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Miguel Pereira, trabalho, biomedicina
Miguel Pereira, engenheiro biomédico, cujo testemunho integra o colóquio sobre “Trabalho e vida sustentável: entre um presente agreste e um futuro incerto”, organizado pelo 7MARGENS em 16 de Março de 2026. Foto © Manuel Pinto/7MARGENS

Miguel Pereira, engenheiro biomédico

“Na busca de emprego, não ter resposta é pior do que ter um não”

| 10/03/2026

Miguel Pereira é um jovem formado em Engenharia Biomédica pela Universidade do Minho, num curso orientado para o setor da saúde, que recorre a várias especialidades da Engenharia – mecânica, eletrónica, informática, biológica. Filho de uma professora universitária e de um arquiteto, com quem vive, encontra-se nos primeiros anos da sua atividade profissional. Mas já tem história(s) para contar.

Na formação recebida, sobretudo no âmbito do mestrado, Miguel reforçou uma componente virada para a gestão hospitalar que assenta em serviços como gestão hoteleira, qualidade ou controlo de infeções, bem como investigação laboratorial na área dos fármacos. Fez ainda um estágio em gestão hoteleira, no Hospital de Braga.

“Quando saí – observa, em conversa com o 7MARGENS –  tinha noção de que trabalhar na área que queria, que é a dos hospitais, é um bocado complicado, porque se trata de um nicho. Portanto, fui procurando naquilo que era mais ligado à saúde. Só que havia pouca oferta, sobretudo para quem tinha acabado de sair do curso.”

Perante isso, a opção foi, para ele, alargar ainda mais o âmbito e o leque das possibilidades, explorando outras áreas. Acabou por se candidatar a um estágio profissional numa empresa a umas boas dezenas de quilómetros de casa, que nada tinha a ver com a sua formação académica, mas que, nas palavras do jovem engenheiro, “tinha uma mentalidade de resolver problemas, de fazer acontecer e de não baixar os braços” perante os desafios. E, para isso, ele tinha algumas bases.

Acresce que a irmã de Miguel já trabalhava no mesmo lugar, numa outra empresa, o que permitia economizar nas viagens. E, em todo o caso, sempre era uma forma de ir vivendo, enquanto procurava.

Revendo mentalmente essa experiência, Miguel Pereira explica: “Fui aprendendo. Não tinha conhecimento nenhum de produção, de indústria, de processos. Aprendi tudo lá – a fazer, a ver, a errar. Só que não era propriamente aquilo que eu queria fazer. Aquilo para mim era um estágio, para ter uma experiência profissional.”

A ideia era ir embora ao fim desse ano. No entanto, a firma começou a oferecer um contrato de engenheiro júnior e a passar os engenheiros estagiários para efetivos. Como tinha de permanecer na empresa pelo menos seis meses, foi aproveitando para procurar emprego na sua área. Acabou por ali ficar quase dois anos, “sempre a procurar, mas nem sempre com a mesma intensidade de procura”, observa.

Essa experiência de buscar um emprego na área em que tem formação é descrita pelo jovem engenheiro biomédico deste modo: “Tive muitas candidaturas sem resposta. Tive nãos. Tive entrevistas e reuniões. Tive algumas que avançaram mais e outras que avançaram menos. Tive mais perspetivas numas do que noutras. Até que encontrei algo mais na minha área e consegui trocar. Basicamente foi isso.”

Miguel Pereira, trabalho, biomedicina

Miguel Pereira: “Uma pessoa fica na expectativa e a resposta é zero.” Foto © Manuel Pinto/7MARGENS

Neste momento trabalha, desde dezembro último, num projeto de saúde digital que, embora não sendo “ainda nada ligado aos hospitais” diretamente, já é, “pelo menos, na área da saúde, mais no âmbito do que gostava de fazer”. Trata-se de um contrato a termo certo, mas “relativamente seguro”, já que o trabalho é realizado em articulação com projetos europeus.

Perguntamos a Miguel Pereira sobre o que mais marcou este período de quase dois anos, em busca de um trabalho na sua área de competência.

“A falta de resposta”, responde ele, sem hesitar. “Mandamos os currículos, as cartas de motivação; noutros casos, preenchemos os campos das plataformas, que nem sempre são fáceis, vemos que correspondemos aos requisitos e, depois vem um email automático ou nem sequer respondem. Uma pessoa fica ali na expectativa e a resposta é zero. Não ter resposta é pior do que ter um não.”

Apesar de tudo, pelo menos no círculo de amigos e colegas da área de Miguel, a hipótese de emigrar é algo que não se põe. Salvo uma ou outra exceção, vão arranjando trabalho na zona em que nasceram. Mas vários colegas de curso foram procurar futuro no estrangeiro, ainda que vários deles já tenham regressado para ficarem por cá. É, porém, trabalho que dificilmente abre perspetivas de projetos de vida autónomos. Para isso, este engenheiro calcula que seria necessário, como início, um salário bruto mínimo superior a 1800 euros brutos mensais, para começar a fazer frente ao custo de vida, especialmente a habitação.

Engenheiro biomédico de formação, Miguel Pereira vai-se mantendo pela casa dos pais, tal como fazem muitos dos seus amigos e companheiros. Na esperança de que surjam dias melhores.

 

O testemunho de Miguel Pereira será um dos que passarão no colóquio “Trabalho e vida sustentável: entre um presente agreste e um futuro incerto”, organizado pelo 7MARGENS e que terá lugar no próximo dia 16 de Março, entre as 15h e as 18h30, no Auditório da Escola Secundária Camões, em Lisboa. O colóquio conta com a participação do sociólogo Manuel Carvalho da Silva e do teólogo Jorge Teixeira da Cunha, professor na Universidade Católica Portuguesa (Porto).

O encontro terá transmissão vídeo pelo que o convite a reservar a tarde do dia 16 se estende a pessoas que estejam em outros lugares fora de Lisboa. Até sexta-feira, 13, daremos informações sobre essa transmissão.

 

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