Angela Merkel

Na hora da despedida

| 4 Dez 21

Angela Merkel

Angela Merkel, quando jovem, com pescadores. Foto: Direitos reservados.

 

16 anos. No seu último discurso como chanceler, Angela Merkel apontou alguns dos problemas mais graves do nosso tempo, nomeadamente os perigos que a Democracia corre, e a necessidade de lhes responder com firmeza, a importância do diálogo internacional, a importância de ver o mundo com os olhos dos outros. Um testamento político muito digno.

No fim, sempre pudemos ver um pouco mais da pessoa por trás da estadista. A mulher que terminou o seu discurso de despedida falando na importância da alegria (o que me comoveu). A mulher que se comoveu ao ouvir as canções que escolheu para a despedida.

Também eu me comovi olhando para Angela Merkel a ouvir aquelas músicas. Se até nós temos recordações familiares muito queridas ligadas à canção da Nina Hagen “esqueceste-te do rolo a cores”, quantas histórias não estariam a passar pela cabeça de alguém que cresceu na RDA? E a letra da segunda canção que pediu, “para mim devem chover rosas vermelhas”, a que nunca liguei por pensar que seria uma xaropada romântica e afinal se revela o hino de uma mulher muito forte (e romântica, quem diria).

 

A última canção era um cântico de acção de graças do século XVIII, muito cantado tanto nas igrejas católicas como nas protestantes. Começa assim:

Deus grande, nós te louvamos, Senhor, exaltamos o teu poder A terra inclina-se diante de ti a admira as tuas obras Como eras no princípio, assim serás na eternidade. Em três simples canções juntou os lados oriental e ocidental da Alemanha, bem como os protestantes e os católicos. E teve a humildade de anunciar um poder bem maior do que o de uma chanceler alemã.

Tudo isto junto ao memorial em honra dos alemães que resistiram ao nazismo.

Em termos de simbolismo, estamos conversados. Jean-Claude Junker foi entrevistado num dos noticiários da noite para passar em revista estes 16 anos. Disse que uma das suas maiores qualidades era ouvir todos – dos maiores aos mais pequenos. E às acusações sobre o tanto que ela não fez, ele respondeu calmamente que isso era sinal de que a entrevistadora acreditava que uma pessoa sozinha tem todo esse poder. Uma boa questão para ficar a meditar ao fim de 16 anos de Merkel (como fiz ao fim de 8 anos de Obama): quanto podemos esperar de um político? Também lembraram o momento em que Angela Merkel disse a famosa frase “Nós conseguimos“. Referia-se ao esforço de acolher um milhão de refugiados, e tinha razão. Nessa altura, havia mais voluntários a querer ajudar que refugiados para serem ajudados. E mal chegou a “gripezinha”, os refugiados deixaram de ser um problema… Nós conseguimos, claro que conseguimos. É a frase que quero reter dela, juntamente com o final do seu discurso de hoje:

Que não nos falhe nunca a alegria do coração.

* * *

Para memória futura deixo aqui um vídeo com o discurso, outro com toda a cerimónia, e o discurso escrito (em alemão).

 

 

 

“Sehr geehrter Herr Bundespräsident,
sehr geehrte Frau Bundestagspräsidentin,
Exzellenzen,
sehr geehrte Damen und Herren,
liebe Mitbürgerinnen, liebe Mitbürger,

wenn ich heute hier vor Ihnen stehe, dann empfinde ich vor allem dieses: Dankbarkeit und Demut – Demut vor dem Amt, das ich so lange ausüben durfte; Dankbarkeit für das Vertrauen, das ich erfahren durfte. Vertrauen, dessen war ich mir immer bewusst, ist das wichtigste Kapital in der Politik. Es ist alles andere als selbstverständlich, und dafür danke ich von ganzem Herzen.

Mein Dank gilt auch Ihnen, Frau Bundesministerin, liebe Annegret, und der Bundeswehr für die Ausrichtung des Großen Zapfenstreichs – noch dazu an diesem in unserer Geschichte so bedeutsamen Ort des Bendlerblocks. Mein Dank gilt auch dem Stabsmusikkorps der Bundeswehr für die musikalische Begleitung – alles unter den so erschwerten Bedingungen der Pandemie.

Besonders möchte ich deshalb zu Beginn auch an die denken, die sich zeitgleich mit all ihrer Kraft der vierten Welle der Pandemie entgegenstemmen, die alles geben, um Leben zu retten und zu schützen: die Ärztinnen und Ärzte, die Pflegerinnen und Pfleger in den Krankenhäusern, die Impfteams, die helfenden Hände in der Bundeswehr und in den Hilfsorganisationen. Ihnen allen gebühren mein und unser aller besonderer Dank und höchste Anerkennung.

