Na Calábria, com Migrantes e Refugiados

| 16 Jun 2024

Pirapora. Sicília. Stromboli .

Pirapora: “Calábria com vista para a Sicília e o vulcão Stromboli ao fundo”. Foto © Teresa Vasconcelos

 

Estou na Calábria com vista para a Sicília e o vulcão Stromboli ao fundo. Reunião de Coordenadores das Redes Internacionais do Graal. Com uma amiga mexicana coordeno a Rede de Migrantes e Refugiados que abrange nada mais nada menos que 10 países, dos Estados Unidos, Canadá e México às Filipinas, passando por África e o sul da Europa. Escolhemos reunir numa propriedade de agroturismo ecológico (Pirapora), nas escarpas do mar Jónio, da antiga colonização grega. Na Antiguidade, o Mar Jónico foi uma importante via de comércio marítimo, principalmente entre a Grécia e o Sul da Itália.

Além de produtos de vários tipos, muita cultura circulou na Bacia do Mediterrâneo. A gastronomia calabresa é reconhecida: salames, tomate seco, pimento picante, queijo de ovelha ou cabra e a célebre cebola roxa (“a melhor cebola de Itália” afirmam, orgulhosos, os calabreses). Tudo se pode saborear no ecoturismo de Pirapora. O nome Pirapora (Minas Gerais) vem de uma participante do Graal do Brasil (Rosemeire), casada com um Italiano (Francesco), que herdara aquela propriedade da sua família e a transformou num ecoturismo de superior qualidade, num cultivo “amoroso” da terra. Com dotes pedagógicos notáveis, Franco é um guia e contador de histórias, conhecedor profundo daquela costa do Mediterrâneo e das possibilidades da agricultura orgânica. Fala com paixão das suas raízes calabresas. Em Pirapora faz-se e ensina-se a fazer compostagem, planta-se feijão verde, alho, cebolinho e tomates, morangos, framboesas e amoras de que se fazem deliciosas compotas. Secam-se cascas de laranja para as tornar cristalizadas. Ovos de quinta. Vinho do país e azeite caseiro. Queijos. Pão feito em casa em forno de lenha. Abunda tomate seco ao sol e outros preparados. Molho pesto. Ervas aromáticas. Alfazema e alecrim. E, à 5a feira, pizzas, pizzas em forno de lenha, aproveitando o forno para cozer pão para a semana, bem como “pastas” com formatos e molhos variados para nossas delícias. Um agroturismo que privilegia as crianças, ensinando-as a fazer pizza, a ir buscar os ovos e cuidar das galinhas e das cabras, sob a vigilância de um magnífico pavão. Um pequeno bilhar para as noites, cartas de jogar e outros jogos de mesa. Não há televisão e a internet existe só em redor do escritório.

Ao fundo, o mar azul transparente e turquesa, flores – rosas selvagens, malmequeres, lírios silvestres…- crescendo por todo o lado, rodeando as casinhas que foram sendo sucessivamente construídas à medida que o agroturismo se ia desenvolvendo. A hora do poente pintada em tons vermelho e laranja…sobre o mar.

“Franco é um guia e contador de histórias, conhecedor profundo daquela costa do Mediterrâneo e das possibilidades da agricultura orgânica. Fala com paixão das suas raízes calabresas.”  Foto © Teresa Vasconcelos

 

Um acolhimento primoroso, simples e informal por parte dos donos e trabalhadores. Criaram-se empregos locais e um migrante do Gana ajuda Franco nas atividades agrícolas: feliz porque finalmente está legalizado. A troco de cama e mesa, há pessoas, sobretudo jovens, que podem ajudar na atividade agrícola ou turística. A arte de bem viver e usufruir levada ao extremo da sua simplicidade. Paz e silêncio. Tudo é belo.

Os três dias do Forum das Redes foram-se espreguiçando num ritmo de trabalho e lazer com o mar a mostrar-se em cada recanto. Depois do jantar, para além da oferta de um limoncello como digestivo, dançavam-se ritmos africanos e brasileiros ao som dos instrumentos guardados na mesma estante onde havia livros deixados pelos hóspedes.

