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[Entre Margens]

Na escola do ressentimento

| 11/01/2026

 Para Rob Reiner (6.3.47-14.12.25)[1]

 

Seguir os debates pré-eleitorais nas televisões é também uma eminente provação: entre a simples inanidade e a reinterpretação imaginativa da sua própria biografia política, os protagonistas dificilmente persuadem as plateias. Aristóteles ensinou que são três os meios de persuasão: orador, discurso, auditório; ou ethos, logos, pathos. Ou ainda: invocação do carácter do orador; discurso racional, argumentativo; apelo às paixões do auditório (elemento irracional).

Em todo este penoso percurso, algumas coisas se vão firmando do lado do ethos, ou carácter, de alguns dos candidatos. Ao embaraço com ideias e conceitos alheios à sua mundividência, que encontramos num, junta-se, sem mistério, a desenvoltura cómica, porém vazia, do sexagenário libertário, a vetustez habilidosa, nem por isso mais ponderada, do último comunista do café Paris (coisa minha), o revisionismo bon chic, bonne gauche da reciclada euro-parlamentar (cantando loas a Mário Soares e Jorge Sampaio, como se UDP e PSR alguma vez tivessem sequer ponderado engrossar as fileiras da esquerda institucional nos idos de 90), o social-ecologismo bonzinho do representante de um outro partido de um homem-só, exilado voluntariamente da movida BE sem, por isso – seria o mínimo  – prescindir do lugar a que os companheiros e os eleitores o tinham elevado, ou o exilado voluntário dos combates políticos do seu partido, não especialmente dinâmico na resistência aos assaltos de António Costa & Cia. nem especialmente claro na afirmação do que singulariza a sua candidatura, que se apresenta como um patriota e democrata herdeiro, talvez, da nobreza imaginária da 1ª república.

Restam dois mais interessantes: o mais claro, concentrado e racional tem aparentemente contra si estes três atributos, mas sobretudo, à esquerda, o peso, compreensivelmente perturbador, da dupla Montenegro-Hugo Soares; o último, apresenta-se como um caso sério de apelo à multidão no registo que Shakespeare imortalizou no célebre discurso de Marco António (Júlio César, 3º acto), que todos os estudantes de retórica conhecem de cor e salteado. Mas conta, coisa que não acontecia há 20 séculos, com esse poderoso acelerador de incêndios chamado redes sociais e com um jornalismo que desistiu. Já tudo foi dito a este respeito, e seria ocioso insistir no diagnóstico e nas analogias, mas foi precisamente no embate entre os dois que algo, conhecido como central na estratégia dos partidos extremistas filiados na vertiginosa díade Trump-Putine, se revelou na forma de uma confissão pessoal.

Samuel Johnson, num dos seus magníficos Ensaios sobre a virtude e a felicidade, E-primatur, 2024 (trad. Pedro Galvão), lembra um dito de Francis Bacon: «a leitura torna um homem profundo, a conversação põe-no desembaraçado e a escrita fá-lo rigoroso». Sabemos todos que há uma premissa implícita: a boa-fé e a disposição para nos corrigirmos. Mas cinjamo-nos a Bacon: o estudo serve a conversação, esta permite o contraditório por obrigar ao confronto com o outro e, por fim, escrever é uma forma de registo mas, mais do que isso, a maneira mais eficaz de testar o que julgamos saber. Ora, mais adiante, o mesmo Johnson confronta-nos com os abismos para que nos arrastam quando vemos «a imbecilidade esquivar-se à força dos argumentos, escondendo-se na sua própria obscuridade; e […] o engenho erróneo tece[r] falácias ardilosas que a razão quase não consegue desenredar». Retrato poderoso do mal em acção na esfera pública, o ensaio que cito [2] antecede o que tem por título «A Necessidade da Delicadeza», nem mais.

Acontece que ainda não cheguei ao coração do problema. O que é que o considerável tribuno (não pelo tamanho, mas pelo excesso, a violência que transporta e a que apela) veio confessar, de passagem, antes ou depois de mais uma arrancada patriótica em registo ‘sangue e solo’ (em língua hammerskin, blut und boden)? Qualquer coisa que é, banalmente, da ordem do ressentimento. Que ele lê (ou faz de conta) sei-o por uma amiga que o encontrou numa livraria a folhear coisas, com os indispensáveis guarda-costas. Que conversa, sabemos que não (é segui-lo no parlamento). E de escrita, népia: é vê-lo esgrimir palavreado a eito em filmecos semi-pornográficos nas redes, um dos quais quase entrava no meu telemóvel, trazido por Elon Musk, sem autorização, mas claramente ao seu (dele) serviço, como manda a nova estratégia nacional de segurança dos EUA [3].

