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Charles Mercier: “Por detrás deste enorme encontro há a ideia de experimentar a diversidade do catolicismo”. Foto © António Marujo/7MARGENS.

Charles Mercier faz balanço um ano depois

Na JMJ de Lisboa, promoção de Portugal misturou-se com mensagem religiosa

| 03/08/2024

Charles Mercier: “Por detrás deste enorme encontro há a ideia de experimentar a diversidade do catolicismo”. Foto © António Marujo/7MARGENS.

Charles Mercier: as tensões entre a organização local e o Vaticano são constantes na preparação das JMJ. Foto © António Marujo/7MARGENS

 

Nas Jornadas Mundiais da Juventude (JMJ) há sempre tensões entre a organização local e o Vaticano: “À medida que a JMJ se aproxima, as tensões aumentam”, por causa das questões práticas: “Os organizadores têm a faca sobre o pescoço e o Vaticano está num tempo muito mais longo”, diz o sociólogo francês Charles Mercier, autor de um livro sobre a história das JMJ e que deu uma entrevista ao 7MARGENS, onde faz o balanço do que foi Lisboa 2023 (ler aqui a primeira parte da entrevista).

Mercier observa ainda que a JMJ de Lisboa teve “uma mensagem turística, de promoção de Portugal, misturada com uma mensagem religiosa”.

 

7M – Sentiu-se na preparação da JMJ de Lisboa, como em outras cidades, alguma tensão entre a organização local e o Vaticano. Qual é o problema neste âmbito? São sobretudo questões práticas de logística e de informação?

Isso é uma constante em todos os países, sobretudo nos últimos meses dos preparativos: à medida que a JMJ se aproxima, as tensões aumentam. São questões muito práticas: os organizadores têm a faca sobre o pescoço e o Vaticano está num tempo muito mais longo e não vê que os organizadores locais precisam de respostas às suas perguntas porque têm de [resolver problemas].

Há também o aspecto de que Roma [o Vaticano] continua a ser um complexo do Império Romano, no sentido em que considera que está acima e que quando Roma diz, o país organizador deve executar, mesmo que isso custe caro. Na verdade, é Roma quem decide e é o país organizador que financia. Isso também é uma fonte de tensão porque os organizadores locais têm restrições orçamentais, não podem agradar especialmente a Roma.

Mas felizmente também existe Roma: o que vi com João Paulo II, foi que houve tensões: os organizadores locais disseram não a propostas [de grupos] que se voltaram para Roma, que lhes disse que sim. Ou seja, há atalhos organizacionais que também estão ligados a um modo de funcionamento romano. Não havia um guião ou organigrama de partilha clara de responsabilidades entre o que faz Roma e o que fazem os organizadores locais antes da JMJ de Colónia [em 2005].

 

7M – A primeira sem João Paulo II…

Até aí, havia uma espécie de partilha implícita de tarefas, mas sem qualquer documento que formalizasse claramente quem faz o quê, quais são os domínios de competência dos outros.

Todas essas tensões logísticas, financeiras e organizacionais encontram-se em qualquer tipo de evento – como também nos Jogos Olímpicos, entre o comité local e o Internacional.

Todos os grandes eventos, como a JMJ ou os Jogos Olímpicos, estão sempre sujeitos a tensões entre o país organizador e os responsáveis do evento. Foto © Gaspar Nóbrega/COB

Todos os grandes eventos, como a JMJ ou os Jogos Olímpicos, estão sempre sujeitos a tensões entre o país organizador e os responsáveis do evento. Foto © Gaspar Nóbrega/COB

 

7M – Aqui sentiu-se que o Vaticano quis guardar informações como a lista dos bispos que iriam fazer as catequeses, e também, nos últimos meses de preparação, controvérsias sobre questões orçamentais: o altar era muito caro, muita gente protestou porque o Estado dá dinheiro, apesar de ficar uma estrutura para a cidade, que a câmara não assumiu como opção sua.

