Na força de uma alegria completa

| 6 Mai 2024

[domingo vi da páscoa // dia da mãe – b – 2024]

[amadurece maio / os trigais d’alegria ― / a arma dos corações © haiku & fotografia de pintura mural em Coimbra: Joaquim Félix]

 

1. Maio nasceu! Rebentaram as águas do alto
e ainda nem o sol o enxugou, tão fresco e húmido que está.
Cambaleia nos seus primeiros dias, mas veloz o vento no-lo traz.
Surge como tenra criança, semelhante ao Misael que ontem batizei,
na belíssima igreja do convento de S. Salvador de Vilar de Frades.
E, não obstante o rio atmosférico, apressa-se nos seus esplendores.
Deseja segurar-se às previsões dos próximos dias.
Agarrados aos sons de abril e seus ecos de fundo,
― de um abril que nos devolveu à liberdade ―,
talvez com saudades da revisão das suas canções,
aqui estamos, como quem canta «Maio, maduro Maio»,
ao sabor da letra e música de José Afonso:

2. Livremo-nos de quebrar o seu encanto.
Também depois da sesta ou, aqui em assembleia,
convoquemos, solidários com maio, as flores da alegria.
Hoje é dia para cantar um Aleluia maduro.
Sim, amadurecendo está o trigo do sul, o pão do altar.
Haja fome e cantaremos os amores de maio,
que retumbam de um outro grande Amor, sempre a cumprir-se.
Que a voz não esmoreça, nem os braços cansem,
neste combate espiritual, que a vida nos oferece.
Sinto que cada um de nós gostaria de entrar numa ‘batalha das flores’,
― como a que ocorre, por exemplo, em Barcelos, na Festa da Cruzes ―,
e não na batalha das armas,
acima de todos os espinhos:

3. De eco em eco, transitemos agora para as palavras de Jesus.
Estou persuadido de que, no ouvido do nosso coração,
ecoarão ainda as parábolas dos dois últimos domingos:
o «bom pastor» (Jo 10,11) e a «verdadeira vide» (Jo 15,1).
Jesus encontra-se sentado à mesa,
juntamente com os seus discípulos, numa ceia memorável.
A ceia é de despedida, no dia anterior à celebração da páscoa judaica.
Poucas horas depois desta ceia festiva, que terminará no alto da cruz,
quando Jesus tomar o último cálice,
com a esponja ensopada em vinagre,
― cf. Brant Pitre, Jesus e as raízes judaicas da Eucaristia
a atmosfera é naturalmente de apreensão entre todos.
Porém, como temos ouvido, na sequência do domingo passado,
Jesus, na longa conversa de mesa, cuida a confiança dos seus amigos.

4. Sim, falou com eles de forma demorada,
fixando atentamente o rosto de cada um dos discípulos.
O que é compreensível, tratando-se do momento que era.
Há, suponho eu, como que uma chave
para abrir o sentido espiritual de todas as suas palavras.
Qual será? Muitos dirão que é o amor,
conforme Ele insiste ao longo do Evangelho.
Sim, o amor é uma das insistências de Jesus.
Todavia, sem nada obliterar à pertinência do seu mandamento,
creio que Jesus faz da sua síntese, narrada por S. João,
a chave de tudo quanto lhes transmitia.
E, claro, a nós também, porque nos encontramos à mesa com Ele!
Eis as palavras, eis a chave dos ditos de Jesus:
«Disse-vos estas coisas,
para que a minha alegria esteja em vós
e a vossa alegria seja completa» (Jo 15,11).

“Para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja completa” Foto: Fresco de Piero della Francesca na basilica di San Francesco ad Arezzo © Joaquim Félix

5. Tanto a ocidente quanto no oriente, as tradições cristãs
desenvolveram cristologias, assim me parece,
que não terão aprofundado o justo alcance destas palavras.
Efetivamente, as próprias tradições evangélicas
são parcas ao narrar as alegrias de Jesus,
nem mesmo quando, em contexto de festas,
― que Jesus observava religiosamente ―,
em momentos especiais, como na casa de amigos,
ou, ainda, nos banquetes para os quais era convidado.
Todavia, pergunto: Não terá sido Jesus uma criança alegre,
brincando com os amigos e as amigas, crianças como ele?
Quando jovem, não sorriria com as raparigas da sua terra?
E quando viu Nataniel debaixo da figueira (cf Jo 1,47-51),
não terá esboçado um sorriso, com certa ironia?
No casamento, em Caná da Galileia (cf. Jo 2,1-12),
estaria escondido, a um canto, sem se alegrar?
E naquela oração sublime, de ação de graças ao Pai,
por se dar a revelar aos humildes (cf. Lc 10,21-22),
o rosto de Jesus não estremeceria de felicidade?

