Na casa dos meus avós: rituais e tabus que nos inculca(va)m valores

| 29 Jan 20

Capa do livro Na Casa de Meu Pai, de Kwame Anthony Appiah

Começo este ano com um assunto muito pessoal. E lembrando a obra Na casa de meu pai: a Africa na filosofia da cultura, de Kwame Anthony Appiah, roubo-lhe o título. Essa obra aborda questões filosóficas, etnográficas, antropológicas, entre outras e será esse o foco do meu texto. Será também na base da sugestão que é lançada pelo autor, no capítulo 4, que tentarei deixar alguns traços da identidade africana vividos na primeira pessoa.

Depois de alguns anos, tive que voltar à casa dos meus avós, na Maxixe (Inhambane). O motivo não foi dos melhores, ia sepultar a minha avó materna. As recordações e os ensinamentos que ela deixou são nobres, na minha óptica, pelo que quero partilhá-los. São coisas de outros tempos, tempos que gostava que voltassem.

Das recordações que tenho sobre ela, descreverei um ritual e alguns tabus.

Começo pelo “ritual da cumprimentação”. O “oi” ou “olá” da cultura portuguesa, ambos feitos de modo apressado ou breve, não existiam na sua casa, nem nos seus convívios. A cumprimentação é/era sempre um processo demorado, um ritual realizado com pompa e circunstância. Feito com as pessoas sentadas, no qual para além de se procurar saber sobre a saúde e o modo como têm decorrido os dias dos intervenientes (desde a última vez que se tenham visto), procura-se saber o mesmo, relativamente a todos com os quais eles convivem: filhos, familiares próximos, colegas de trabalho ou de escola, vizinhos, etc, etc. Esse ritual, realizado desse modo, não é típico apenas dos vatonga. É assim realizado, também, em muitos povos de Moçambique.

Só para dar um exemplo: quando eu e os meus irmãos fôssemos à Maxixe visitar a vovó, ela levava-nos da sua casa, para o grande ndranga (casa grande, conjunto de casas) no qual viviam outros familiares seus – sua mãe, os seus irmãos e as suas irmãs viúvas; porque, tal como ela, as outras irmãs casadas tinham saído dessa ndranga para outras ndrangas, junto dos seus maridos. As casas estavam dispostas como se de uma aldeia se tratasse. Havia uma que era a matriz principal. Era a da sua mãe, minha bisavó. Depois dessa matriz, seguiam-se as casas de outros filhos da minha bisavó e de uma filha viúva, formando quase que um círculo. Dormiam cada um na sua casa, mas a vida era conjunta. Comiam da mesma machamba e partilhavam o dia-a-dia.

Lá íamos e tínhamos que ir de casa em casa e cumprimentar a todos, seguindo o tal ritual demorado, incluindo dizer se tínhamos ou não passado de classe e comer o que nos servissem. Ai de nós que nos recusássemos a comer em alguma das casas. Era ofensivo. Então, como estratégia, a vovó ensinava-nos a comer um pouco em cada casa.

O que comíamos eram comidas fartas como farinha de mandioca ou lifete (um doce feito à base de farinha de mandioca e amendoim torrado), castanhas de caju torradas e diversos tipos de frutos: tamarino, ananás, mangas, goiabas, caju, lanho, mangas, mafurra, etc. A visita durava quase todo o dia nisso. Não fazíamos mais nada, senão comer e cumprimentar as pessoas.

Recordo-me ainda que, a caminho para essa ndranga, tínhamos que ir cumprimentando quase todos os conhecidos que encontrávamos pelo caminho. Nesses casos, fazíamo-lo em pé, por se estar na rua; mas, lá está: a medida do tempo era na base do relógio antropológico. E ela fazia questão de dizer os nossos nomes e de quem éramos filhos e tínhamos que dar beijinhos em todos os que cumprimentávamos; fizesse ou não calor, estivéssemos ou não a transpirar.

