61.3), e, sobretudo, medo de estranhos ( 80.6). Os brandos costumes e a suposta bonomia dos locais não se estendem a forasteiros, ainda que vizinhos da rua de trás. No caso que nos ocupa, que fracção dos 61.3 respondentes que invocam como obstáculo à brincadeira ao ar livre os media alerts about children being injured, lost/kidnapped [4], pensa sobretudo em pernas partidas? Isto a somar aos 25.8/100 que não os querem a brincar ao ar livre por temerem que se firam?
Sempre me pareceu que alguns portugueses se vêem sobretudo como espíritos habitando, contrariados, um corpo. Agora, é de suspeitar, que uma parte deles, progenitores ainda por cima, prefiram uma de duas coisas, filhos sem corpo ou corpos aprisionados e permanentemente vigiados para sua (de quem, afinal?) maior segurança. Felizmente, nenhuma das duas é possível, pelo que faço votos de que continuemos o bom combate pela vida, pela brincadeira e pelos joelhos esfolados (se tiver que ser).
[1] Ver texto integral em https://www.publico.pt/2025/11/14/sociedade/noticia/mae-recorre-justica-jogo-apanhada-declarado-perigoso-2154407
[2] Ver em https://www.instagram.com/reel/C-8cZeOvATq/
[3] https://www.afterbabel.com/p/a-norwegian-approach-to-supporting, Maio de 2025; Creio que a tabela é originariamente constante de Barriers for Outdoor Play in Early Childhood Education and Care (ECEC) Institutions: Perception of Risk in Children’s Play among European Parents and ECEC Practitioners, Ellen Beate Hansen Sandseter, Rita Cordovil, Trond Løge Hagen &Frederico Lopes (Pages 111-129 | Published online: 22 Nov 2019) in Child Care in Practice, Volume 26, Issue 2 (2020). After Babel –https://www.afterbabel.com/about – é a plataforma online de Jonathan Haidt. Uma visita, bem como a leitura do livro que cito, ajudará certamente muitos pais e professores a rever crenças e práticas.
[4] …alertas dos meios de comunicação sobre crianças feridas, desaparecidas/raptadas…
João Santos é professor.










