Jacobabad, Paquistão

Na cidade mais quente do mundo, os 32°C são amenos mas não evitam a violação dos direitos humanos

| 29 Out 2021

Nos últimos quatro verões, a cidade paquistanesa de Jacobabad ultrapassou com frequência os 50°C. Uma situação que tem origem nas alterações climáticas e, denuncia a Amnistia, consequência nos direitos humanos: por exemplo, o abandono escolar tem crescido entre as crianças, que não se sujeitam a andar quilómetros debaixo de altas temperaturas para chegar a escolas sem qualquer protecção contra o calor.

Paquistão, Jacobabad, direitos humanos, emergência climática, Amnistia Internacional

Habitante da cidade paquistanesa de Jacobabad a tentar proteger-se do calor. A Amnistia Internacional denuncia que as alterações climáticas já têm consequências gravosas nos direitos humanos. Foto © Shakil Adil

 

Para esta sexta-feira, 29 de Outubro, prevê-se que a temperatura máxima atinja os 32°C e a mínima, de madrugada, terá ficado pelos 21°C. Temperaturas amenas se considerarmos que Jacobabad, cidade paquistanesa a cerca de 500 quilómetros para norte de Karachi e da costa, chegou já, pelo menos nos últimos quatro verões, a valores acima dos 50°C, um limite que os cientistas descrevem como “mais quente do que o corpo humano pode suportar”.

A cidade está situada a 28°16’ de latitude Norte, um pouco acima do Trópico de Câncer. Em Maio de 2020, uma investigação da Universidade de Loughborough identificou apenas Jacobabad e Ras al Khaimah (nos Emirados Árabes Unidos) como as duas únicas cidades do mundo a atingir esse estado.

Esta situação é agora analisada pela Amnistia Internacional (AI), numa investigação com o título Inabitável para Humanos, que aquela organização de defesa dos direitos humanos divulgou quinta-feira, 28, a propósito da COP26, a cimeira do Clima que no domingo se inicia em Glasgow (Escócia). Na cidade paquistanesa, “os níveis de calor e humidade eram tão elevados que o corpo humano já não conseguia arrefecer através da transpiração – condições que podem ser fatais em poucas horas”, diz o documento.

Ainda em Julho, o jornal The Indian Express explicava que “a mistura de calor e ar húmido do Mar Arábico contribuiu para que Jacobabad atravessasse temperaturas de 52 graus Celsius, o que poderia ser potencialmente fatal para os seres humanos”.

Os habitantes da cidade, diz o relatório da Amnistia, inventam soluções para tentar minimizar os efeitos dessas temperaturas: ventiladores “alimentados por burros” e enormes blocos de gelo para arrefecer o chão, são duas delas. Os trabalhadores agrícolas utilizam muitas vezes “bombas manuais para tomar duches rápidos ou saltam para águas residuais sujas, o que os deixa vulneráveis a infecções cutâneas”. Shah Bux, um residente citado no relatório, conta que “as crianças vão para a cama com roupa molhada, por ser a única forma de conseguirem dormir”.

Como em muitas outras situações, também neste caso as mulheres sofrem mais, pois “não têm o mesmo acesso aos mecanismos de refrigeração que os homens”. Explica o relatório: “A convenção social determina que as mulheres não podem tomar banhos de água rápidos em público como os homens fazem, nem podem saltar para zonas de água como é permitido às crianças. Além disso, são muitas vezes obrigadas a dormir dentro de casas abafadas porque dormir ao ar livre pode expô-las à violência sexual e de género.”

A pobreza que domina a cidade, aliada a diversas práticas de exploração laboral, faz com que os cerca de 5.000 trabalhadores que produzem mil tijolos por menos de cinco dólares por dia sejam das pessoas com mais risco à exposição de altas temperaturas: além de trabalharem junto a fornos a altas temperaturas ao ar livre, muitas vezes não têm também qualquer protecção contra o calor.

“É difícil respirar quando está tanto calor, mas se eu descansar, a minha família e eu passaremos fome. Então como posso fazer uma pausa?”, pergunta Gulab Birohi, 70 anos, trabalhador agrícola e do forno de tijolos, também citado no relatório da Amnistia.

