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Rolando Alvarez. Nicarágua

Ano com forte impacto no futuro do país

Na Nicarágua a população tem sofrido com os ataques à Igreja

| 05/12/2023

Nicarágua.

Imagem do bispo Rolando Alvarez retirada do vídeo divulgado pelas autoridades de Manágua.

 

A situação dos direitos humanos e, nomeadamente da liberdade religiosa, na Nicarágua, agravou-se substancialmente ao longo de 2023, relativamente ao período anterior, nomeadamente com a ordem de confiscação e encerramento de quatro universidades católicas, que cortaram as perspetivas de largos milhares de jovens.

Quem tira esta conclusão acerca da ditadura imposta pelo presidente do país, Daniel Ortega e pela vice-presidente e sua esposa, Rosario Murillo, é a advogada e ativista dos direitos humanos Martha Molina, que regista, documenta e estuda, a partir do seu exílio, e desde há vários anos, os atos de perseguição cometidos pelo governo contra a Igreja Católica.

Em declarações à revista espanhola Vida Nueva, Martha Molina, considerou mesmo que o ano prestes a terminar “foi dos mais nefastos, porque se prejudicou não apenas a Igreja, mas também a milhões de pessoas (…) com impacto negativo na sociedade futura”.

A ativista está a referir-se ao facto de terem também sido encerrados serviços de apoio social e caritativo que beneficiavam comunidades pobres e setores vulneráveis, em diferentes regiões do país.t

O caso do bispo Rolando Alvarez, que se encontra preso desde 2022, tem motivado múltiplos apelos à sua libertação e manifestações de preocupação pela sua saúde, dado encontrar-se num estabelecimento que é conhecido pela violência do regime de torturas que pratica.

Para calar a pressão, o governo nicaraguense apresentou, na última semana, imagens do bispo e o ministro do interior pretendeu, num comunicado, fazer passar a ideia de que ele goza de condições privilegiadas, relativamente a outros detidos.

“As condições de confinamento [de Álvarez] são preferenciais, (…) o regime de consultas médicas é rigorosamente cumprido, bem como as visitas familiares, o envio e recebimento de encomendas, ao contrário do que campanhas caluniosas tentam fazer acreditar”, diz o ministro.

De facto, um vídeo divulgado pelas autoridades e difundido por vários meios de comunicação social (ver aqui, no site do Religión Digital) mostra o bispo num espaço com uma mesa com comida e sofás e cadeiras que parecem confortáveis, um televisor e até vasos de plantas. As duas mesas encontram-se cheias, dando a entender que dificilmente poderiam ser sítio de trabalho para o bispo (que curiosamente deixou de ser designado por “mons.” E passou a ter direito apenas ao seu nome).

Contudo, conhecedores das condições daquele estabelecimento prisional e, nomeadamente, a advogada Martha Molina, reconhecendo que as imagens mostram, pelo menos, o bispo com vida, admitem tratar-se de encenação e montagem, sem nada que ver com a realidade.

É um bispo em situação de fragilidade e sem saúde, “típico das pessoas que se encontram nos cárceres da Nicarágua, onde se praticam mais de 40 mecanismos de tortura”, considera Molina, no artigo da Vida Nueva. “Se observarmos com atenção, as fotografias utilizam o mesmo espaço para que pareça ser, ao mesmo tempo, clínica, refeitório e sala de estar”, remata.

Martha Molina comenta também as críticas que alguns setores fazem aos bispos nicaraguenses que continuam no país (além de Rolando Alvarez, o bispo auxiliar de Manágua Sílvio Baez encontra-se desterrado em Miami). Do seu ponto de vista, o “silêncio sepulcral” que leva já vários meses, exprime medo, mas não cumplicidade. “É um silêncio de medo e de temor”, não se podendo exigir que todos tenham a coragem que tiveram os seus colegas do episcopado. Falar poderia significar de imediato a prisão, o sequestro ou mesmo o assassinato.

 

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