
170 mulheres negras católicas de diversos países da América Latina e das Caraíbas lançaram esta quinta-feira, 18, uma rede de apoio mútuo na região. Foto © DR/Consejo Episcopal Latinoamericano
Mitigar a sua própria marginalização da sociedade e procurar um lugar especial na Igreja. São estes os grandes objetivos de 170 mulheres negras católicas de diversos países da América Latina e das Caraíbas que lançaram esta quinta-feira, 18, uma rede de apoio mútuo na região.
“As mulheres negras são geralmente vistas como aquelas que têm de trabalhar na cozinha. Infelizmente, isso também acontece na Igreja”, afirmou a irmã Ruperta Palacios, que dirige a Pastoral Afro Latino-Americana e das Caraíbas, citada pelo Crux. “Já é tempo de reconhecer o trabalho que essas mulheres têm vindo a fazer”, acrescentou.
O movimento, já batizado de Líderes Católicas Afrodescendentes da América Latina (LACAM), reúne mulheres negras que ocupam posições de liderança nas suas comunidades eclesiais ou movimentos sociais. A rede é formada por religiosas, ministras leigas e ativistas de base. O LACAM foi idealizado para trabalhar em estreita relação com a Pastoral Afro da América Latina e das Caraíbas.
“A rede será organizada de acordo com a estrutura da Pastoral Afro, considerando não apenas o número de pessoas, mas também os seus territórios”, referiu a leiga católica Eunice Meneses, uma das promotoras de um encontro que decorreu esta semana para preparar a formação da referida rede.
“O Papa Francisco tem trabalhado por nós. Mas para as nossas igrejas em particular, parece ser muito difícil colocar as mulheres em lugares de liderança num ministério pastoral ou em qualquer outra instância. Especialmente as mulheres negras”, mencionou Palacios. Do seu ponto de vista, a “Igreja latino-americana ainda não assumiu com a profundidade necessária o compromisso com as mulheres negras e outros segmentos sociais marginalizados no que diz respeito à participação”. “Uma coisa é o que dizemos, outra coisa é o que fazemos. Vai levar anos e anos até que as mulheres estejam realmente a ocupar cargos de decisão”, concluiu Palacios.
Já Meneses disse que “a primeira vez que um grupo de mulheres negras católicas discutiu a necessidade de ter um espaço específico para elas na Igreja foi em 2003, durante o nono encontro da Pastoral Afro”. “Desde então, falámos sobre isso em diferentes reuniões, como a que tivemos no México [em 2020]”, afirmou.
Para criar oficialmente a rede, o grupo decidiu convidar a Conferência Latino-Americana e Caribenha de Religiosos (conhecida como CLAR), onde também havia um grupo negro.
“Inicialmente, vamos concentrar-nos na formação de líderes, algo que notámos ser necessário nos nossos inquéritos. Temos de aumentar o potencial dos nossos conhecimentos ancestrais para reforçar as nossas capacidades”, explicou Meneses. “A maioria dessas mulheres são resilientes e amam outras pessoas, mesmo que não façam parte da sua família, que são caraterísticas de que a Igreja precisa”. “Queremos falar de um feminismo católico influenciado pela nossa cosmovisão africana”, rematou.
Segundo uma estimativa das Nações Unidas, 134 milhões de pessoas identificam-se como negras na América Latina e nas Caraíbas. A maior comunidade está no Brasil, com mais de 100 milhões de pessoas de ascendência africana. No Haiti, mais de 95 por cento da população é negra. Existem também comunidades consideráveis na Colômbia, Equador, República Dominicana, Costa Rica e Panamá.









