Poeta da Amazónia morreu aos 95 anos

Na morte de Thiago de Mello: um pouco mais órfã

| 16 Jan 2022

A notícia é de sexta-feira, chegou no sábado (15): morreu Thiago de Mello

Senti-me um pouco mais orfã.

Fui transportada a uma tarde de dezembro de 1967, quando, ao voltar das aulas, encontrei no meu quarto o livro Faz Escuro Mas Eu Canto. A Canção do Amor Armado. O meu pai vira-o na Livraria Moraes e achou que ia agradar à filha de pensamento um pouco revolucionário.

Abri e logo a primeira frase:

Quero dizer teu nome, Liberdade,
quero aprender teu nome novamente
para que sejas sempre em meu amor
e te confundas ao meu próprio nome

fez surgir um amor intenso.

Fui a correr comprar outro com medo que se perdesse e para poder emprestar. Mais tarde, quando surgiram fotocópias (e ainda não era proibido), copiei-o na íntegra também para dar.

Ao longo de tantos anos e de tantas situações, encontrei sempre um poema, uma frase, que dava sentido a tudo o que ia vivendo.

Não sei falar sobre Thiago de Mello mas ele fala de si:

Da eternidade venho. Dela faço
parte, desde o começo da vida
dos que me fizeram ser
até chegar ao que sou.
Transporto com a minha vida
a eternidade no tempo.
Menino deslumbrado com as águas,
os ventos, as palmeiras, as estrelas,
prolonguei sem saber a eternidade
que neste instante navega
no meu sangue fatigado.

No dia dos seus 39 anos:

Thiago de Mello ainda jovem adulto. Foto © Direitos Reservados

Pois aqui estou
Cara a cara
Com a vida
Cidadão brasileiro,
natural do Amazonas,
39 anos, casado,
eleitor e reservista,
pai de dois filhos e poeta,

[…]

trabalho o tempo inteiro e não me canso
porque trabalho cantando
na construção da manhã:
manhã geral de amor que vai chegar.

A sua vida sempre ao serviço de uma vida para todos:

Pois aqui está a minha vida.
Pronta para ser usada.
Vida que não guarda
nem se esquiva, assustada.
Vida sempre a serviço
da vida.
Para servir ao que vale
a pena e o preço do amor.

Ainda que o gesto me doa,
não encolho a mão: avanço
levando um ramo de sol.

Não, não tenho caminho novo.
O que tenho de novo
é o jeito de caminhar.
Aprendi
(o caminho me ensinou)
a caminhar cantando
como convém
a mim
e aos vão comigo.
Pois já não vou mais sozinho.

Da sua relação com Deus:

Cresci menino com Deus.
Minha mãe acho que foi
quem Deus pôs dentro de mim.
Dentro de mim, mas não meu.
Não foi um amigo de infância.
Não me deixava à vontade
(nem nos banhos escondidos
na fundura do meu rio).
Não me deixava ser eu,
ser livre: sua presença
– uma lâmina suspensa
constante na minha vida –
me dava um grande temor.
Não me envergonho em dizer
que nunca lhe tive amor.

Por isso (suponho) foi
que um dia acordei sem Deus
(um dia quando os meus olhos
já conheciam o assombro).

Deus se perdeu.

Contudo, dele restou
no chão triste da minha alma,
entre doce e dolorida,
mágoa que sabe a saudade.

 

Naqueles anos escuros a Esperança era forte e com que entusiasmo líamos:

Madrugada camponesa,
faz escuro ainda no chão,
mas é preciso plantar.
A noite já foi mais noite
a manhã já vai chegar.

Não vale mais a canção
feita de medo e arremedo
para enganar solidão
Agora vale a verdade
cantada simples e sempre
agora vale a alegria
que se constrói dia a dia
feita de canto e de pão.

[…]

Camponês, plantas o grão
no escuro – e nasce um clarão.
Quero chamar-te de irmão.

De noite, comendo o pão,
sinto o gosto dessa aurora
que te desponta da mão.

[…]

E enquanto não chega o dia
em que o chão se abra em reinado
de trabalho e de alegria,
cantando juntos, ergamos
a arma do amor em ação.

E sempre o apelo a uma fraternidade universal

Contigo, companheiro que chegaste,
desconhecido irmão de minha vida,
reparto esta esmeralda que retive
em meu peito no instante fugitivo
mas infinito em que se acaba a infância,
porque a esmeralda não se acaba nunca.
Reparto, companheiro, porque chegas
a este caminho longo e luminoso
mas que também se faz áspero e duro,
onde as nossas origens se abraçaram
dissolvendo-se em paz as diferenças,
engendradas na vida pela força
feroz com que desune o mundo os homens
que feitos foram para cantar juntos
porque só juntos saberão chegar
para a festa de amor que se prepara.

[…].

É chegar e seguir, os dois cantando,
os dois e a multidão num só caminho,
em direção ao sol que nos ensina
a ser mais cristalinos, parecidos
ao menino que fomos e que somos
de novo dentro do homem, desde que o homem
seja capaz de repartir seu canto
e um pedaço de sol bem luminoso
a esse desconhecido ser que chega
sem nada: traz apenas a esperança
de ver o amor de perto

[…]

O tempo é de cuidados, companheiro.
É tempo sobretudo de vigília.
O inimigo está solto e se disfarça,
mas como usa botinas fica fácil
distinguir-lhe o tacão grosso e lustroso
que pisa as forças claras da verdade
e esmaga os verdes que dão vida ao chão.
O tempo é de mentira. Não convém
deixar livre o menino da esmeralda.