6. Por vezes, dou comigo a pensar nas pessoas, turistas e não só,
que visitam as igrejas, e pergunto: Como imaginarão a nossa fé?
E as crianças, como observarão a maior parte das esculturas
que abundam sobre plintos e nos altares?
Que dirão das pinturas dos tetos e de outras encaixilhadas?
Há tempos ouvi um pai dizer-me que o seu filho, ainda criança,
tinha entrado numa igreja e, escutando as músicas litúrgicas,
lhe disse de forma espontânea: «Que coisa chunga!».
Quem estiver atento à mensagem de Jesus,
sensível à inspiração que o Espírito lhe concede para entendê-la,
a partir das palavras que hoje escutámos,
não se interrogará no sentido de fazer com que a alegria sobressaia?

7. Recentemente, evidenciei a urgência de uma «transumância outra»,
para proporcionar, na Igreja e suas igrejas, melhor alimento,
que se encontra à distância de um caminho a peregrinar.
Desde logo, surgiu como prioritário o cuidado com a linguagem,
não só da verbal, mas também da não verbal.
Não nos sentiremos saturados de certos ‘anacronismos’?
Estarão os nossos gestos e os lugares de oração a serem casas,
segundo a alegria de Jesus,
onde resplandece a «plenitude da alegria» pascal?

8. Não deixa de ser curioso o que se passou nesta igreja.
Aqui ao lado, neste altar onde trabalhou André Soares,
a devoção ao Sagrado Coração de Jesus substituiu uma outra:
a da Senhora da Alegria, ou dos Prazeres.
Porém, durante o ‘Ano Paulino’, de 2008 a 2009,
a igreja beneficiou de várias pinturas, da autoria de Ilda David’,
onde sobressaem temas alinhados com a mensagem hoje ouvida.
Desde logo, a atmosfera da reunião de Jerusalém,
na qual se decide a abertura da Igreja aos gentios.
Abertura que é também protagonizada por S. Pedro, num novo Pentecostes,
conforme a narração nos Atos dos Apóstolos (Actos 10,25-26.34-35.44-48).
O regozijo dos judeus e gentios é contado em termos de ‘maravilhamento’,
parafraseado, no salmo 97, como convite à alegria e a cantar.

9. Deus, que é amor e, por isso, não faz aceção de pessoas,
precede-nos, amando e escolhendo-nos.
Somos, por isso, convidados a amarmo-nos uns aos outros.
Enviado por Deus, como concretização do amor,
Jesus solicita-nos o amor recíproco, estabelecendo o estilo:
«Que vos ameis uns aos outros, como Eu vos amei» (Jo 15,12).

10. As mães são talvez quem melhor incarna ‘Deus-que-é-Amor’.
Precedem os filhos no amor e, ao estilo de Jesus,
estão disponíveis para dar a vida por eles até ao fim.
Neste dia a elas consagrado,
saberemos oferecer-lhes muitas coisas, agradecendo o seu amor:
flores, perfumes, peças de vestuário, orações, beijos, abraços, etc.
Gostaria de propor uma oferta àqueles que a possam fazer:
a visualização, em família, do filme «E agora, onde vamos?» (2011),
da realizadora Nadine Labaki, no qual se conta o poder das mães,
numa aldeia do Líbano, onde coabitam cristãos e muçulmanos,
libertando os filhos e os maridos da violência e da morte:

11. Acolhamos a alegria de Jesus, para que a nossa seja completa.
E, por conseguinte, atiremos para longe todo o tipo de tristeza,
até porque, como outrora recordava Neemias,
a alegria do Senhor é a nossa força (cf. Ne 8,10).
Será hoje esta a nossa bênção, no envio!
Os amigos de Jesus não podem sair tristes da eucaristia.
A sua missão é experimentar, na confiança, o amor amical,
sem fazer aceção de pessoas, nem atacando imigrantes,
como, por estes dias, infelizmente, sucedeu na cidade Porto.

 

Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das PassagensEste texto corresponde à homilia do Domingo VI da Páscoa na liturgia católica – dia da mãe – proferida na celebração eucarística na igreja de S. Paulo, do Seminário Conciliar de Braga.

 

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