 

Crise climática já é uma realidade diária

Este novo documento da AI é mais um dos relatórios que a organização divulgou recentemente e que estabelecem relação entre as alterações climáticas e os direitos humanos. Entre eles, estão o documento sobre a seca que já atinge Madagáscar, referido há dois dias pelo 7MARGENS. Esta situação, dizem as Nações Unidas, pode ser a primeira vaga de fome, resultante das alterações climáticas, no mundo”. Também em Angola, uma seca grave no sul de Angola levou já à fuga de milhares de pessoas, conforme outro relatório da Amnistia divulgado em Julho, que dizia que muitas comunidades pastoris foram expulsas das suas terras.

A investigação agora publicada sobre Jacobabad é acompanhada de um ensaio fotográfico de Shakil Adil, que procura documentar a vida e o quotidiano em Jacobabad. As fotos mostram “o impacto das alterações climáticas nos direitos humanos”, sublinhando os efeitos que a crise climática está já a ter para muitas das pessoas mais pobres do mundo, nos campos da saúde, da educação e do ambiente saudável, entre outros.

O relatório sobre esta cidade paquistanesa da província de Sindh, com as suas imagens e testemunhos, deve “servir para lembrar aos participantes na COP26 que a riqueza dos países industrializados, construída sobre combustíveis fósseis e práticas insustentáveis, pôs em perigo a sobrevivência de milhões de pessoas em todo o mundo, particularmente nos países em desenvolvimento”, afirmou Rimmel Mohydin, responsável de campanha do Sul da Ásia da Amnistia Internacional.

“Para o povo de Jacobabad, como muitos outros em todo o mundo e particularmente no Sul global, a crise climática não é uma ameaça distante, mas uma realidade diária. Não há mais tempo para hesitações, tácticas dilatórias e soluções mal cozinhadas, quando os direitos humanos das pessoas já estão sob uma ameaça sem precedentes.”

O documento da AI acrescenta à lista de problemas também a desflorestação desenfreada, escassez de energia, falta de acesso à água e habitação. “A maioria das escolas não tem electricidade e permanecem em grande parte inacessíveis, devido à falta de transportes públicos. A relutância em percorrer grandes distâncias debaixo de calor até às escolas inadequadamente equipadas para as proteger das altas temperaturas, tem causado o abandono do ensino por parte de muitas crianças”, diz o relatório.

A Amnistia considera que o Governo paquistanês tem estado “activo na questão das alterações climáticas, chamando consistentemente a atenção para a sua vulnerabilidade e falta de responsabilidade pela crise”. O Governo anunciou entretanto várias medidas de combate à emergência climática, “mas os residentes de Jacobabad ainda não colheram os benefícios”, nota a AI: não há reflorestação, nem fontes de energia renováveis e a assistência e informação para lidar com as ondas de calor também continua a ser confusa.

 

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

 

"Nada cristãs"

Ministro russo repudia declarações do Papa

O ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Serguei Lavrov, descreveu como “nada cristãs” as afirmações do Papa Francisco nas quais denunciou a “crueldade russa”, especialmente a dos chechenos, em relação aos ucranianos. Lavrov falava durante uma conferência de imprensa, esta quinta-feira, 1 de dezembro, e referia-se à entrevista que Francisco deu recentemente à revista America – The Jesuit Review.

À espera

[Os dias da semana]

À espera novidade

Quase todos se apresentam voltados para o sítio onde estão Maria e José, que têm, mais por perto, a companhia de um burro e de uma vaca. Todos esperam. Ao centro, a manjedoura em que, em breve, será colocado o recém-nascido. É tempo agora de preparar a sua chegada, esse imenso acontecimento, afinal de todas as horas.

Bispo Carlos Azevedo passa da Cultura para as Ciências Históricas

Novo cargo no Vaticano

Bispo Carlos Azevedo passa da Cultura para as Ciências Históricas novidade

O bispo português Carlos Azevedo foi nomeado neste sábado para o lugar de delegado (“número dois”) do Comité Pontifício para as Ciências Históricas, deixando o cargo equivalente que desempenhava no Dicastério para a Cultura e a Educação, da Santa Sé, que há poucas semanas passou a ser dirigido pelo também português cardeal José Tolentino Mendonça.

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This