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Na Escola Secundária de Cacilhas-Tejo, falou-se sobre o acolhimento dos migrantes e a construção da paz. Foto Jorge Wemans
Na Escola Secundária de Cacilhas-Tejo, falou-se sobre o acolhimento dos migrantes e a construção da paz. Foto © Jorge Wemans/7MARGENS

Com 700 alunos de português

Na escola em que os imigrantes se tratam por “olá, irmão!” falou-se de religião, paz e acolhimento

| 07/05/2025

Há uma escola na Margem Sul que é frequentada por 700 imigrantes desejosos de aprenderem a falar português. “Nas nossas turmas participam pessoas de todas as religiões e vive-se em paz. Nas redes sociais tratamo-nos sempre por ‘Olá, irmão!’” – conta uma das professoras. Nesta terça-feira, 6 de maio, à noite, professores e alunos encheram a sala da biblioteca para ouvir gente de várias religiões falar sobre como promovem “o acolhimento ao migrante na construção da paz”. Um dos migrantes concluiu: “As diferenças estão em nós. Podemos olhar para o outro e ver uma flor, ou ver só um espinho”.

“Quem são vocês? Quem são os migrantes, os refugiados?”, pergunta aos adultos sentados à sua frente Elsa Pereira, da Aliança Evangélica. E responde: “São pessoas! Ser migrante é uma condição fruto de um acontecimento, não é uma identidade. Tal como todos os outros, vocês são pessoas!”. Catarina Dias, católica, dirá o mesmo por outras palavras: “É mais importante conhecer a realidade do outro do que partir da minha ideia sobre o outro”.

Zabir Edriss, da Fundação Islâmica, prefere chamar a atenção para a necessidade de “educar” e “dar tempo”: educar quem está e quem chega para “conhecerem os costumes uns dos outros” e reconhecer que “integrar leva tempo”. Peter Stilwell, padre da Igreja Católica, resume o que todos sublinharam: “O fenómeno das migrações é uma problemática mundial, uma enorme questão do nosso tempo. Mas somos todos migrantes, peregrinos, e as religiões ensinam que ninguém é o centro do mundo. O centro do mundo é Deus.”

Os quatro falavam na iniciativa “O acolhimento ao migrante na construção da paz”, organizada por alguns dos professores da disciplina Português Língua de Acolhimento que integram o Gabinete de Logística e Apoio ao Migrante da Escola Secundária de Cacilhas-Tejo, em Almada. Nesta escola, são mais de 30 as turmas que acolhem imigrantes de 40 nacionalidades diferentes. A maioria funciona na própria escola, em regime noturno, após o termo das aulas dos alunos que frequentam o secundário. Mas, porque vários dos imigrantes são cozinheiros ou trabalham à noite em outras áreas da restauração, há também turmas com horários mais matinais em salas da junta de freguesia e de uma associação local.

 

Habitação e falsa informação

Na Escola Secundária de Cacilhas-Tejo o debate foi sobre o acolhimento dos migrantes e a construção da paz. Foto Jorge Wemans

O encontro incluiu oradores de diferentes confissões religiosas, que ajudaram a identificar os principais desafios à integração dos migrantes. Foto © Jorge Wemans/7MARGENS

Zabir Edriss fala do seu caso pessoal para sublinhar o tempo necessário à integração dos imigrantes. São três gerações: a dos avós “muçulmanos fugidos da Índia logo após a independência”, a dos pais “vivendo em Moçambique” até à dele que “fala mais ou menos português” – diz, brincando com o seu fluente e perfeito português. Edriss lembra que “a comunidade islâmica é uma comunidade de paz e de migrantes”, tendo “o profeta Mohamed vivido a condição de imigrante quando teve de fugir de Meca para Medina” e dá vários exemplos de como ao longo da história os refugiados foram acolhidos em terras do Islão, nomeadamente os “judeus expulsos pelos reis portugueses”.

A impossibilidade de encontrar habitação digna a preços comportáveis é o maior calvário pelo qual passam os recém-chegados a Portugal. Um problema que a Fundação Islâmica procura ajudar a resolver abordando autarquias, associações e Governo, mas sem êxito. “Comida, roupa e trabalho sempre se conseguem encontrar, mas habitação não. É o problema principal”, conclui Edriss.

A proliferação de informação errada é, para Catarina Dias, outro grande problema que impede de conhecer a realidade. E, citando o Papa Francisco (“a realidade é mais importante do que a ideia”), refere que “é preciso conhecer os imigrantes, as pessoas concretas, e a sua realidade, através de dados e informação correta”. “O meu contacto com migrantes mudou o meu modo de ver o outro” e “quanto mais diferente, mais rico para mim esse contacto foi”, diz de si própria, também ela ida de Portugal para Angola, país em que viveu algum tempo.

Vinda para falar sobre o acolhimento dos migrantes pelas comunidades católicas, Catarina dá alguns exemplos concretos, mas avisa que “o universo dos católicos é muito variado”, e “embora todos sigam a mesma pessoa – Jesus Cristo –, têm comportamentos muito diferentes”. E esse Jesus “acolheu todos, independentemente de quem eram”, pelo que “os cristãos não têm desculpa para não acolherem os outros, pois Aquele que lhes dá o nome acolheu todos, por mais diferentes que fossem”.