Ciente da região de Itália em que me encontrava tinha pedido à Rosemeire que nos facultasse o contacto com um projeto que considerassem exemplar no apoio a migrantes e refugiados. Levaram-nos a Riace. Riace é uma cidade em pedras beije escuro, quase castanho, literalmente “empoleirada” numa alta escarpa. Subimos a estrada em ziguezague. Anteriormente a aldeia estava entregue aos velhos que já não tinham saúde e forças para cultivar a terra. Aguardavam a morte encostados à sombra. Triste. Um presidente da Câmara com visão e iniciativa decidiu abrir a aldeia a migrantes sobreviventes do cemitério em que se tornou o Mediterrâneo. Foram-se integrando. Um projeto emergiu com apoios diversificados. As casas foram sendo reabilitadas e habitadas por migrantes vindos da Somália, do Gana, da Nigéria, da Síria ou da Etiópia e do Sudão.

“A escola reabriu e foi reocupada por crianças de olhos grandes e faces escuras.” Foto © Teresa Vasconcelos

 

A escola reabriu e foi reocupada por crianças de olhos grandes e faces escuras. Uma creche e jardim de infância foi instalada num dos edifícios da autarquia que, no final da escola, recebe ainda as crianças mais velhas. Duas cuidadoras migrantes ocupam-se das crianças e duas mulheres locais garantem o funcionamento de um refeitório para as crianças onde se serve comida de variados países. Os adultos foram criando os seus empregos: cultivar as terras abandonadas, cuidar dos idosos, garantir serviços mínimos da aldeia (um Ganês recolhia o lixo). Abrem lojas de artesanato local e internacional numa troca de saberes e tradições. Um tear. Um laboratório de cerâmica. Aos menos velhos de Riace não é retirado trabalho, antes são criados postos de trabalho inexistentes, evitando possíveis rivalidades. O grande largo com um forno coletivo para cozer pão tem pinturas murais lembrando os vários países e mantendo as suas raízes. Um barco no centro relembrando penosas viagens. Bandeiras dos países. Um arco à entrada da praça Indicando estarmos numa “aldeia global”. Isso mesmo: visitávamos uma aldeia global.

“Um arco à entrada da praça Indicando estarmos numa “aldeia global”. Isso mesmo: visitávamos uma aldeia global.” Foto © Teresa Vasconcelos

 

No último dia do Fórum das Redes fomos à cidadezinha turística de Tropéa, casas encavalitadas na falésia sobre mar. Muito turismo, sim. Janelas antigas de gelosia, pátios interiores refrescantes… gelados deliciosos. Depois a descida em direção ao mar. Areias pedregosas a magoar os pés mas um mar infinito e azul turquesa  de águas caldas e serenas, limpo e transparente, praticamente sem ondas. Espreguiçarmo-nos ao sol em gestos lânguidos…

Não, não apetecia vir embora. A hospitalidade calabreso-brasileira, a preocupação com a salvaguarda do ambiente de par com uma estética e profunda simplicidade num ambiente minimalista. O respeito pela terra, a vista sobre a ampla escarpa sobre o mar, fins de dia com o sol em tons de vermelho, laranja e amarelo a pousar devagar sobre linha do horizonte, a beleza e a espiritualidade de mãos dadas.

 

Roma

Refugiados. Roma. Praça S. Pedro

“Na Praça de S. Pedro salienta-se a estátua de Timothy Paul Schmalz, em bronze que, pela mão do Papa Francisco, foi dedicada aos migrantes e refugiados.”  Foto © Teresa Vasconcelos

De regresso, paragem em Roma. Vaticano e dia de audiência geral com o Papa Francisco. A grandiosidade que muitos de nós conhecemos. A Pietà de Miguel Ângelo, sublime, leve, agora protegida por um vidro. Luz concentrada na face de Maria e do seu Filho. Hordas de turistas, ao contrário da doce Calábria. Cidade pesada e poluída, mas eternamente bela. Na Praça de S. Pedro salienta-se a estátua de Timothy Paul Schmalz, em bronze que, pela mão do Papa Francisco, foi dedicada aos migrantes e refugiados. Escura e impactante. Concentrada e condensada, impressionante em contraponto às arcadas claras da praça. Parei, sentei-me na escadaria e rezei no meio do burburinho dos turistas.

