Gil Vicente certamente não imaginava que o seu Auto da Sibila Cassandra seria recriado para marcar o fim do ciclo litúrgico do Natal na Capela do Rato, em Lisboa, mais de 500 anos depois de ter sido escrito. Mas foi exatamente isso que aconteceu, e no próximo domingo, 11 de janeiro, às 16h00, a comunidade daquela Capela e todos os que a ela queiram juntar-se irão assistir à leitura encenada dessa recriação.
O texto do agora Pequeno Auto de Natal de Sibila Cassandra é da autoria de Mendo Henriques e a encenação ficou a cargo de Júlio Martín (ambos colaboradores regulares do 7MARGENS). A interpretá-lo estarão atores e atrizes do Teatro Maizum, do Teatro Académico da Universidade de Lisboa, e Joana Cotrim, d’O Clube.
A leitura encenada do auto será ainda acompanhada por apontamentos musicais, a cargo do Coro da Capela do Rato, com músicas de Pepe Feu, ora como eco, ora como contraponto.
Trata-se de uma “mediação entre o texto quinhentista e o público contemporâneo de uma obra fundadora do teatro europeu, onde o cómico pastoral e o mistério cristão se articulam numa unidade dramática”, pode ler-se no comunicado enviado ao 7MARGENS.
Nesta recriação, Cassandra surge como “uma jovem de forte ressonância contemporânea; uma voz que exige unir a exceção pessoal à proposta de salvação; uma ‘feminista’ do século XV que vive a tensão de, por um lado, ser mãe e mulher no sentido biológico e social, e por outro, ser mãe e mulher que partilha do mistério da salvação”. A peça sublinha, assim, este “conflito subjetivo, tornando visíveis as opções atuais da mulher sobre a natalidade”.
Tudo isto mantendo o registo cómico inicial como elemento estrutural e garantindo que se trata de um auto de Natal, em que “todas as personagens assumem o papel de profetas do nascimento do filho de Maria”. Porque o objetivo é proporcionar a todos quantos forem assistir um momento em que “o cómico, o excesso e a profecia contribuem para cada um ir ao encontro da graça”.










