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mulher no tempo roxo ―/ o rosto do futuro?/ erguei os olhos! vede! © haiku e fotografia: Joaquim Félix

[Metáforas vivas]

Mulher no tempo roxo

| 09/03/2026

[domingo iii do tempo da quaresma ― a ― 2026
Dia internacional da mulher]

 

  1. «Dias de deserto! Dias de altercações!
    Quem tem sede de paz, venha à fonte da justiça!».
    Este poderia ser o pregão dos profetas do tempo presente.
    Como comunidade que somos, à semelhança do povo israelita,
    teremos noção que atravessamos dias de deserto.
    Não faltam víboras a morder os povos com bombardeamentos,
    a invadir e espoliar territórios alheios,
    a impedir a passagem nos mares e nos espaços aéreos,
    a matar aos milhares e segundo a seleção dos alvos políticos.
    Só a felicidade da misericórdia poderá reparar estes dias
    nos quais morremos à sede de paz e de direito internacional.

Só a felicidade da misericórdia poderá reparar estes dias. © Fotografia (rótula em mármore no pavimento da Basílica de Santa Maria dos Anjos e dos Mártires, Roma): Joaquim Félix

  1. Atravessamos dias de deserto ou, se desejarmos, «dias de cinza»,
    para evocar o título com que a conhecida banda irlandesa U2
    batizou o seu novo álbum, com músicas que se enraízam
    na corajosa denúncia dos profetas e de Jesus.
    De forma surpreendente, sem anúncios prévios,
    apresentaram seis novos temas, na passada quarta-feira de cinzas.
    Miguel Marujo que cuida, no jornal 7 Margens, de uma rubrica
    onde procura chamar a atenção para «músicos e músicas
    que traduzam a urgência da paz em relação a guerras e conflitos
    que persistem no mundo», pôs em destaque
    os propósitos destes «rapazes de fé» que regressam
    «com composições que se agarram à atualidade».
    Conforme os U2 salientam no seu site,
    este novo álbum «é uma resposta imediata aos acontecimentos atuais
    e inspirada pelas muitas pessoas extraordinárias e corajosas
    que lutam na linha da frente pela liberdade».

Sair dos painéis da guerra pelo pensamento e na luta pela liberdade. © Fotografia (detalhe do arco de triunfo de Constantino, Roma): Joaquim Félix

  1. Creio que, neste dia, em que as sedes se desejam encontrar
    e tendo já em vista a passagem do deserto ao poço de Jacob,
    poderia trazer-se aos ouvidos a Canção do futuro.
    A geografia é a do Irão que, por estes dias,
    tem estado a ser atacado por Israel e os EUA.
    O rosto desta canção é Sarina Esmailzadeh,
    espancada e morta, em 2023, aos 16 anos de idade,
    às mãos das forças de segurança do Irão,
    por ser ativista dos direitos das mulheres.
    Sarina não é apenas o rosto de uma canção dos U2,
    porque, como eles referem, ela é o rosto do futuro:
    «O futuro, como todos sabem
    É onde vamos passar o resto da nossa vida
    Quem disse que o futuro está fechado
    Nunca viu a promessa nos olhos dela… liberdade».Abrir Vídeo:

 

  1. «Porque nos tiraste do Egito?» (Ex 17,3).
    «O Senhor está ou não no meio de nós?» (Ex 17,7).
    Não somos diferentes do povo israelita,
    porque também nós, sentindo os tormentos do nosso êxodo,
    somos capazes de colocar Deus e os seus mediadores à prova.
    E, contudo, por intermédio de novos pais e profetas,
    havemos de escutar quem nos recorde o espírito-da-promissão.
    Com a vara da Palavra, alguém nos abrirá o rochedo da água,
    na sabedoria dos beduínos, dos poetas e dos profetas que não calam.
    Como ditou António Ramos Rosa,
    «As palavras são por vezes um clarão no dia calcinado».
    Com elas e à força da vara-dos-gestos-concretos,
    havemos de bater o rio e o rochedo, havemos de passar e de beber.