Santa Teresa de Ávila de Bernini, esperava-me na igreja de Santa Maria da Vitória. “Thérèse mon “Amour”, segundo Julia Kristeva. Tinha de ir lá visitá-la, finalmente, perceber a sua paixão e entrega a Cristo Jesus. Achei interessante as varandas laterais do altar de Teresa com as silhuetas da nobre família que encomendou a estátua a Bernini. Leve, o mármore quase transparente. Terão entendido a dimensão do êxtase de Teresa? Trata-se de uma escultura que estará ao nível da Pietà de Miguel Ângelo. Sublime a expressão facial de Teresa e do Anjo, Teresa numa entrega absoluta a Deus.  As mãos em êxtase, abandonadas.

Êxtase de Santa Teresa de Bernini. Foto © Teresa Vasconcelos

 

Finalmente, Assis!

A mais antiga representação de S. Francisco de Assis. Foto © Teresa-Vasconcelos

 

 

 

 

 

                          O Senhor te abençoe
                          e te guarde.
                          O Senhor mostre sua face
                          e tenha misericórdia de ti.
                          O Senhor volte para ti
                          o seu rosto e te dê a sua Paz.
                          O Senhor te abençoe!

                       (Bênção de S. Francisco)

 

 

 

 

 

 

 

Era um desejo muito antigo, fazer esta peregrinação: ir a Assis visitar o túmulo do meu santo de eleição, depois de Teresa de Ávila. Encontrar-me com Francisco, sim, “il poverello”, o santo da natureza e da terra, do Canto das Criaturas, o santo que o papa Francisco tomou como protetor, o homem da Paz.

Assis fica na região da Umbria, Itália, a 178 quilómetros a nordeste de Roma. Não longe da cidade de Peruggia, uma das mais antigas cidades universitárias de Itália. Fizemos o percurso de comboio, com transferência para uma linha local em Terontola.

Terra de colinas e campos verdes, do delicioso vinho frutado (sobretudo o branco), da sinuosa subida até à basílica “empoleirada” no casario medieval em perfeito estado de conservação, protegido por um arco de entrada. Acima da muralha protetora desenham-se a basílica superior, a inferior e, escavado na cripta, o túmulo em pedra de Francisco… Este conjunto, tornado património mundial da UNESCO mostra, na basílica superior, sumptuosos e leves frescos de Giotto, azulados e cinza, ilustrando a vida de S. Francisco (ao todo 28). Tudo enquadrado pelo longo mosteiro Franciscano desenhando a escarpa. Dia de sol transparente, poucos turistas nas ruas, algumas lojas de recordações.

Francisco foi, segundo Dante Alighieri, “uma luz que brilhou sobre o mundo”, a maior figura do Cristianismo depois de Jesus, consideram outros. Foi em Assis que Francisco (Francesco Bernadone), filho da nobreza medieval, fundou a Ordem dos Franciscanos em 1208, sendo que, depois, Santa Clara de Assis (Chiara d’Offreducci) fundou a Ordem das Clarissas. Francisco viveu uma vida irrequieta e assaz dissoluta mas, a dado momento, tem uma experiência radical de Jesus e vê-O na pobreza dos “descartados” da sociedade do seu tempo, sobretudo os leprosos. “Como pode haver tanta injustiça, tanto luxo, ao lado de tanta pobreza?”, questionava.  Numa época em que o mundo era visto como intrinsecamente mau, Francisco tomou consciência da beleza das coisas criadas por Deus. Afirma-se que ele foi um dos precursores da filosofia Renascentista. Foi canonizado pela Igreja Católica menos de dois anos depois da sua morte (1228), tal a sua fama de santidade.

Francisco tomou à letra as palavras do Evangelho que lia com dois dos seus companheiros: “Se queres ser perfeito, vende o que tens e dá-o aos pobres. Depois vem e segue-me” (Mt 19,21). “Não leveis nada pelo caminho, nem bastão, nem alforge, nem uma segunda túnica…” (Lc 9,3). “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz cada dia e siga-me” (Mt 16,24).  Funda pois a Fraternidade dos Irmãos Menores. No Natal de 1223, cria o primeiro Presépio com animais vivos, uma tradição que permanece viva até hoje.

No túmulo de S. Francisco tive uma forte emoção. Sentia-me a carregar muitas das dores do mundo: das pessoas que amo, dos refugiados com quem tenho trabalhado, dos tempos e guerras sombrias que nos sufocam. Abundaram-me as lágrimas. Um jovem que estava em oração – soube depois ser francês – veio entregar-me um pacote de lenços de papel. Aceitei, na minha vulnerabilidade absoluta. Abracei-o comovida. Tantas as formas de sermos bons samaritanos… Depois de sair do complexo aliviei as emoções com um copo do delicioso vinho branco da Umbria que me devolveu o encantamento da vida.

