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Bispos católicos fizeram uma caminhada pela paz ao longo da fronteira das duas Coreias. Foto Conferência Episcopal Coreana
Bispos católicos percorrem o caminho de cinco quilómetros junto à cerca que divide as duas Coreias. Foto © Conferência Episcopal da Coreia do Sul

A dois anos da JMJ Seul

Na fronteira das Coreias, bispos católicos caminharam pela paz e sonharam com reconciliação

| 23/05/2025

Longe dos roteiros turísticos mais conhecidos, no canto noroeste da Coreia do Sul, seis homens caminham em ritmo de passeio ao longo de uma cerca de arame farpado. O dia está frio e cinzento e do outro lado da vedação a paisagem da Coreia do Norte não é particularmente atrativa. Quem são e porque estarão ali? A resposta pode surpreender a maioria: são bispos católicos e fazem uma peregrinação de esperança.

É que oito décadas após a divisão da península coreana e a apenas dois anos da realização da Jornada Mundial da Juventude em Seul, na Coreia do Sul, a Igreja Católica daquele país é um dos poucos atores que mantém viva a esperança numa reaproximação.

A peregrinação à ilha de Gyodong, na fronteira com a Coreia do Norte, foi organizada pelo bispo Simon Kim Jong-Gang, presidente da Comissão de Reconciliação Coreana, para quem o “ódio e suspeita nunca podem ser uma solução”, como disse esta semana à repórter da ACI Prensa. Nesta peregrinação, os bispos percorreram o caminho de cinco quilómetros junto à cerca que divide os dois países desde a Guerra da Coreia (travada nos três primeiros anos da década de 1950), e rezaram para que os dois países deixem as suas diferenças para trás.

Durante 80 anos, soldados de ambos os lados da linha de demarcação, na Zona Desmilitarizada entre as duas Coreias, permaneceram de guarda, frente a frente, armados e sob pressão de que qualquer pequeno incidente poderia desencadear uma nova guerra. Em 2018, como parte dos acordos entre os dois países para construir confiança mútua, a Área de Segurança Conjunta foi limpa de armas de fogo e postos militares.

Mas essa abertura durou muito pouco. No início de 2020, a Coreia do Norte fechou as suas fronteiras devido à pandemia de covid-19 e ordenou novamente aos seus soldados que atirassem ao mínimo movimento através da fronteira. Desde o fracasso do processo diplomático que tentou restabelecer as comunicações entre a Coreia do Norte e os Estados Unidos em 2019 e o encerramento das fronteiras devido à pandemia, o isolamento tornou-se total.

Assim, “nos últimos cinco anos, a Coreia do Sul e a Coreia do Norte não tiveram trocas oficiais, nem a nível governamental nem civil”, lamenta o bispo Simon Kim Jong-Gang. Mas neste momento “há rumores de que embaixadas e organizações internacionais estão a preparar-se para retornar a Pyongyang, e que algumas áreas estão a atrair turistas estrangeiros”, assinala, com renovada esperança.

Até porque a proximidade entre as duas nações é palpável. “Tenho sempre a mesma sensação quando caminho ao longo da cerca de arame farpado. O Sul e o Norte são muito próximos”, explica o bispo. “Se alguém do outro lado tivesse gritado, eu teria conseguido ouvir. Espero que a confiança entre o Sul e o Norte seja restaurada o mais rápido possível”, afirma.

Bispos católicos coreanos rezaram junto à fronteira. Foto Conferência Episcopal da Coreia do Sul

Os bispos rezaram para que os dois países deixem as suas diferenças para trás. Foto © Conferência Episcopal da Coreia do Sul

 

E não é o único. Neste dia de peregrinação, os bispos sul coreanos tiveram a oportunidade de conhecer um homem de 90 anos que fugiu da Coreia do Norte durante a Guerra da Coreia e agora mora em Seul. Apesar da avançada idade e de a viagem de ida e volta em transportes públicos demorar perto de cinco horas, é rara a semana em que não visite Gyodong, para ao menos poder olhar a sua terra natal.

No período da guerra, os missionários, trabalhadores religiosos estrangeiros e cristãos coreanos foram perseguidos, e todos os mosteiros e igrejas foram destruídos. os religiosos que não conseguiram fugir foram condenados à morte.

Hoje, na Coreia do Norte, segundo registos oficiais do país, há cerca de 4.000 católicos pertencentes à Associação Católica Coreana, que é controlada pelo regime comunista. Essa associação, que não reconhece o papel do Papa na nomeação de bispos, tem apenas uma igreja no país, em Changchun.

O bispo Simon Kim Jong-Gang, 60 anos, espera um dia poder comunicar com “a comunidade católica na Coreia do Norte e também receber notícias dela” e assegura que a Igreja Católica na Coreia do Sul vai continuar a tentar construir pontes apesar da hostilidade. “Sei que é difícil mudar facilmente essa desconfiança em relação à Coreia do Norte, pois é um sentimento que persiste há 80 anos. Mas a Igreja ensina-nos que não podemos construir novos relacionamentos baseados em ódio e desconfiança”, diz.

Reconhecendo que as gerações mais jovens na Coreia do Sul temem que “se o comércio entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul aumentar, a Coreia do Sul terá que ajudar o Norte economicamente” e por isso “alguns opõem-se a isso”, o prelado insiste que se os conflitos internos causados ​​pela divisão não forem resolvidos, “a estabilidade social, a integração política e o desenvolvimento económico serão sempre limitados”. “O ensinamento de Cristo é que vivamos como irmãos e irmãs. Quando trabalhamos juntos com coragem para criar um caminho rumo à paz, a vida dos nossos descendentes pode melhorar”, conclui. E acolher a Jornada Mundial da Juventude em Seul, em 2027, é um desafio, mas também uma oportunidade para trilhar esse caminho.

 

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