Heute am Tage habe ich mit den Regierungschefinnen und Regierungschefs der Länder noch in einer weiteren Pandemieberatung zusammengesessen. Jetzt, wenige Stunden später, darf ich mich in diesem feierlichen Rahmen nach 16 Jahren als Bundeskanzlerin von Ihnen verabschieden. Wenig zeigt so sehr wie diese Abfolge, in welch unglaublicher Zeit wir derzeit leben.

Die 16 Jahre als Bundeskanzlerin waren ereignisreiche und oft sehr herausfordernde Jahre. Sie haben mich politisch und menschlich gefordert, und zugleich haben sie mich immer auch erfüllt. Ganz besonders die vergangenen zwei Jahre der Pandemie haben wie in einem Brennglas gezeigt, von welch großer Bedeutung das Vertrauen in Politik, Wissenschaft und den gesellschaftlichen Diskurs ist, aber auch, wie fragil das sein kann.

Unsere Demokratie lebt von der Fähigkeit zur kritischen Auseinandersetzung und zur Selbstkorrektur. Sie lebt vom steten Ausgleich der Interessen und von dem Respekt voreinander. Sie lebt von Solidarität und Vertrauen, im Übrigen auch von dem Vertrauen in Fakten und davon, dass überall da, wo wissenschaftliche Erkenntnis geleugnet und Verschwörungstheorien und Hetze verbreitet werden, Widerspruch laut werden muss. Unsere Demokratie lebt auch davon, dass überall da, wo Hass und Gewalt als legitimes Mittel zur Durchsetzung eigener Interessen erachtet werden, unsere Toleranz als Demokratinnen und Demokraten ihre Grenze finden muss.

Die vielfältigen Herausforderungen im Innern spiegeln sich auch im außenpolitischen Handeln wider, und zwar nicht erst seit der Pandemie. Denn schon die Finanz- und Wirtschaftskrise 2008 und die vielen Zuflucht suchenden Menschen 2015 haben deutlich gemacht, wie sehr wir auf die Zusammenarbeit über nationale Grenzen hinweg angewiesen sind und wie unverzichtbar internationale Institutionen und multilaterale Instrumente sind, um die großen Herausforderungen unserer Zeit bewältigen zu können: den Klimawandel, die Digitalisierung, Flucht und Migration. Ich möchte dazu ermutigen, auch zukünftig die Welt immer auch mit den Augen des anderen zu sehen, also auch die manchmal unbequemen und gegensätzlichen Perspektiven des Gegenübers wahrzunehmen, sich für den Ausgleich der Interessen einzusetzen.

Meine Damen und Herren, meine politische Arbeit wäre ohne die vielfältige Unterstützung politischer Weggefährten, national wie international, nicht möglich gewesen. Ihnen allen gilt mein großer Dank. Ich danke den Kolleginnen und Kollegen in der Bundesregierung, im Deutschen Bundestag und im Deutschen Bundesrat für unsere Zusammenarbeit. Ich danke auch für eine politische Streitkultur, um die uns viele andere Nationen beneiden. Einen ganz besonderen, herausgehobenen Dank schulde ich meinen engsten Mitarbeiterinnen und Mitarbeitern. Danke für alle Hilfe und alle Unterstützung, und das gilt auch für meine Familie.

Nun wird es an der nachfolgenden Regierung liegen, Antworten auf die vor uns liegenden Herausforderungen zu finden und unsere Zukunft zu gestalten. Hierfür wünsche ich Ihnen, lieber Olaf Scholz, und der von Ihnen geführten Bundesregierung alles,

alles Gute

, eine glückliche Hand und viel Erfolg. Ich bin überzeugt, dass wir die Zukunft auch weiterhin dann gut gestalten können, wenn wir uns nicht mit Missmut, mit Missgunst, mit Pessimismus, sondern, wie ich vor drei Jahren in einem anderen Rahmen gesagt habe, mit Fröhlichkeit im Herzen an die Arbeit machen. So jedenfalls habe ich es immer für mich gehalten, in meinem Leben in der DDR und erst recht und umso mehr unter den Bedingungen der Freiheit. Es ist diese Fröhlichkeit im Herzen, die ich uns allen und im übertragenen Sinne unserem Land auch für die Zukunft wünsche.

Ich danke Ihnen von Herzen.”

 

Helena Araújo vive em Berlim e é autora do blogue Dois Dedos de Conversa, onde este texto foi inicialmente publicado.

 

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