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Intervenção crítica

Mulheres religiosas abusadas na Igreja foi tema denunciado no Sínodo

| 14/10/2024

Sheila Pires, Paolo Ruffini, Sínodo

Sheila Pires (aqui, ao lado de Paolo Ruffini, director da Comissão de Informação do Sínodo) trouxe a notícia da intervenção crítica sobre as religiosas que sofrem abusos na Igreja. Foto © Vatican Media.

A problemática das mulheres religiosas vítimas de abuso foi motivo de uma intervenção crítica na aula sinodal, tendo originado uma salva de palmas no final. A notícia transpirou para o exterior não por qualquer fuga de informação, mas pela boca da própria secretária da Comissão de Informação do Sínodo, a moçambicana Sheila Pires, na intervenção que abriu o encontro com jornalistas, esta segunda-feira, 14 de outubro.

“Finalmente houve um tema relacionado com as mulheres”, começou por sublinhar Sheila Pires, em alusão implícita ao facto de o tema da ordenação de mulheres diáconos ter sido retirado da agenda dos trabalhos. A abordagem da “violência exercida sobre mulheres, mesmo em formação” disse respeito “não só a abusos sexuais, mas também abusos de poder e de consciência, assim como abusos espirituais”, acrescentou a responsável.

Na descrição feita, há mulheres religiosas que trabalham arduamente especialmente para chegar aos mais vulneráveis, as quais, ao serem confrontadas com questões relacionadas com abuso sexual ou outro tipo de abusos, “não conseguem expressar a sua preocupação, o que é devido ao comportamento patriarcal da sociedade; e permanecem em silêncio”.

Estas denúncias ocorreram no âmbito da reflexão sobre a terceira parte do Instrumentum Laboris. Nesse sentido, foi sugerido na aula sinodal que as dioceses e as conferências episcopais deveriam introduzir procedimentos e sistemas para enfrentar os problemas referidos. Foi também sugerida a revisão das políticas contratuais com mulheres consagradas e também com leigos em geral, de forma a garantir a dignidade de quem trabalha em serviços da Igreja.

Ainda no tocante às mulheres, a Comissão de Informação realçou a verificação feita por alguns participantes de que, na maioria dos seminários, “falta uma presença feminina de consagradas ou leigas na formação de sacerdotes, assim como faltam leigos especializados”.

A participação das mulheres é, no entanto, tida como fundamental, porque “elas podem ver coisas que os outros não veem, garantem uma formação equilibrada e enriquecem o programa geral da formação dos futuros sacerdotes”.

Já no período de perguntas e respostas, uma jornalista quis saber se, relativamente à matéria das violências exercidas sobre mulheres religiosas, será previsível que o texto final do Sínodo venha a incluir indicações ou orientações mais precisas.

Quem respondeu primeiro foi Sheila Pires. Fez notar que ainda é cedo para se falar no documento final, mas, atendendo a que o abuso de religiosas constitui “um assunto muito importante em África, mas também noutras regiões do mundo”, ela acha que sim, que haverá referências naquele documento.

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O desafio, em relação às freiras religiosas abusadas, é “purificar as relações para tornar possível a cultura do cuidado”, defendeu Gloria Liliana Franco Echeverri, Imagem © Hemera

Presente na mesa do encontro com os jornalistas encontrava-se também a religiosa e teóloga Gloria Liliana Franco Echeverri, que já tinha dado a sua visão sobre o modo como têm decorrido os trabalhos sinodais e que entendeu pronunciar-se sobre esta matéria. Mais do que responder se o assunto vai ou não chegar à fase de conclusões, preferiu testemunhar sobre o que se está a fazer sobre os abusos na América Latina e Caraíbas, zona do mundo de onde é originária e em que trabalham cerca de 150 mil religiosas e religiosos.

No seu modo de ver, depois de décadas em que as congregações e institutos religiosos se pautaram por quadros de “relações rígidas e que excluíam”, o grande desafio que todos têm é “purificar as relações para tornar possível a cultura do cuidado”. Para tal, explica ela, têm sido “desenvolvidos processos muito claros, no sentido de rever os modos relacionais”, procurando apurar se e em quê “aquilo que somos e fazemos é abusivo”: se dá ou não espaço à diferença, à inclusão, “de modo a sintonizar com o modo de ser de Jesus”. E não se trata, diz a religiosa de problemas que podem existir apenas no interior das comunidades e no funcionamento das congregações; na verdade, eles também podem vir de fora e tornar vulneráveis os direitos e a dignidade das mulheres ou homens consagrados. Neste sentido, pode dizer-se que o atual processo sinodal constitui “um apelo à conversão em ordem à cultura do cuidado”.

O processo sinodal constitui um apelo à conversão em ordem à cultura do cuidado. Os abusos não foram o único tema do encontro desta segunda-feira com os jornalistas. Nos últimos dias, deu-se também atenção aos processos de preparação e tomada de decisão, por um lado, e de transparência na vida da Igreja Católica, por outro. São pontos que surgem claramente enunciados no Instrumentum Laboris (números 67-72 e 73-79, respetivamente).

Segundo referiu nesse encontro o diretor da Comissão de Informação do Sínodo, Paolo Ruffini, na aula sinodal foi, por estes dias, sublinhada repetidamente a necessidade de constituir gabinetes de consultores de leigos competentes e autorizados, que possam servir de auxílio aos bispos, para “evitar um peso excessivo sobre quem decide”.

No que respeita à transparência, foi dito que ela é “um elemento fundamental da Igreja sinodal, em todos os âmbitos” – desde as que assumem a tutela de pessoas vulneráveis aos que estão ligados a questões financeiras. Mas “deve sempre equilibrar-se com a reserva e o respeito pela privacidade quando está em questão informação sensível”.

 

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