Música, acompanhamento espiritual, reflexões e propostas de oração dos jesuítas para a quarentena

| 24 Mar 20

Isto vai ser uma maratona, avisam os jesuítas, que querem ajudar a fazer a corrida. Foto: Direitos reservados/PontoSJ

 

Mais de duas dezenas de pessoas foram já atendidas nos primeiros dias de funcionamento da iniciativa “Converse com um jesuíta”, lançada na semana passada pelos padres da Companhia de Jesus, em Portugal, a par de outras ideias e sugestões que tentam ir ao encontro de quem quer sentir-se acompanhado, rezar, ser ouvido por telefone ou internet…

Também há sugestões de música e poesia, reflexões dedicadas aos profissionais de alguma forma envolvidos no combate à pandemia de covid-19, ou sugestões de uma uma psicóloga para lidar com situações como a solidão, a tensão familiar, a doença ou o luto.

Até agora, as pessoas queriam, sobretudo, ouvir opiniões sobre como orientar a vida espiritual nesta fase, sobre os problemas que se atravessam com o facto de se estar em casa e as feridas que isso pode provocar ou trazer à memória. Ou, ainda, diz o padre José Maria Brito, responsável pelo gabinete de comunicação dos jesuítas, a ansiedade que a quarentena provoca.

O mais problemático, diz José Maria Brito, pode aparecer daqui a duas, três semanas, quando a situação se acentuar e as pessoas perceberem que o isolamento social se pode prolongar.

O serviço de aconselhamento espiritual por telefone ou internet (disponível diariamente, excepto domingos, entre as 9h e as 20h30) é um dos que os jesuítas pensaram para este tempo de quarentena. Sob o título genérico de “Ponto de Abastecimento – isto vai ser uma maratona”, as outras iniciativas incluem ajudas para rezar (meditações de dois minutos), uma pausa de reflexão pensada para profissionais que têm de permanecer nos seus locais de trabalho.

As propostas estão centralizadas no Ponto SJ, o portal dos jesuítas portugueses, têm horas marcadas diárias ou semanais e incluem ainda sugestões de actividades, músicas ou poesia. “Faltam apontamentos de humor e a dimensão do como agir, de pensar como mobilizamos as pessoas para respostas sociais ou para estarem atentas ao que continua a acontecer”, diz o padre José Maria.

Também, como em muitos outros casos, a celebração da eucaristia passou a ser transmitida via internet a partir das várias comunidades jesuítas do país.

 

Aos vossos lugares… e vejam ou ouçam

Proposta diferente é a do centro cultural e revista Brotéria, também dos jesuítas. Diariamente, às 21h30, um vídeo é publicado no endereço da iniciativa Aos Vossos Lugares.

“Escolhemos pessoas que tínhamos curiosidade de ouvir, às quais demos total liberdade para nos entregarem o que entendessem e que fossem momentos de beleza e silêncio para combater este tempo”, explica Benedita Pinto Gonçalves, responsável pela comunicação da Brotéria.

Em áudio ou vídeo, até agora já participaram os músicos Domenico Lancellotti, Ricardo Toscano (ambos a tocar peças musicais) e Joana Gama (que leu uma história em inglês), o escritor Afonso Reis Cabral e a poeta Matilde Campilho com duas histórias.

A poeta Matilde Campilho em ilustração para a iniciativa Aos Vossos Lugares, da revista Brotéria.

 

“Acreditamos que a cultura possa trazer alguma ajuda para viver melhor estes dias”, diz a mesma responsável. A ideia nasceu quando a situação de pandemia se começou a agravar e as conversas no espaço digital se começaram a intensificar, explica. “Foi para responder a algumas das questões onde a conversa está a acontecer.”

Não há conteúdos ao vivo, mas gravados e colocados num arquivo. E não se pretende contribuir para “aumentar o ruído”. Aliás, na apresentação da iniciativa, lê-se que “o silêncio pode ainda comover” e “a beleza pode ainda falar”. E que “a internet é uma grande aliada nestes tempos de incerteza”, confiando que “a cultura pode trazer paz e esperança”.

Pela iniciativa, para já, ainda passarão nomes como os do cardeal José Tolentino Mendonça, o escritor Jacinto Lucas Pires, os artistas Luísa Jacinto, Rui Chafes ou Madalena Mattoso, a fotógrafa Vera Marmelo, o crítico Bernardo Pinto de Almeida, o actor e encenador Marcos Barbosa, a banda Capitão Fausto e os contadores de histórias do Qual Albatroz. Mas a lista pode crescer, tendo em conta o evoluir da situação pandémica e o prolongamento da quarentena social e do estado de emergência.

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