Lembro-me ainda que, à nossa chegada e à nossa partida, os vovós faziam o ritual de pedido de bênçãos para nós, junto do seu altar familiar. Esse altar era um tronco cortado e cercado de modo especial. Não era um tronco comum. Era tratado com o devido respeito. De modo que podíamos trepar árvores, subir em qualquer outro tronco, excepto nesse, que era o altar e era onde a vovó ia falar ou dizer “coisas”, ao chegarmos, ao partirmos ou se estivéssemos doentes. Rezava. Pedia socorro aos seus/nossos antepassados. Pedia-lhes que intercedessem por nós, junto a Deus. Por vezes até, contava-lhes os nossos sonhos e pedia ajuda para os interpretar. Sim, interpretar, porque os sonhos nessa cultura não são apenas sonhos, podem conter recados dos antepassados, para os que ainda se encontram vivos. É uma forma de diálogo entre vivos e mortos.

Tabus: pernas, frutos e árvores

Passando aos tabus. São vários, abordarei alguns que me marcaram, que me formaram.

Dizia a minha avó que nunca devíamos saltar as pernas e pés de alguém que os tivesse esticado e que estivesse sentado no chão, senão essa pessoa não cresceria. Hoje sei que isso, nos termos da cultura ocidental que tenho vivido, é um gesto tão indelicado quanto o de passar no meio de duas pessoas que estejam viradas uma para a outra a falarem entre si.


A vovó dizia que não devíamos comer mafurra ou alguma outra fruta e cuspir os caroços no prato no qual estivéssemos a comer, porque a pessoa que tinha plantado a mafurreira ou a árvore desse fruto poderia cair ou ter dores nas costas. Do ponto de vista do que tenho vivido hoje, sei que não é educado fazê-lo. A pessoa deve colocar restos, espinha ou o caroço de um fruto, por exemplo, num dos talheres que esteja a utilizar e com ele colocar no prato. Nunca colocá-lo(a) com a boca no prato.

Não nos podíamos sentar por cima de um pilão, senão nos cresceria uma cauda. Hoje, claramente percebo que não se deve sentar por cima de um utensílio da cozinha. Não é esperável que isso aconteça. É onde colocamos os alimentos e não se senta por cima de qualquer objecto dessa natureza.

Era-nos interdito colher frutos de árvores que não fossem nossas ou apanhá-los no chão, caso já tivessem caído por amadurecimento, porque nos incharia a barriga. Claramente que isso era para nos ensinar a pedir licença para uso ou colheita de algo que fosse alheio.

 

Valores tradicionais, valores universais

Como se pode depreender, aquele ritual e os tabus eram e continuam a ser o modo como a minha avó e as pessoas da sua cultura transmitem valores sociais tradicionais, que hoje, vendo bem as coisas, afinal são universais. Encontro equivalentes na cultura ocidental. Entretanto, devo dizer que nem todos os rituais e tabus são tão universais, embora a natureza humana seja a mesma. Há diferenças culturais, certamente, e no que a elas diz respeito, e retomando o assunto com que abri o texto, gostava de partilhar alguns tabus ligados à morte, que aprendi nestes últimos tempos, mas não sei se fazem parte de alguma outra cultura:  nos dias que se seguem a um falecimento, os familiares do defunto devem-se abster de ter relações sexuais. Além disso, na casa do defunto, não se deve acender lume, enquanto este não for enterrado; pelo que tudo o que se cozinha para alimentar a sua família e os que a acompanharem por esses momentos é feito numa casa vizinha. Seja de um familiar ou não. Um outro tabu curioso é o facto de que, da casa onde há um falecimento, no período que decorre entre a morte e a sua purificação, não se pode levar nada para uma outra casa, sob pena de se estar a transferir a morte para esse outro lugar…

Enfim, ficam alguns apontamentos sobre a cultura gitonga. No entanto, quanto aos valores universais, termino o meu texto convidando os caros leitores a lerem a obra Matimo, Masaho ni Dzitekatekane nya Vatonga / História, Clãs, Provérbios e Adágios das Vatonga de Inhambane, da autoria de Amaral Amaral, (pode encomendar-se na internet), na qual, entre outros assuntos, são comparados enigmas do gitonga aos da cultura portuguesa e constata-se terem o mesmo significado. A todos desejo uma boa leitura e um estimulante convívio intercultural.

 

Sara Laisse é docente de Cultura Moçambicana na Universidade Politécnica em Maputo. Contacto: saralaisse@yahoo.com.br.

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