Começa nesta segunda-feira, dia 20 de janeiro, e termina no próximo dia 24, a 55ª edição da reunião anual do Fórum Económico Mundial (WEF), mais conhecido pela cidade dos Alpes suíços onde se realiza: Fórum de Davos. São esperados cerca de 350 líderes mundiais de mais de 130 países, entre os quais 60 chefes de Estado e de governo, para além de 900 líderes de grandes empresas. No total esperam-se cerca de cinco mil participantes. Aqui se reúnem anualmente as elites económica e política que nos governam. E, como já vem sendo habitual, neste mesmo dia, a organização Oxfam Internacional tornou público o seu relatório, Takers not Makers (Beneficiários, não Criadores) relativo ao ano 2024, sobre a pobreza e as desigualdades nesta nossa “Casa Comum”. E não será certamente inocente esta atitude, pois nesse encontro concentram-se aqueles que têm nas suas mãos o poder de alterar o rumo e dar alguma esperança aos mais desprotegidos deste mundo.
Acresce ainda que o arranque do fórum deste ano coincide com a tomada de posse de Donald Trump, o novo inquilino da Casa Branca, cujo discurso no fórum está previsto para a próxima quinta-feira à tarde.

Tal como admitiu o novo líder do Fórum Económico Mundial, o norueguês Borge Brende, a edição de 2025 ocorre “no cenário geopolítico mais complicado das últimas gerações”.
Esta coincidência não deixa de ser simbólica quando o mundo é cada vez mais desigual e muitos pensam que a eleição de Trump vai marcar definitivamente o mundo em que vivemos. Exagero? Talvez, mas em Davos é com expetativa que se espera o discurso do novo presidente para se saber quais as prioridades da nova administração americana. Sobretudo porque este ano o Fórum se desenrola num contexto de fortes tensões à escala global, seja devido aos vários conflitos armados e guerras na Ucrânia e Médio Oriente, seja por causa das guerras comerciais que se adivinham, mas também pela pressão das alterações climáticas e a procura de novos equilíbrios geoestratégicos. Tudo isto num momento de crise em vários países, nomeadamente europeus, e também de uma clara desvalorização do papel da organização das Nações Unidas como mediador de conflitos e garante da paz. Tal como admitiu o novo líder do Fórum Económico Mundial, o norueguês Borge Brende, a edição de 2025 ocorre “no cenário geopolítico mais complicado das últimas gerações”.
Basta-nos olhar para o grau de destruição da Ucrânia e de Gaza para percebermos que, perante este cenário, a esperança numa redução da pobreza e das desigualdades parece quase uma utopia e a tendência é que a situação se agrave durante o próximo ano. Se é verdade que a Oxfam previu, no ano passado, o surgimento do primeiro trilionário (riqueza na ordem dos triliões) dentro de uma década, face à aceleração da acumulação de riqueza essa projeção foi atualizada – tendo em conta a taxas atuais de enriquecimento – para que apareçam pelo menos cinco trilionários dentro desse prazo.
Relatório “Takers not Makers”
Os números apresentados no relatório são chocantes e imorais para todos, mas sobretudo para quem se vê obrigado a lutar diariamente pela sua sobrevivência e da sua família. Entre os mais fragilizados, as mulheres e as crianças continuam a ser os que mais sofrem com estas situações.Globalmente, as mulheres encontram-se com maior frequência em formas mais vulneráveis de emprego, nomeadamente informal, incluindo trabalho doméstico. Os trabalhadores migrantes em países ricos ganham, em média, cerca de 13 % menos que os nacionais, com a diferença salarial a subir para 21 % quando se trata de mulheres migrantes.
Alguns números
. A riqueza dos 10 maiores multimilionários do mundo cresceu, em média, 100 milhões de euros por dia no ano passado
. A riqueza combinada dos multimilionários aumentou de quase 13 biliões de euros para cerca de 15 biliões de euros em apenas 12 meses;
. A riqueza combinada dos multimilionários do mundo aumentou 1,94 biliões de euros em 2024, o equivalente a 55,4 mil milhões de euros por dia. De acordo com a Oxfam, significa que cresceu a um ritmo três vezes superior ao do ano anterior.