Roma tem a pretensão de conhecer os erros cometidos nas edições anteriores. Mas um responsável da preparação da JMJ de Roma [em 2000] disse que sentia que se está sempre a começar do zero. Quando se diz aos organizadores que um processo de distribuição de refeições foi catastrófico…

 

7M – Em Lisboa foi diferente…

… e não se dão conta disso, Roma sente que por vezes os organizadores locais não dão ouvidos aos seus conselhos e depois surgem mal-entendidos. Há também conflitos ligados ao modo de definir a iniciativa. Por exemplo, em Paris [em 1997], o cardeal Lustiger queria uma vigília com o baptismo e não uma vigília festiva, que era a tradição da JMJ e o cardeal [argentino Eduardo] Pironio adorava. Houve um conflito entre o cardeal Pironio e o cardeal Lustiger que, tendo em conta a sua proximidade com João Paulo II, ganhou. Mas também houve muitos outros conflitos, por exemplo sobre as alvas desenhadas por Jean-Charles de Castelbajac, um grande estilista, que tinham um arco-íris, e a Cúria dizia que não correspondia às normas litúrgicas do Missal Romano. Lustiger, que gostava muito de Castelbajac, curto-circuitou o responsável da liturgia pontifical, falando diretamente a João Paulo II, que aprovou.

Enfim, há muitos conflitos na forma de fazer, mas diria que os organizadores locais são mais ou menos dóceis, em função do país. Diria que em França, por exemplo, há uma certa autonomia em relação a Roma e os franceses conseguiram impor a sua visão do acontecimento contra o Conselho Pontifício para os Leigos. Nos Estados Unidos, houve muito mais docilidade dos americanos para fazerem o que o Vaticano lhes pedia. E em França houve pouca polémica sobre a JMJ.

 

7M – Sim, recordo-me que durante a JMJ de Paris e mesmo depois, o balanço era que tudo tinha corrido bem e os jovens tinham estado muito bem.

Sim, sim, é um acontecimento que suscita a simpatia da opinião pública. São jovens e isso activa mensagens de hospitalidade, de fraternidade, que são valores consensuais. Os jovens peregrinos são pacíficos, são multidões pacíficas. E isso dá à opinião pública uma visão positiva destes acontecimentos.

jovens reunidos em fatima para preparar jmj lisboa 2023 foto retirada do site da jmj

Jovens portugueses na JMJ de Lisboa: “O que me impressiona em Portugal é o orgulho nacional pela organização da JMJ e uma imbricação de questões políticas e religiosas.” Foto © JMJ Lisboa 2023

 

7M – Trata o tema da laicidade num texto que escreveu comparando França, Filipinas e Portugal…  Em França a laicidade não foi um problema?

Foi muito marginal. No ano anterior, o Papa tinha ido a França para os 1500 anos do baptismo de Clóvis e aí houve algumas polémicas.

 

7M – Porque era um acontecimento que suscita também questões nacionalistas.

Sim. Mas na JMJ, em França, os organizadores tiveram muito cuidado em comunicar que era uma iniciativa que iria construir a coesão social e humanizar a globalização e que seria um acontecimento de interesse real. O Estado não financiou directamente a JMJ mas ajudou: do ponto de vista logístico, organizacional, emprestou equipamentos, geriu fluxos e, com isso, prestou um serviço à JMJ talvez melhor do que se o tivesse financiado diretamente.

O que me impressiona em Portugal é o orgulho nacional pela organização da JMJ e uma imbricação de questões políticas e religiosas. Por exemplo, o vídeo de promoção da JMJ era, de facto, um vídeo promocional de visita a Lisboa, mesmo se Portugal se quisesse dar a conhecer e melhorar a sua imagem ou gerar turismo. No Porto, no final da missa [da festa das dioceses], o bispo disse que era preciso partir em missão, mas os dois elementos da mensagem a comunicar eram que Portugal é um país acolhedor e que Deus amou o mundo inteiro. Mas na verdade, houve uma mensagem turística, de promoção de Portugal, misturada com uma mensagem religiosa.

Pergunto-me se esse foi o preço a pagar pelo financiamento estatal. As autoridades públicas esperam um retorno do investimento, o que é também um constrangimento para a Igreja Católica.

(O 7MARGENS agradece a colaboração de Carla Crespo)

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