Havemos de passar e de beber. © Fotografia: Joaquim Félix

  1. Há dias, morreu o escritor António Lobo Antunes.
    Também ele nos abriu rochedos com as suas palavras,
    interrogando-nos sobre o que fazemos da nossa vida
    e o que permitimos que ela faça de nós.
    Não pode haver falta de rigor para com Deus,
    ― acusando-o, porventura, de ser um condutor para a morte ―,
    ou para com os outros, como se a sua sorte nos fosse indiferente.
    Dizia ele que os livros nos enchem de beleza
    e que, como nossos espelhos, nos mostram quem somos.
    Ele legou-nos livros repletos de perguntas.
    Sem esconder a sua relação conflituosa com Deus,
    não fez dele um bode expiatório,
    nem da sua fúria um bom motivo para descrer;
    antes, agradeceu-lhe por também construir pessoas à sua medida.Abrir Vídeo:

 

  1. A longa passagem do Evangelho, que acabamos de ouvir,
    é um manancial de águas no encontro das sedes, as nossas e a de Jesus.
    Parafraseando a expressão de um doente psiquiátrico,
    que António Lobo Antunes elogiou numa das suas entrevistas,
    poderíamos dizer que esta passagem foi escrita «por trás»,
    tantos são os detalhes a soluçar em saltos disruptivos.
    Os detalhes, muitos deles concebidos de forma simbólica,
    são inúmeros, pelo que, desta vez, irei salientar apenas três temas,
    todos unidos pelo fio roxo das palavras e gestos da samaritana.

Poderíamos dizer que esta passagem foi escrita «por trás». © Fotografia: Joaquim Félix

  1. Nos tratados sobre o Evangelho de São João,
    Santo Agostinho escreveu: «Escutemo-nos a nós mesmos
    nas palavras desta mulher, reconheçamo-nos nela,
    e nela demos graças a Deus por nós» (CCL 36,154).
    Na hora improvável, quando o sol mais dardeja,
    Jesus aguarda, sozinho, pela mulher samaritana.
    Mais do que os conhecimentos de que ela dispunha
    ― por nada, irrelevantes, pois vivia na expectativa do Messias ―,
    surpreender-nos-ão as três perguntas que ela faz:
    «Como é que tu, sendo judeu,
    me pedes de beber, sendo eu samaritana?» (Jo 4,9).
    «Senhor, Tu nem sequer tens um balde, e o poço é fundo:
    donde Te vem a água viva?
    Serás tu maior do que o nosso pai Jacob,
    que nos deu este poço, do qual ele mesmo bebeu,
    com os seus filhos e os seus rebanhos?» (Jo 4,11-12).
    «Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz.
    Não será ele o Messias?» (Jo 4,29).
    A arte de fazer perguntas é fundamental nos encontros com Jesus.
    Sem elas, não chegaremos à fé para O reconhecer
    e permitir que ele nos diga quem somos, na sede e nos desejos profundos.
    Só quando somos ditos por Ele, na verdade que Lhe confessamos,
    por mais que nos custe assumi-la, a sede da nossa fé é colmada.

Tu nem sequer tens um balde, e poço é fundo: donde Te vem a água viva? © Fotografia: Joaquim Félix

  1. Os discípulos não chegaram a fazer as perguntas preconceituosas
    com que esta mulher foi vista ao longo dos séculos,
    supondo-a uma grande adúltera, já no sexto marido.
    É curioso reparar que quem evangelizou aquela cidade da Samaria
    não foram eles, mas ela, na sua condição de «Mulher» (Jo 4,21).
    Deixando a bilha, para ser mais diligente,
    «correu à cidade e falou a todos» (Jo 4,28).
    Não estará São João a apresentar esta Mulher
    como modelo e estilo de evangelização dos samaritanos,
    que veneravam, no seu panteão, cinco divindades estrangeiras?
    Que implicações poderá isto ter na missão atual da Igreja?

Que implicações poderá isto ter na missão atual da Igreja? © Fotografia (escultura num jardim público de Benevento): Joaquim Félix

  1. Jesus presta uma atenção especial a esta mulher,
    como aliás o fez com tantas outras, por quem se deixava acompanhar
    Não a evita; espera-a. Não a subestima; pede-lhe de beber.
    Faz das suas perguntas o balde a descer ao sentido da sede.
    Sem se submeter aos preconceitos de judeus e samaritanos,
    abre a sua sede para um horizonte vital e o culto «em espírito e verdade».

