D. Tirso Blanco, do Lwena (Angola)

Na partida de um bispo sinodal para Deus

| 2 Mar 2022

O bispo Tirso Blanco numa escola. Foto: Direitos reservados.

O bispo Tirso Blanco numa escola. Foto: Direitos reservados.

 

Soube esta manhã pelo 7MARGENS que entrou na plenitude de Deus um homem santo, um santo bispo, bispo exemplar desta caminhada sinodal que estamos a viver, D. Tirso de Jesus Blanco, que tive o privilégio de conhecer.

Ou melhor, fui “marcada” e inspirada por ele, quando estive em Lwena (Centro Leste de Angola) em 2016 a avaliar um projeto do Graal de formação de animadores para o desenvolvimento, ligado à diocese. Num voo que partiu do Lobito – onde estivemos em formação com o emergente grupo do Graal – chegámos a Lwena, uma equipa constituída por Maria Carlos Ramos, Sónia Monteiro e eu própria. Ao escrever sobre D. Tirso sinto necessidade de afirmar estes nomes, porque todas fomos profundamente interpeladas por Lwena e o seu bispo.

Se em Luanda a língua-mãe é o umbundo, no Lwena fala-se tchokwe, com todas as implicações que duas línguas diferentes, para além do português, têm na cultura local. Sem contar essa surpresa, viajámos com o bispo D. Tirso, um caloroso padre salesiano, latino-americano da Argentina, curtido em 30 anos de África. Uma tempestade bem subtropical impediu-nos de aterrar no Lwena e fez desviar o avião para o Saurino. Ali, “empurradas” para fora do avião, aguardámos com infinita paciência e uma não menor dose de sono, que este pudesse novamente levantar voo. D. Tirso foi-nos falando com entusiasmo e convicção da sua atividade. Tinha estado em Lisboa a recolher fundos para os variados projetos da sua diocese. Na nossa parca bagagem, sem saber que iríamos viajar com ele, levávamos um envelope com dólares que, a pedido dos irmãos salesianos, trazíamos de Lisboa.

O Lwena, no planalto leste de Angola, tem um clima ameno. Entendemos então porque os portugueses lhe chamavam Luso no tempo colonial: era um local de veraneio, como umas “termas” para os acalorados da costa oeste. Um amigo de D. Tirso (Valter, argentino à espera de se tornar padre) acolheu-nos no aeroporto. Ficámos alojadas na residência episcopal, uma ampla casa construída à volta de um pátio interior, sem quaisquer luxos – tomávamos banho à força de bacias de água, as camas tinham levíssimas redes mosquiteiras por onde passavam outros insectos.

Fazendo jus à tradição africana, aquela casa era um lugar de passagem de missionários (padres, leigos e leigas) que iam e vinham das partes mais recônditas de uma diocese que tem nada mais nada menos que duas vezes e meia o tamanho de Portugal! As animadoras do projeto de formação (financiado pelo Instituto Camões), que também lá residiam, Laura Marques e Inês Prata, encontravam-se em plena atividade.

Encontrávamo-nos às refeições cozinhadas “com o que havia”, afirmava o bispo com bonomia. D. Tirso comia rapidamente e regressava ao seu escritório para as tarefas burocráticas da diocese. Mas o que eu amo, afirmava, é “estar no meio do povo”. Na residência do bispo encontrei de passagem o saudoso José Victor Adragão, recentemente falecido, reconhecido linguista e professor da Escola Superior de Educação de Setúbal. Lá conhecemos também o bispo D. Gonzalo López Maranon – um idoso carmelita originário da aristocracia espanhola – que estava de passagem para a paróquia mais afastada do Lwena. Queria acabar os seus dias como missionário numa paróquia. Era bispo emérito (1984-2010) de São Miguel de Sucumbidos, Equador, com mais de 80 anos e que nos afirmou com convicção que queria acabar os seus dias como missionário. A seu pedido, o bispo havia-o “colocado” numa das mais recônditas paróquias da diocese, aguardando Abril para partir. Ao longo dos dias foi-nos contando histórias do que era a Teologia da Libertação vivida no Equador.

Grande conversador, muitas histórias nos contou sobre a sua longa vida de missionário. Morreu de malária pouco tempo depois de chegar à sua paróquia. Era também uma figura profética…

 

O bispo a confessar numa aldeia: “Ouvíamos: Eh, bispo!’ e acenavam, sendo correspondidos afectuosamente pelo bispo ‘todo-o-terreno’, como ele era conhecido. Foto: Direitos reservados.

O bispo a confessar numa aldeia: “Ouvíamos: Eh, bispo!’ e acenavam, sendo correspondidos afectuosamente pelo bispo ‘todo-o-terreno’, como ele era conhecido. Foto: Direitos reservados.

