AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Sudão do Sul, futebol, desporto, comboniana, Beta Almendra.

Aprender a união no Sudão do Sul em guerra

Na diocese de Wau há uma equipa de futebol feminino que joga com as cores de Portugal

| 15/03/2024

As camisolas e as botas foram oferecidas pela Federação Portuguesa de Futebol. As raparigas, equipadas a rigor, treinam todas as semanas. Jogar à bola, na Diocese de Wau, tem um significado muito especial. É que, através do desporto, aprende-se o que é a união, a fraternidade, e até o amor. Para a “treinadora”, a irmã Beta Almendra, isso é o mais importante, especialmente num país como o Sudão do Sul, marcado pela violência e a guerra…

Sudão do Sul, futebol, desporto, comboniana, Beta Almendra.

A equipa de futebol feminino dinamizada pela irmã Beta Almendra, com equipamentos cedidos pela Federação Portuguesa de Futebol. Foto © ACN Portugal

 

Mary usa a camisola número 14. Na selecção portuguesa de futebol, apurada para o Campeonato da Europa que vai realizar-se este ano na Alemanha, a partir de Junho, esse é o número atribuído a Gonçalo Inácio. Mary, 21 anos, provavelmente não saberá quem é Inácio, mas conhecerá, seguramente, Cristiano Ronaldo e a sua forma muito efusiva de comemorar os golos e as vitórias. Mas ali, em Wau, no Sudão do Sul, isso pouco importa.

Mary é uma das jogadoras da equipa que a missionária comboniana Elisabete Almendra organizou na Diocese. Foi através do pároco da sua terra natal, a Ericeira, no Patriarcado de Lisboa, que Elisabete Almendra, mais conhecida como irmã Beta, conseguiu que a Federação Portuguesa de Futebol oferecesse não só as camisolas mas todo o equipamento e até as botas para as jovens da equipa da Igreja. Para Mary, o mais importante de tudo é a ligação que o futebol dá ao mundo, aos outros, às outras raparigas, à sociedade. “Estamos a jogar futebol, estamos a mostrar que precisamos de estar unidas, que temos de estar juntas e que o futebol ajuda-nos a estar com outras pessoas em diferentes lugares, por exemplo em Awiel e Kuajok”, explica a jovem atleta à Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS).

“O futebol liga-nos com imensos lugares e pessoas lá de fora, no mundo, e também nos torna amigos. Não nos traz ódio, mas amor e também queremos mostrar que as raparigas do Sudão do Sul devem jogar futebol pois isso aproxima-as a outras pessoas e a outras raparigas em todo o mundo”, diz a jovem num vídeo da AIS:

 

Elisabete Almendra, 53 anos, é uma religiosa portuguesa. O Sudão do Sul é a sua segunda experiência missionária em África, depois de ter estado cerca de seis meses no Quénia. Chegou a Wau no início de 2021, em plena pandemia do coronavírus. Esta é uma diocese muito grande, com uma área bem maior do que Portugal continental e uma população que ultrapassa os quatro milhões de habitantes.

A religiosa portuguesa explica a importância desta ideia singular, de levar raparigas a empenharem-se de verdade no desporto, pois esse é um caminho que ajuda na formação, na educação e, muito relevante também, no exemplo que é dado a todas as outras jovens. “Estamos a passar esta mensagem de que realmente é muito importante para estas jovens poderem continuar a estudar, poderem ir até à universidade e, mais tarde, poderem ter um nível de vida um bocadinho melhor do que o dos seus pais”, afirma a irmã Beta.

O grupo de atletas é composto por alunas do secundário ou que já acabaram o ensino médio e estão à espera de entrar para a universidade, explica a irmã Elisabete. “Todos os domingos tenho encontros com elas. Jogamos futebol para passar uma mensagem de união e de paz e que realmente estas jovens conseguem fazer diferente”, acrescenta.

 

Oito em cada dez raparigas sofreu violência

Peregrinos do Sudão do Sul antes da missa de acolhimento aos peregrinos, na Ericeira. Foto © Rita Gusmão COP da Ericeira e Carvoeira

Grupo do Sudão do Sul com a irmã Beta Almendra, antes da missa de acolhimento aos peregrinos da jornada Mundial da Juventude, na Ericeira. Foto © Rita Gusmão/COP da Ericeira e Carvoeira

 

Em Outubro último, foi conhecido um estudo realizado por uma ONG da Companhia de Jesus, a Entreculturas, que indicava que aproximadamente cerca de oito em cada dez raparigas do Sudão do Sul terá já sofrido alguma forma de violência física, verbal ou sexual durante a sua vida. A educação será, talvez, uma das ferramentas mais eficazes para se alterar este estado de coisas. Esta realidade, que é “muito triste”, nas palavras de Elisabete Almendra, pode ser combatida com ideias simples e divertidas como a prática do desporto, nomeadamente do futebol.

A irmã Beta Almendra já tinha conseguido trazer um pequeno grupo de seis jovens sul-sudaneses à Jornada Mundial da Juventude, depois de ultrapassar muitas dificuldades. [ver reportagem no 7MARGENS]

O Sudão do Sul é o mais jovem país do mundo e um dos mais pobres. A sua curta história – em Julho completará 13 anos como nação independente – está marcada por muita violência. Uma desavença política entre o Presidente Salva Kiir e o então vice-presidente Riek Machar transformou-se, em 2013, num conflito aberto que degenerou em guerra. A situação no país foi, ainda, agravada pela crise no vizinho Sudão, que provocou um influxo de refugiados e retornados na fronteira entre os países.

As origens dos dois dirigentes explicam uma parte do que aconteceu: Kiir pertence à etnia dinka e Machar ao povo nuer, as duas principais etnias do Sudão do Sul. No início de Fevereiro do ano passado, o Papa visitou o Sudão do Sul, acompanhado pelo primaz da Igreja Anglicana, o arcebispo de Cantuária, Justin Welby, e de Jim Walace, líder da Igreja Presbiteriana da Escócia. Vários projectos da AIS apoiam a Igreja do Sudão do Sul no seu trabalho pastoral com os refugiados e formação de religiosas e catequistas.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

“Sem trabalho digno não há vida digna”: Movimento de Trabalhadores Cristãos dinamiza videoconferência

Esta terça-feira, 7 outubro

“Sem trabalho digno não há vida digna”: Movimento de Trabalhadores Cristãos dinamiza videoconferência novidade

A Liga Operária Católica/ Movimento de Trabalhadores Cristãos assinala esta terça-feira, 7 de outubro, o Dia Mundial pelo Trabalho Digno com uma videoconferência sobre “Trabalho Digno/Código Laboral”. A sessão, com início marcado para as 21h00 e de participação livre, terá como oradores Mafalda Troncho, diretora do Escritório da Organização Internacional do Trabalho em Portugal, e Ulisses Garrido, sociólogo e especialista em relações laborais.

Um 7 de Outubro por Delphine Horvilleur

[Entre Margens]

Um 7 de Outubro por Delphine Horvilleur novidade

Não sei se a carta de «calorosas felicitações» do Secretário-Geral da ONU ao Presidente do Irão, por ocasião da celebração do bonito Dia Nacional da Revolução Islâmica compara bem com a sua tentativa de contextualização histórica do ataque terrorista de 7 de Outubro de 2023, perpetrado pelo Hamas. Mas recorda-me um título e um autor. [Texto de João Santos].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This