Eu gostava do olhar dele, parecia atenção, mas agora parece que está a medir e a avaliar. Hoje disse-me que a blusa era “demasiado”. Demasiado o quê? Demasiado eu?
Ela nunca percebe que é para a proteger. Se ela soubesse como está o mundo, agradecia-me, mas não sabe.
Ele pediu-me o telemóvel outra vez. Pegou nele como se fosse a prova de um crime. Eu devia ter dito que não, mas para quê arranjar problemas?
Ela hesitou quando lhe pedi o telemóvel. Tem alguma coisa a esconder, mas eu não vou ser enganado, ela tem de se habituar a ser transparente.
A M. ligou, mas não atendi. Ele diz que ela me “enche a cabeça” de ideias. Talvez porque queira lembrar-me quem eu era antes.
Aquela amiga dela é um problema, quer separar-nos para ter companhia. É bom que se afaste, para manter a ordem das coisas.
Hoje ele não falou comigo. Tentei adivinhar o que fiz para corrigir antes de ele perguntar. O melhor é que não repare em mim, para não se irritar.
Ela tem de aprender, se falha, não merece palavras: o silêncio é a melhor forma de a pôr no sítio.
Ele ontem chamou-me “ridícula” à frente dos amigos. Todos se riram. Ele riu. Eu também, mas foi forçado, por pouco não desabei em lágrimas. Aguentei-me. Calei-me.
Ela é uma mimada, leva tudo demasiado a sério. Por qualquer coisa, chora. Preciso de a ensinar a ser forte.
Ele disse que sem mim não é nada, quando lhe expliquei que precisávamos de espaço. Disse que se eu o deixar, faz uma loucura. Tive medo. Não era amor, era só medo.
Ela não vai a lado algum… Ela fica onde eu quero!
Ele hoje empurrou-me, foi tudo muito rápido. Pedi desculpa, nem sei porquê, mas pedi desculpa. Há atitudes que só compreendemos quando já não há mais nada a perder.
Ela é dramática e exagerada, foi só um encontrão. Mas quem é que a mandou provocar-me?
A violência no namoro não começa com murros, começa com comentários, pedidos que parecem inocentes, ciúmes que parecem ser amor. A violência instala‑se antes de ser visível e, quando se mostra, já criou raízes.
Estes são alguns dos sinais:
- Ciúmes frequentes — apresentados como prova de amor, mas que escondem controlo.
- Criar isolamento — críticas às amizades, à família, às atividades individuais.
- Controlar — pedido de passwords, exigência de respostas imediatas, monitorização da localização.
- Desvalorizar — comentários que diminuem, ridicularizam ou culpabilizam.
- Pressão emocional ou sexual — chantagem, manipulação, “se me amasses, fazias isto”.
De um modo geral, podemos dizer que o ciclo da violência no namoro tem quatro fases: tensão, explosão, arrependimento, promessa de mudança. E, para evitar a entrada neste ciclo, deve atuar-se o quanto antes, quando ainda é possível reconhecer o que está errado e, assim, interromper o padrão.
Sobre Prevenção
Prevenir não é esperar que aconteça. É preciso identificar padrões, questionar comportamentos, aparentemente normais, e criar relações onde o respeito é a regra e não a exceção. A prevenção começa muito antes do primeiro namoro, começa na forma como falamos de amor, de limites, de autonomia.
Prevenir não é responsabilidade exclusiva de quem está nas relações, já lá vai o tempo do “entre marido e mulher não se mete a colher”. Os amigos, os professores, os colegas, os familiares, todos têm um papel fundamental: escutar sem julgar, encorajar apoio, não normalizar os comportamentos abusivos.
Prevenir não é só identificar o que está mal, é transmitir o que o que está bem, é educar para as relações saudáveis, em que os limites são claros e a comunicação é aberta; em que há autonomia individual, liberdade para discordar e respeito pela privacidade; em que não há medo!
Prevenir é falar de amor – de amor saudável – nas famílias, nas escolas e nos espaços digitais. A violência no namoro alimenta-se do silêncio, mas a prevenção cresce com o diálogo, com a escuta atenta, com boas conversas.
Para informação e apoio: https://www.apavparajovens.pt/PT_FV_VNamoro.html
Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Pastoral Juvenil e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.
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