 

No dia seguinte, Valter levou-nos à aldeia de Sacassange, com desordenadas cubatas onde coexistiam, entreajudando-se, uma capela católica e seu “catequista” e um templo baptista. À sombra de uma árvore cabeceava um homem a ler a sua Bíblia em tchokwe (de certeza um baptista pois, infelizmente, ainda não vemos muitos católicos a carregar as suas Bíblias). Era um “catequista”, com um estatuto reconhecido na comunidade.  As mulheres e meninas mais velhas afadigavam-se em torno do pilão e de uma incipiente fogueirinha onde se iria cozinhar o frugal almoço. Pela primeira vez vi uma mulher no pilão a “picar” folhas verdes de abóbora que traziam ferro e colorido à refeição. Crianças correndo grudavam-se a nós, intuindo que, naquele grupo, estava alguém com experiência com crianças… e eram lindas!

Valter levou-nos depois a visitar o recém-criado Seminário Maior de Lwena. Um edifício recentemente construído com os fundos angariados por D. Tirso. Ao constatar a parca biblioteca, garantimos ao padre responsável que lhe íamos enviar livros: uma grande parte da biblioteca sobre assuntos africanos de Maria de Lurdes Pintasilgo está agora no Seminário Maior de Lwena. O Seminário Menor era uma casa anexa à residência de D. Tirso onde muitos rapazes a partir dos 12-14-16 anos recebiam uma formação geral (escolaridade básica), iniciação catequética e teológica e faziam trabalho voluntário na comunidade, incluindo cultivar uma pequena horta ligada à residência episcopal.

Num domingo de tarde o bispo levou-nos de visita a Moxico Velho num jipe de tração às quatro rodas, conduzido por ele próprio por veredas de terra vermelha, poças de chuva, raízes e troncos, água abundante, qual riachos cor de terra vermelha. Segurávamo-nos onde podíamos, lembrando que foi por estas paisagens que a guerra civil havia sido mais dura. A certa altura o jipe ficou atolado. O bispo arregaça as mangas, saca de uns cabos que levava no jipe e agarra-os a uma ou duas árvores. Os dois muito jovens seminaristas que nos acompanhavam saltam também do veículo, puxam as correntes presas à parte fronteira do jipe. Nós empurrávamos pela parte de trás. Tudo feito com enorme rapidez e à vontade, tal é o hábito de passar por estes incidentes quando se visitam as áreas mais dispersas da diocese.  Pelas bermas cruzávamos pessoas: mulheres e meninas acarretando água, homens e rapazinhos cavando a terra. Ouvíamos: “Eh, bispo!” e acenavam, sendo correspondidos afectuosamente pelo bispo “todo-o-terreno”. Assim ele era conhecido.

Esperava-nos um pequeno santuário-capela do tempo colonial recentemente restaurado e assistido por um muito idoso monge beneditino natural de Anha-Chafé (Viana do Castelo) que falava com um sotaque bem… minhoto. Estava ali desde a Guerra Colonial (tinha sido capelão militar), tendo-se tornado desertor e radicando-se em Moxico-Velho. Três irmãs mexicanas trabalhavam com as mulheres da aldeia enquanto decoravam a recentemente reconstruída capela com grinaldas azuis e brancas e balões da mesma cor. Um susto! O bispo meneava a cabeça: “Que vou eu fazer destas irmãs que ainda não perceberam África?… Inculturam-na com efeitos visuais mexicanos!” Dizia isto enquanto nos contava os planos de reconverter aqueles espaços num local de peregrinação mariana.

 

“O que eu amo é estar no meio do povo”, dizia o bispo Tirso Blanco. Foto: Direitos reservados.

“O que eu amo é estar no meio do povo”, dizia o bispo Tirso Blanco. Foto: Direitos reservados.

 

Os dias seguintes foram dedicados a fazer a avaliação do projeto que forma líderes locais usando a metodologia do Training for Transformation (TfT) desenvolvida pelo Graal. Uma das formadoras (Inês Prata) é especialista credenciada em Kleinmond na África do Sul. Para o processo de avaliação fiz entrevistas com todos/as intervenientes no projeto (incluindo D. Tirso, claro!): formadoras e formandos (estes predominantemente do género masculino…); observação de sessões de formação; consulta de documentação e planos de trabalho enquanto se iam desenhando os pontos fortes do projeto mas também as suas limitações.