“O Senhor me dê a Sua Paz!”, rezei com Francisco: um mundo tão belo crucificado com guerras absurdas, cegas, sem sentido. Francisco o inspirador do amor pela terra, pelos seres vivos, ao jeito do paraíso terreal. O seu amor pela beleza iluminava a sua vida de pobre no meio dos pobres – “os pobres como sacramento” (Irmã Madalena Herrera, das Filhas da Caridade). Segundo O. Englebert “Francisco contempla a natureza que o circunda com os olhos maravilhados e reverentes assim como os viu o primeiro homem na primeira manhã do primeiro dia da criação do mundo”. Por isso Francisco tornou-se o santo padroeiro dos ecologistas.

De regresso a Roma fizemos a experiência de ficar sem abrigo. E explico: em Terentola perdemos a ligação com o comboio que nos levava a Roma e chegámos depois das 10.30 à casa de religiosas que nos acolhiam. Tudo fechado, ninguém respondeu à campainha. Deambulámos pelas ruas em torno da Basílica de S. Pedro – tantos sem-abrigo! – mas os hotéis estavam cheios, não nos acolhendo. Senti-me em Belém de Judá, no tempo do recenseamento do Imperador César Augusto, sem lugar na estalagem. Ruas vazias, portas encerradas. Estar sem abrigo é isso mesmo: encontrar todas as portas encerradas. Nunca tinha vivido essa experiência que me atravessou corpo e espírito. Finalmente S. Francisco nos valeu e fomos acolhidas num improvável pequeno hotel de bairro onde, inesperadamente, tinha havido a anulação de uma reserva. O corpo moído precisava de cama e aconchego, a alma, essa, precisava de cuidado e conforto.

Suspirei: obrigada, S. Francisco.

Na Basílica encontrei à venda, em português, uma pagela reproduzindo uma iluminura com o inesquecível Cântico das Criaturas, uma espécie de testamento escrito por S. Francisco já no fim da sua vida e que foi recentemente cantado por João Maria Carvalho no Vaticano. Releio-o enquanto dou graças a S. Francisco pelo abrigo que nos deu e, sobretudo, por esta peregrinação inesquecível:

 

Louvado sejas, ó meu Senhor, com todas as tuas criaturas,
especialmente, o meu senhor, irmão Sol,
o qual faz o dia e por ele nos alumias.
E ele é belo e radiante, com grande esplendor:
de ti, Altíssimo, nos dá ele a imagem.
Louvado sejas, ó meu Senhor, pela irmã Lua e as Estrelas:
no céu as acendeste, claras, e preciosas e belas.
Louvado sejas, ó meu Senhor, pelo irmão Vento
e pelo Ar, e Nuvens, e Sereno, e todo o tempo,
por quem dás às tuas criaturas o sustento.
Louvado sejas, ó meu Senhor, pela irmã Água,
que é tão útil e humilde, e preciosa e casta.
Louvado sejas, ó meu Senhor, pelo irmão Fogo,
pelo qual alumias a noite:
e ele é belo, e jucundo, e robusto e forte.
Louvado sejas, ó meu Senhor, pela nossa irmã a mãe Terra,
que nos sustenta e governa, e produz variados frutos,
com flores coloridas, e verduras.
Louvado sejas, ó meu Senhor, por aqueles que perdoam por teu amor
e suportam enfermidades e tribulações.
Bem-aventurados aqueles que as suportam em paz,
pois por ti, Altíssimo, serão coroados.
Louvado sejas, ó meu Senhor, por nossa irmã a Morte corporal,
à qual nenhum homem vivente pode escapar:
Ai daqueles que morrem em pecado mortal!
Bem-aventurados aqueles que cumpriram a tua santíssima vontade,
porque a segunda morte não lhes fará mal.
Louvai e bendizei a meu Senhor, e dai-lhe graças
e servi-o com grande humildade.

 

Teresa Vasconcelos é professora do ensino superior aposentada e participante no Graal, movimento internacional de mulheres enraizadas na fé cristã. (t.m.vasconcelos49@gmail.com )

 

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