. A riqueza conjunta dos dez homens mais ricos do mundo aumentou, em média, quase 97,2 milhões de euros por dia e mesmo que perdessem 99% da sua riqueza de um dia para o outro, “continuariam a ser multimilionários”, refere o relatório.
. O 1% mais rico da população mundial possui 45% da riqueza global, enquanto 44% da humanidade vive com menos de 6,66 euros por dia. De acordo com o Banco Mundial o número de pessoas que vive na pobreza permanece quase inalterado desde 1990.
O relatório refere também o fluxo de riqueza do Sul para Norte exigindo as organizações que fazem parte da Oxfam que se acabe com esse fluxo , nomeadamente través do cancelamento de dívidas ou ainda eliminando o poder que os países ricos e as empresas têm sobre os mercados financeiros e as regras comerciais que elas próprias ditam. Ainda de acordo com o documento, o “1% mais rico dos países do Norte Global, como os EUA, o Reino Unido e a França, extraiu, em 2023, cerca de 30 milhões de euros por hora do Sul Global através do sistema financeiro, além de que os países do Norte Global controlam 69% da riqueza global e albergam 68% dos multimilionários controlando 77% da sua riqueza, apesar de representarem apenas 21% da população global”.
De entre as várias propostas, assumidas pela Oxfam destaca-se:
- A taxação de multimilionários enquadrada numa nova convenção fiscal da ONU com o objetivo de reduzir as desigualdades económicas no mundo;
- Abolição dos paraísos fiscais, uma vez que metade dos multimilionários do mundo vive em países sem imposto sobre as heranças para os descendentes diretos.
- Para “reduzir radicalmente a desigualdade”, “os governos precisam de se comprometer a garantir que, tanto a nível global como a nível nacional, o rendimento dos 10% mais ricos não é superior ao dos 40% mais pobres”.
A nível mundial, o relatório revela que 36% da riqueza dos mais ricos é herdada e 61% é também marcada pelo clientelismo e/ou ligada ao poder dos monopólios.
Apesar destas propostas não resolverem o problema, poderiam mitigar as suas consequências.
Não deixa de ser curioso que o lema da 55ª edição do Fórum Económico Mundial seja “Colaborando para a Era Inteligente” – uma época caracterizada por rápidos avanços em tecnologias como inteligência artificial e computação quântica. De acordo com um relatório do Fórum sobre o futuro do trabalho divulgado do início de janeiro, as novas tecnologias poderiam destruir 92 milhões de empregos em todo o mundo até 2030, ao mesmo tempo em que criariam 170 milhões de novos empregos. Esta transformação vai exigir um grande esforço de adaptação e investimento em formação, o que significa que irá aumentar ainda mais o nível de desigualdades. Por outro lado, existe o enorme risco de uma concentração desmuserada de poder nos países e empresas que controlam as áreas das tecnologias e da Inteligência Artificial. Como são áreas que exigem grandes investimentos à partida os já multimilionários estão na linha da frente. Aliás, a aliança entre Donald Trump e Elon Musk, em que este último acaba por comprar o futuro Presidente, é disso exemplo.
Esta realidade também nos coloca a todos nós a necessidade de uma maior exigência em relação aos decisores e às escolhas que determinam as políticas que são contrárias ou favoráveis ao desenvolvimento do bem comum. As democracias também dependem disso.
Porventura os próximos tempos não serão favoráveis a grandes mudanças no sentido da diminuição da pobreza e das desigualdades, mas importa não esquecer que a esperança reside em cada um de nós quando sabemos que temos um mundo para cuidar e que o futuro, embora não nos pertença, também depende de nós.

“Esta realidade também nos coloca a todos nós a necessidade de uma maior exigência em relação aos decisores e às escolhas que determinam as políticas que são contrárias ou favoráveis ao desenvolvimento do bem comum. As democracias também dependem disso.”
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