[…]

É uma espera que dói, mas o que vale
é ter o coração por cidadela,
acender uma tocha em cada metro
de terra conquistado e trabalhar
melhor, para que o chão floresça mais
e o trigo erga bem alto o seu pendão
para a festa de amor, larga e geral,
onde a fome afinal não vai dançar,
porque não comerão somente eleitos,
porque são todos os que comerão.
É por isso que estamos todos juntos:
É cantar, companheiro, e repartir
o que é preciso ser do amor geral.
Ninguém será sozinho nunca mais,
nem na solidão, nem no poder.

[…]

Como sabia bem falar de amor:

De tudo quanto me trouxeste à vida
– aonde chegaste como chega um pássaro
grande e cantando a um campo triste
– eu guardo
as brisas que passeavam pela noite
subitamente transformada em dia.

Guardo portanto a aurora. Guardo a infância
redescoberta em mim por tuas mãos
sepulta que ela estava sob sombras.
Guardo o meu nome escrito na ternura
de tua voz e guardo a tua voz
no recado eterno que me deste. […]

Antes que venham ventos e te levem
do peito o amor — este tão belo amor,
que deu grandeza e graça à tua vida —,
faze dele, agora, enquanto é tempo,
uma cidade eterna — e nela habita.
Uma cidade, sim. Edificada
nas nuvens, não — no chão por onde vais,
e alicerçada, fundo, nos teus dias,
de jeito assim que dentro dela caiba
o mundo inteiro: as árvores, as crianças,
o mar e o sol, a noite e os passarinhos,
e sobretudo caibas tu, inteiro
[…]

Como nasce um vôo de pássaro,
súbito e simples
(ninguém – talvez nem o próprio pássaro

– sabe jamais em que instante vai se erguer),
nascem também as pontes do coração
entre as criaturas humanas.
Nem sabem que vão nascer. […]

Não sofrem de tempo as coisas
nascidas do coração. […]

Por mais que muitas desabem
(acaso por desamadas),
embora tantas se calem
(talvez porque recusadas)
mesmo que muitas se percam
depois de perdido o pouso,
nenhuma ponte de amor
se estende jamais em vão.

Pois algo sempre perdura
de tudo a que ela deu rumo:
seja um resto de recado,
um fragmento de canção,
leve lembrança de alvura,
ou seja apenas a sombra
de uma ternura. Pois algo
das pontes – feitas de infância
e de amor – sempre perdura.

Como vibrávamos com os Estatutos do Homem:

Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira. 
[…]

Como ninguém, conservava-se criança e era sensível à infância:

0 mundo está começando
agora, na tua mão.
Tudo pode acontecer!

Cuidado!, de tua palma,
aberta sob as estrelas,
o mundo está começando
a se erguer: como se fosse
um pássaro que se acorda,

que acabou de se acordar,
e vai sair para um vôo

– porque tem fome de céu.
(Tomara que seja azul!)
[…]

Na roda da vida
lá vai o menino
trazendo contente
um canto no peito
na fronte uma estrela.
Mal chega e descobre
que o mundo é feroz
e o tempo é de sombras.
Os homens caminham
calados, sozinhos,
com medo de amar.
De pena, o menino
começa a cantar.
(Cantigas afastam
as coisas escuras).
Portanto ele sabe
que os homens, embora
se façam de fortes,
se façam de grandes,
no fundo carecem
de aurora e de infância.
Na roda do mundo,
ao lado dos homens,
lá vai o menino
rodando e cantando
seu canto de amor.
Um canto que faça
o mundo mais manso,
cantigas que tornem
a vida mais limpa,
um canto que faça
os homens mais crianças.

No dia 25 de abril como se fizeram presentes poemas tão lidos e relidos:

E de repente a manhã

– manhã é céu derramado,
é claridão, claridão –

foi transformando a cidade
numa praça imensa praça,
e dentro da praça o povo
o povo inteiro cantando,

a manhã vai derramando
uma alegria de viver,
vai derramando um perdão,
vai derramando uma vontade de cantar.
Pois dentro desta manhã
vou caminhando. E me vou
tão feliz como a criança
que me leva pela mão.
Não tenho nem faço rumo:
vou no rumo da manhã,
levado pelo menino
(ele conhece caminhos
e mundos, melhor do que eu).
(…)
A beleza mensageira
desta radiosa manhã
não se resguardou no céu
nem ficou apenas no espaço,
feita de sol e de vento,
sobrepairando a cidade
Não: a manhã se deu ao povo.

Escolho como resumo da sua longa vida:

Yo canto porque estamos todos juntos
De manos dadas vamos por la ruta
Que nos lleva al encuentro de la aurora

Thiago de Mello foi seguramente um “Homem segundo o Coração de Deus”.

Agradeço-lhe ter sido farol e fogueira na minha vida

Excertos dos poemas:

Da eternidade
Saudade de Deus
A Vida Verdadeira
Madrugada Camponesa
Cantiga da claridão
Canto de companheiro em tempo de cuidados
As dádivas guardadas
Sugestão
As pontes são como os pássaros
Estatutos do Homem
Cantiga quase de roda
Antemanhã
Notícia da Manhã
Yo canto la raíz

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