Cerca de dez dias depois despedíamo-nos da casa episcopal de apenas um piso que se desdobra à volta do pátio interior, à sombra de acácias que começavam a florir. Despedíamo-nos também dos seus variados habitantes – permanentes ou de passagem –, de um bispo que se levanta às 4 da manhã para nos vir dizer adeus. A minha amiga e companheira no Graal, Maria Carlos Ramos, afirmando que logo que possa voltará para Lwena para organizar a biblioteca e os arquivos da diocese, enquanto – porque é teóloga – gostaria de dar aulas no seminário. Os planos ficaram interrompidos porque foi catapultada para a equipa da presidência Internacional do Graal. Já no avião ela interpela-me com humor: “Estás convertida aos bispos!”. “A este, sim, sem qualquer dúvida!”, respondo sem hesitar.

Já depois desta inesquecível visita, convidei para almoçar D. Tirso num simpático restaurante em Campo de Ourique (Lisboa, onde fica a comunidade salesiana que o alojava quando vinha a Portugal). Mais uma boa conversa ao sabor de “petiscos” de que ele não usufruía no Lwena. Num pequeno envelope entreguei-lhe uma quantia em dólares que tinha guardada para uma próxima viagem em atividades do Graal. Muito pouco para as atividades daquela grande diocese: mas era “o óbolo da viúva pobre”, como na parábola do Evangelho de Marcos.

Lwena e D. Tirso estão no meu coração. Que ele esteja na plenitude resplandecente de Deus. Eu sei que ele velará, na dimensão em que se encontra, pela sua amada Lwena.

 

Teresa Vasconcelos é professora do Ensino Superior e participante no Movimento do Graal. Contacto: t.m.vasconcelos49@gmail.com

 

Sinodalidade como interpelação às Igrejas locais e à colegialidade episcopal

Intervenção de Borges de Pinho na CEP

Sinodalidade como interpelação às Igrejas locais e à colegialidade episcopal novidade

Há quem continue a pensar que sinodalidade é mais uma “palavra de moda”, que perderá a sua relevância com o tempo. Esquece-se, porventura, que já há décadas falamos repetidamente de comunhão, corresponsabilidade e participação. Sobretudo, ignoram-se os princípios fundacionais e fundantes da Igreja e os critérios que daí decorrem para o ser cristão e a vida eclesial.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

 

De 1 a 31 de Julho

Helpo promove oficina de voluntariado internacional

  Encerram nesta sexta-feira, 24 de Junho, as inscrições para a Oficina de Voluntariado Internacional da Helpo, que decorre entre 1 e 3 de Julho. A iniciativa é aberta a quem se pretenda candidatar ao Programa de Voluntariado da Organização Não Governamental para...

António Vaz Pinto (1942-2022): o padre dinamizador

Jesuíta morreu aos 80 anos

António Vaz Pinto (1942-2022): o padre dinamizador novidade

Por onde passou lançava projectos, dinamizava equipas, deixava-as a seguir para partir para outras aventuras, sempre com a mesma atitude. Poucos dias antes de completar 80 anos, no passado dia 2 de Junho, dizia na que seria a última entrevista que, se morresse daí a dias, morreria “de papo cheio”. Assim foi: o padre jesuíta António Vaz Pinto, nascido em 1942 em Arouca, 11º de 12 irmãos, morreu nesta sexta-feira, 1 de Julho, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, onde estava internado desde o dia 8, na sequência de um tumor pulmonar que foi diagnosticado nessa altura.

Abusos sexuais: “Senti que não acreditavam em mim”

Testemunho de uma mulher vítima

Abusos sexuais: “Senti que não acreditavam em mim” novidade

Na conferência de imprensa da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais contra as Crianças na Igreja Católica Portuguesa, que decorreu quinta-feira, 30 de junho, em Lisboa, foram lidos três testemunhos de vítimas de abusos, cujo anonimato foi mantido. Num dos casos, uma mulher de 50 anos fala do trauma que os abusos sofridos lhe deixaram e de como decidiu contar a sua história a um bispo, sentindo ainda assim que a sua versão não era plenamente aceite como verdadeira.

Doação de ara romana reforça espólio do Museu D. Diogo de Sousa

Ocaere, divindade autóctone

Doação de ara romana reforça espólio do Museu D. Diogo de Sousa novidade

A doação de uma ara votiva romana guardada ao longo de várias décadas pela família Braga da Cruz, de Braga, enriquece desde esta sexta-feira, dia 1, o espólio do Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa (MADDS), estando já exposta para fruição do público. A peça, que passou a integrar a coleção permanente daquele Museu, foi encontrada num quintal particular no município de Terras de Bouro, pelo Dr. Manuel António Braga da Cruz (1897-1982), que viria, depois, a conseguir que o proprietário lha cedesse.

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This