Jesus presta uma atenção especial a esta mulher. © Fotografia (na Porta da Ressurreição, na Basílica de Santa Maria dos Anjos e dos Mártires, Roma): Joaquim Félix

  1. Celebrando hoje o Dia Internacional da Mulher,
    neste tempo roxo, que não é somente de quaresma,
    creio que esta atenção que Jesus presta à samaritana
    nos poderia fazer abrir a um estilo renovado
    de sermos discípulos evangelizadores onde, sem a sua abertura,
    jamais veríamos lugares e pessoas por onde temos de começar.
    «Não dizeis vós que dentro de quatro meses
    chegará o tempo da colheita?
    Pois bem, Eu digo-vos:
    Erguei os olhos e vede os campos,
    que já estão loiros para a ceifa.
    Já o ceifeiro recebe o salário
    e recolhe o fruto para a vida eterna
    e, deste modo, se alegra o semeador juntamente com o ceifeiro» (Jo 4,35-36).Abrir Vídeo:

Com esta distensão do olhar, Jesus mostra o horizonte da evangelização,
focado não apenas no trabalho da sementeira,
mas também, e sobretudo, na alegria da colheita.
Jesus desprende os olhos dos discípulos, agarrados ao mérito do semear,
para lhes incutir outro ritmo ao olhar e uma visão de futuro mais alegre.
Sim, numa outra generosidade, na medida-da-samaritana-anónima,
que, depois de ter ouvido os samaritanos dizerem
«Já não é por tua causa que acreditamos» (Jo 4,42),
não se lamentou por falta de reconhecimento;
antes, alegrou-se com o semeador, o Espírito Santo,
pelo que, de seguida, deles ouviu em coro: «Nós próprios ouvimos
e sabemos que Ele é realmente o Salvador do mundo» (Jo 4,42).

Para lhes incutir outro ritmo ao olhar e uma visão de futuro mais alegre. © Fotografia: Joaquim Félix

  1. Os grupos de Estudo do Sínodo, num recente relatório,
    apelam para que os Seminários integrem mais «mulheres
    bem preparadas e competentes como corresponsáveis ​​
    em todos os níveis de formação,
    inclusive dentro da equipa de formação,
    a fim de beneficiarem da sua indispensável contribuição
    para o discernimento vocacional
    e para o acompanhamento dos candidatos ao sacerdócio».
    Neste Seminário, temos inclusive a samaritana que, há séculos,
    fala com Jesus, bem vestido, de casaco e chapéu de abala larga,
    com o seu cão junto dos pés; estão aqui num painel de azulejos.
    No meio da assembleia, porém, há outras Mulheres de carne e osso,
    que integram, desde há muito tempo, a equipa de formação
    no acompanhamento espiritual e na formação humana dos seminaristas.
    Uma delas ― Alzira Fernandes ― é fundadora da Casa de Sicar.
    Sempre que vê poços, por exemplo, nos claustros,
    aproxima-se, fecha os olhos, pensa e medita
    no alcance do Evangelho escutado neste domingo.

Neste Seminário, temos inclusive a samaritana que, há séculos, fala com Jesus. © Fotografia (azulejos na igreja de S. Paulo, do Mestre P.M.P., datados do final do séc. XVII ou inícios do séc. XVIII): Joaquim Félix

  1. Senhor, que nos justificastes pela fé (Rom 5,1)
    e nos concedeis a paz como o mundo não pode dar,
    acompanhai-nos, nestes dias de cinza.
    Ó Leão da tribo de Judá, dessedentai a nossa sede
    com soluçantes jorros de água viva
    sobre todos os hieróglifos indecifráveis do mundo.
    Ah, se conhecêssemos o dom de Deus,
    abriríamos a boca, como na Comunhão poderemos fazer,
    e, uma vez dessedentados e saciados,
    acolheríamos o Espírito Santo que nos tornaria
    «uma nascente que jorra para a vida eterna» (Jo 4,14).

Alzira Fernandes, fundadora da Casa de Sicar, junto do poço no claustro de Santa Sofia, Benevento © Fotografia: Joaquim Félix

Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das Passagens. Este texto corresponde à homilia de domingo, 8 de março, proferida na igreja de S. Paulo, do Seminário Conciliar de Braga. 

 

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