Na corda bamba

Ilustração © Madalena Matoso
A vida é como uma corda
De tristeza e alegria
Que saltamos a correr
Pé em baixo, pé em cima
Até morrer[i]
É fascinante ir descobrindo como a vida é cheia de contrastes e como eles nos fazem falta. Sem a noite não desejaríamos o dia, sem chuva não apreciaríamos o sol, sem o mal não reconheceríamos o bem, sem tristeza não sentiríamos alegria…
Alegria e tristeza.
Paulo insiste: “Alegrai-vos sempre no Senhor! De novo o digo: alegrai-vos!”[ii].S. João diz-nos que tudo foi escrito “para que a nossa alegria seja completa”[iii].
Mas que fazer da tristeza que tantas vezes nos atravessa? Tristeza interior, pessoal, nascida de dores fundas, íntimas; angústia; sofrimento físico, sofrimento psíquico, nosso ou de outros, e ainda toda a tristeza do mundo, guerras, injustiças, desastres de toda a espécie, que originam imagens de dor que por vezes nos esmagam.
Não podemos ignorar. Há quem reivindique o “direito à tristeza”. Temos de a encarar de frente.
O que tem mais força? Para onde cai o prato da balança?Por vezes chegam testemunhos de pessoas que, no meio de situações terríveis, mantêm a alegria e a comunicam aos outros. Murat Arslan, um juiz da Turquia, preso por razões políticas, em condições degradantes e desumanas, conseguiu enviar esta mensagem da prisão: “Neste escuro império do medo, posso ter perdido a liberdade, o sustento, os meus queridos, mas no meio da fome, da escuridão e dos gritos, nunca perdi a fé nos dias luminosos que hão-de vir bater à nossa porta; nunca. Todos os dias adormeço em paz interior, com a esperança dos dias melhores; todas as manhãs me levanto com um sorriso”[iv].
E, neste mundo cheio de contradições, todos os dias além de lágrimas vamos descobrindo pequenos sorrisos. Nascem crianças. A Esperança renova-se. A Vida recomeça. Pergunta Miguel Torga: “Quem te fez tão criança na Primavera, vida enrugada e triste? A morte existe, a razão desespera e tu, feliz, aberta num sorriso como se o mundo fosse o paraíso”[v]
Na corda bamba da vida, tentando manter o equilíbrio, com mais ou menos piruetas, andamos, ora para a frente ora para trás; tropeçamos; o salto falha; o pé escorrega; o ar falta. Mas não estamos sós; somos muitos; há empurrões, talvez, mas damos as mãos. Saltamos juntos. Confiamos.
Não sei se é um truque banal
Se um invisível cordão
Sustenta a vida real (…)
Não sei se é vida real
Um invisível cordão
Após o salto mortal[vi]
Mantém-nos a Alegria. Alegria coisa séria… Alegria de acreditar que “um invisivel cordão nos sustenta”. Sempre.
Notas
[i]Clã, Dançar na Corda Bamba; [ii]Carta de São Paulo aos Filipenses 4, 4; [iii]1 Carta de São João 1.4; [iv]https://www.publico.pt/murat-arslan#gs.RhFgnVdb; [v]Miguel Torga, Pasmo, in Diário IX; [vi]Chico Buarque, O Circo Místico
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