 

Conhecer a casa do outro

Imigrantes de todas as nacionalidades procuram na escola certificações que lhes permitam regularizar a sua situação. Foto Jorge Wemans

Na plateia, os alunos-migrantes ouvem, nem sempre percebem tudo o que é dito, mas volta e meia abanam a cabeça em sinal de concordância. Foto © Jorge Wemans/7MARGENS

À Bíblia “que é fundamental para os evangélicos” regressa Elsa Pereira para citar vários textos em que de Deus se recebe o mandamento de “acolher os migrantes como sendo da nossa casa” e para lembrar que as três religiões abraâmicas têm no pai comum – Abraão – um migrante, “alguém que é chamado por Deus a sair da sua terra, abandonar o seu lar para se pôr a caminho de outra terra.” E é essa consciência que norteia o trabalho de associações que “estão na linha da frente no apoio ao migrante” como a Lisbon Project, ou a Casa da Cidade em Moscavide.

A casa é um conceito particularmente caro a Elsa. Na relação com o outro “o gosto e a atitude de escuta são muito importantes”, precisamos de “saber como é a casa do outro, a casa de onde vem, a casa em que estão as suas raízes”. E, sublinha, “a religião, as religiões, na sua dimensão espiritual, de contemplação, são caminhos para, nesta sociedade que vive sempre a correr, parar e escutar.”

Aos evangélicos compete também, sempre inspirados pela Bíblia, “falar por quem não tem voz”, tornar públicos os problemas, dificuldades e sofrimentos dos imigrantes. Neste ponto, também Catarina Dias refere o facto de, através dos média, várias vozes de organizações católicas fazerem “ouvir a voz dos sem voz”.

Na plateia, os alunos-migrantes ouvem, nem sempre percebem tudo o que é dito, mas volta e meia abanam a cabeça em sinal de concordância. Sentado à minha frente, Khaled, vindo do Egito, diz que “sim”, que entendeu “tudo… bem, quase tudo”. Com outros, atrás de mim, a comunicação tem de ser feita em inglês, língua em que confessam “ter apanhado pouco de tudo quanto foi dito em português”.

Para eles, o padre Stilwell faz um resumo das intervenções em língua inglesa e aproveita para acrescentar que “a integração não é assunto que diga respeito apenas aos que estamos nesta sala, tem também a ver com os filhos dos imigrantes”. Para estes, “serem bem acolhidos e valorizados na escola e em outros espaços sociais é decisivo”, sob pena de se “refugiarem em guetos de iguais, estranhos à sociedade em que vivem”, e “caírem com facilidade em processos de radicalização”.

Com o seu bom humor britânico próprio de quem vive entre dois mundos – o inglês do seu avô paterno e da sua mãe, e o mundo português que é o seu – remata, relatando uma experiência de bom acolhimento de migrantes concretizada pela Câmara do Fundão, cidade em que já “existem duas ou três equipas de ‘cricket’, o que significa que Portugal está a ser civilizado!”.

 

50 mil inscritos

São mais de 700 os imigrantes inscritos para aprender português. Foto Jorge Wemans

Só nesta escola, são mais de 700 os imigrantes inscritos para aprender português. Foto © Jorge Wemans/7MARGENS

Em 2024, foram quase 50 mil os imigrantes inscritos em Português Língua de Acolhimento para aprender a ler e escrever na língua do país que os acolhe. Mais de 31 mil obtiveram a certificação que desejavam. E possuírem conhecimentos básicos da língua portuguesa certificados é requerido para obterem a nacionalidade portuguesa, além de facilitar a resposta positiva aos pedidos de autorização de residência ou de reagrupamento familiar. Por isso, tantos acrescentam às longas horas do horário profissional mais umas quantas horas diárias de aulas.

Entre as centenas de alunos desta disciplina encontram-se, na Escola Secundária de Cacilhas-Tejo, pessoas com todo o tipo de profissões, incluindo gente altamente qualificada que trabalha remotamente e escolheu Portugal para viver. Também aqui há mais homens do que mulheres (no país, em 2024, os homens representavam 68% dos inscritos). E, tal como no resto do país, faz-se sentir a presença, entre as 40 nacionalidades representadas, dos que vêm do subcontinente indiano (45% a nível nacional). Do mesmo modo que, em termos de idade, nesta escola a frequência não difere muito da habitual: dois em cada três alunos têm entre 25 e 44 anos de idade.

Mas, dizem os professores, já de roda do bolo confeccionado pela mulher de um estudante russo, a língua “não é tudo” nem se pode entender sem conhecer algo “da cultura e da história do povo que a fala”. Por isso, vá de organizar excursões a locais emblemáticos do território português em que “a arquitetura, a organização do espaço e a construção” proporcionem alguma perceção dessa cultura e dessa história. Évora, Óbidos e Santarém surgem como obrigatórios. Excursões organizadas aos sábados, claro!… É quando o maior número pode e os professores, sem que ninguém lhes pague, também fazem por estar disponíveis. “Vale bem a pena, todos ganhamos com estes encontros. Sinto-me muito bem acolhida por eles” – conclui uma das professoras referindo-se aos imigrantes seus alunos.

 

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