Ora esse qualquer coisa é da ordem do sintoma, mesmo que o autor sugira aos compinchas ser coisa pensada, voluntária. Trata-se da menorização do próprio, que não fala tão bem como esse da elite corrupta, mas diz as verdades. O inocente desvalido e bravo, que vem de Mem Martins – como lembrou, uns dias mais tarde, a outro contendor proveniente, esse, da elitista Amadora! –, não se deixa intimidar pelo privilégio da casta corrupta – que somos todos os que ainda crêem na democracia política, no voto, na representação livre, não vinculada, e numa vida civilizada, com regras, em que os rufias (o inglês bully engana, suaviza e sugere ciência onde só há violência, por isso os ingleses dizem, precisamente, rufia) são isolados e impedidos de perturbar a vida onde ela decorre, se manifesta.

No belo romance de Ian McEwan intitulado Lessons, o protagonista descobre a beleza da vida em sociedade quando assiste a um acidente de viação numa rua de Londres:

«Começou a chorar. Afastou-se para que o seu pai não visse. Roland tinha pena do homem e da mulher, mas não era isso. As suas eram lágrimas de alegria, por um súbito despertar do entendimento que ainda não se definia nestes termos: como eram adoráveis e boas as pessoas, como era gentil o mundo que tinha ambulâncias que vinham rapidamente, não se sabe de onde, onde quer que houvesse tristeza e dor. Sempre a postos, todo um sistema, mesmo sob a superfície da vida diária, esperando atento, pronto, com todo o seu conhecimento e competência, para vir e ajudar, enquadrado por uma rede mais ampla de bondade que ele ainda teria de descobrir.»[4]

Sabemos todos que experiências precoces geradoras de confiança, alegria, abertura, despreocupada relação com o outro ou, ao contrário, de temor, ira, suspeita, egocentrismo exacerbado, tendem a perpetuar-se e a conformar disposições que geram, no último caso, gente de uma virtude que berra, incapaz de reconhecer ou de se comover com a bondade, muito menos com essa fragilidade intrínseca que Roland observa e para a qual descobre, chorando «lágrimas de alegria», o remédio social da gentil cooperação.

Figura 1 – Ressentiment: magnífica fotomontagem que ilustra a capa da edição citada. A elite odiosa é, neste caso, representada por corretores e solicitors da City de Londres. Imagem obtida em https://gregorybsadler.substack.com/p/reading-recommendation-max-schelers

Max Scheler fala da espécie de emoção sentida por Roland nos seguintes termos: «Esta espécie de amor pelo mais fraco, o doente e o pequeno brota da segurança interior e da plenitude vital.»

Tal emoção, sendo o contrário do ressentimento, revela que este sentimento negativo só pode ser o contrário do amor cristão. Sabemos que Nietzsche sustentou essa tese, mas Scheler responde:

«Será o ressentimento a sua [do cristianismo] fonte principal? Quanto mais reflectia sobre esta questão, mais claramente me dava conta de que a raiz do amor cristão é inteiramente livre de ressentimento, mas que o ressentimento pode muito facilmente usá-lo para os seus próprios fins, simulando uma emoção que corresponde a esta ideia. Esta simulação é frequentemente tão perfeita que mesmo o mais perspicaz observador já não consegue distinguir o amor real do ressentimento que se faz passar por amor.»[5]

 

[1] Morto no dia em que concluo este texto, Trump dedicou-lhe uma mensagem repugnante no canal Truth Social: «Rob Reiner […] faleceu hoje, juntamente com a sua esposa, Michele, alegadamente devido à raiva que causou aos outros em consequência do seu enorme, inflexível e incurável sofrimento com uma doença mental incapacitante conhecida como SÍNDROME DE DESEQUILÍBRIO DE TRUMP, por vezes referida como TDS.» Fonte: https://www.politico.com/news/2025/12/15/trump-rob-reiner-death-00690682.
[2] «Ler, escrever e conversar», p. 295.
[3] Leia-se, especialmente, pág. 25 e segs., em https://www.whitehouse.gov/wp content/uploads/2025/12/2025-National-Security-Strategy.pdf
[4] Lessons, Penguin, Vintage, 2023, p. 39.
[5] Ressentiment, Schocken Books, New York, 1972, pp. 90 e 88 (por ordem das citações).

 

João Santos é professor.

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