As camisolas e as botas foram oferecidas pela Federação Portuguesa de Futebol. As raparigas, equipadas a rigor, treinam todas as semanas. Jogar à bola, na Diocese de Wau, tem um significado muito especial. É que, através do desporto, aprende-se o que é a união, a fraternidade, e até o amor. Para a “treinadora”, a irmã Beta Almendra, isso é o mais importante, especialmente num país como o Sudão do Sul, marcado pela violência e a guerra…

A equipa de futebol feminino dinamizada pela irmã Beta Almendra, com equipamentos cedidos pela Federação Portuguesa de Futebol. Foto © ACN Portugal
Mary usa a camisola número 14. Na selecção portuguesa de futebol, apurada para o Campeonato da Europa que vai realizar-se este ano na Alemanha, a partir de Junho, esse é o número atribuído a Gonçalo Inácio. Mary, 21 anos, provavelmente não saberá quem é Inácio, mas conhecerá, seguramente, Cristiano Ronaldo e a sua forma muito efusiva de comemorar os golos e as vitórias. Mas ali, em Wau, no Sudão do Sul, isso pouco importa.
Mary é uma das jogadoras da equipa que a missionária comboniana Elisabete Almendra organizou na Diocese. Foi através do pároco da sua terra natal, a Ericeira, no Patriarcado de Lisboa, que Elisabete Almendra, mais conhecida como irmã Beta, conseguiu que a Federação Portuguesa de Futebol oferecesse não só as camisolas mas todo o equipamento e até as botas para as jovens da equipa da Igreja. Para Mary, o mais importante de tudo é a ligação que o futebol dá ao mundo, aos outros, às outras raparigas, à sociedade. “Estamos a jogar futebol, estamos a mostrar que precisamos de estar unidas, que temos de estar juntas e que o futebol ajuda-nos a estar com outras pessoas em diferentes lugares, por exemplo em Awiel e Kuajok”, explica a jovem atleta à Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS).
“O futebol liga-nos com imensos lugares e pessoas lá de fora, no mundo, e também nos torna amigos. Não nos traz ódio, mas amor e também queremos mostrar que as raparigas do Sudão do Sul devem jogar futebol pois isso aproxima-as a outras pessoas e a outras raparigas em todo o mundo”, diz a jovem num vídeo da AIS:
Elisabete Almendra, 53 anos, é uma religiosa portuguesa. O Sudão do Sul é a sua segunda experiência missionária em África, depois de ter estado cerca de seis meses no Quénia. Chegou a Wau no início de 2021, em plena pandemia do coronavírus. Esta é uma diocese muito grande, com uma área bem maior do que Portugal continental e uma população que ultrapassa os quatro milhões de habitantes.
A religiosa portuguesa explica a importância desta ideia singular, de levar raparigas a empenharem-se de verdade no desporto, pois esse é um caminho que ajuda na formação, na educação e, muito relevante também, no exemplo que é dado a todas as outras jovens. “Estamos a passar esta mensagem de que realmente é muito importante para estas jovens poderem continuar a estudar, poderem ir até à universidade e, mais tarde, poderem ter um nível de vida um bocadinho melhor do que o dos seus pais”, afirma a irmã Beta.
O grupo de atletas é composto por alunas do secundário ou que já acabaram o ensino médio e estão à espera de entrar para a universidade, explica a irmã Elisabete. “Todos os domingos tenho encontros com elas. Jogamos futebol para passar uma mensagem de união e de paz e que realmente estas jovens conseguem fazer diferente”, acrescenta.
Oito em cada dez raparigas sofreu violência

Grupo do Sudão do Sul com a irmã Beta Almendra, antes da missa de acolhimento aos peregrinos da jornada Mundial da Juventude, na Ericeira. Foto © Rita Gusmão/COP da Ericeira e Carvoeira
Em Outubro último, foi conhecido um estudo realizado por uma ONG da Companhia de Jesus, a Entreculturas, que indicava que aproximadamente cerca de oito em cada dez raparigas do Sudão do Sul terá já sofrido alguma forma de violência física, verbal ou sexual durante a sua vida. A educação será, talvez, uma das ferramentas mais eficazes para se alterar este estado de coisas. Esta realidade, que é “muito triste”, nas palavras de Elisabete Almendra, pode ser combatida com ideias simples e divertidas como a prática do desporto, nomeadamente do futebol.
A irmã Beta Almendra já tinha conseguido trazer um pequeno grupo de seis jovens sul-sudaneses à Jornada Mundial da Juventude, depois de ultrapassar muitas dificuldades. [ver reportagem no 7MARGENS]
O Sudão do Sul é o mais jovem país do mundo e um dos mais pobres. A sua curta história – em Julho completará 13 anos como nação independente – está marcada por muita violência. Uma desavença política entre o Presidente Salva Kiir e o então vice-presidente Riek Machar transformou-se, em 2013, num conflito aberto que degenerou em guerra. A situação no país foi, ainda, agravada pela crise no vizinho Sudão, que provocou um influxo de refugiados e retornados na fronteira entre os países.
As origens dos dois dirigentes explicam uma parte do que aconteceu: Kiir pertence à etnia dinka e Machar ao povo nuer, as duas principais etnias do Sudão do Sul. No início de Fevereiro do ano passado, o Papa visitou o Sudão do Sul, acompanhado pelo primaz da Igreja Anglicana, o arcebispo de Cantuária, Justin Welby, e de Jim Walace, líder da Igreja Presbiteriana da Escócia. Vários projectos da AIS apoiam a Igreja do Sudão do Sul no seu trabalho pastoral com os refugiados e formação de religiosas e catequistas.









