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Arte, Enrique Mirones, Cruz, Páscoa
Obra de Enrique Mirones, monge do mosteiro cisterciense de Sobrado dos Monxes, na Galiza. Foto © João Paulo Costa.

Ensaio

Na presença do (in)acreditável

| 17/05/2025

 

«No meu princípio está o meu fim».[1]

A ressurreição, como a maioria ou senão a totalidade dos temas e conteúdos filosóficos e teológicos, bem com o dizer quotidiano, é um assunto de linguagem. É também uma tarefa de palavras, pois o pensamento de ou sobre realiza-se através das leis da linguagem. Sem a consideração analítica desta dimensão prévia à própria experiência – a da linguagem e da sua expressão – torna-se difícil hoje saber do que se fala quando se fala de ressurreição.

Em bom abono da verdade, podemos dizer que é também árdua a tarefa para qualquer outro tipo de vocábulo ou assunto. Veja-se, por exemplo, a palavra amor, prostituída até às costuras, ou outras palavras que, na cacofonia da repetição pastoral sem pensamento das profundezas, como os termos «esperança» ou «consolação», pouco ou nada expressam de substantivo, porque lhe falta o vivido e a experiência da passagem das situações-limite. A este respeito, sobre a cacofonia dos discursos, vale a pena citar por inteiro o cineasta e escritor italiano Pasolini, realizador do monumental Evangelho Segundo São Mateus, que à pergunta se o Evangelho o consolava, respondia assim:

Não busco consolações. Busco de forma humana, de vez em quando, alguma pequena alegria,
uma pequena satisfação, mas as consolações são sempre retóricas, irreais e não são sinceras…
Está a falar do Evangelho de Cristo? Não, neste caso excluo completamente a palavra “consolação”: para mim, o Evangelho é uma enorme obra intelectual, uma enorme obra de reflexão que não consola: que preenche, que integra, que regenera…
A consolação, que faço eu com a consolação? “Consolação” é uma palavra como “esperança”.[2]

Notar-se-á certamente aqui uma hiperbolização da lucidez pasoliniana, mas ela aponta para uma visão em profundidade das coisas. Sendo o mediático e o impactante a força motriz da comunicação, pelo menos hoje, tudo o que é de ordem intelectual, o que é qualidade reflexiva, é relegado para segundo plano, considerado coisa «difícil» ou «exigente». O espaço público quer opinião («achologia», a ciência do «acho que») e não reflexão ou pensamento vertical, diz-se. As palavras ou termos incapazes de provocar acontecimentos ou eventos, de integrar e regenerar novamente o ser do existente, formas ou estilo de vida transformadores de realidade, são inócuas ou vazias de significação. É, nesse sentido, muito pertinente a interrogação do teólogo belga Gesché: «Poderemos dizer adeus às palavras que podem conter mais do que pensamos poder ver sob a poeira do hábito e da repetição?».[3]

Pascua © Enrique Mirones, monge do mosteiro cisterciense de Sobrado dos Monxes, na Galiza. 

O mesmo acontece com a palavra ressurreição. Como dar razão da nossa fé fora de um quadro estável e conformado da nossa mesa de trabalho, em que tudo faz sentido para o nosso espírito, excepto quando confrontado com a real violência da imperceptibilidade por partes dos outros daquilo que pensamos, cremos ou sentimos? Como afrontar verdadeiramente esta implausibilidade quase total de toda a dogmática e moral cristãs? Poderemos recorrer ao velho recurso ou slogan que é preciso dar testemunho de vida, de fé, de esperança e caridade… Mas será isso suficiente num tempo que se pede menos razões do que emoções, menos logos e mais sentimento, menos razoabilidade e mais autenticidade?

O teólogo belga Adolphe Gesché perguntava-se se podemos simplesmente dizer adeus às palavras que nos excedem e superam sempre mais a nossa capacidade de as compreendermos e até experienciar, não só porque somos limitados e finitos, mas porque as enchemos da poeira do hábito e da repetição, sem força poética, sem imaginação poética e sem folgo de novos pensamentos. Se no passado essa linguagem resultou porque não haveria de resultar agora, dado que há uma constante humana universal que a todos atrai à experiência religiosa cristã, diz-se? O que fazer então?

Mais do que inovar amadoramente ou imaginar sem enraizamento outras coisas, trata-se de revisitar realidades, conceitos, ideias e experiências que constituem o tesouro espiritual vivo da fé. Isso implica um exercício de inteligência de abertura ao diverso, sem renunciar à proposição das verdades em que se acredita, e de as frutificar com as formas sensíveis que temos à nossa disposição, pois é aí que essas verdades ou palavras ou conteúdos antigos podem ganhar uma nova força, uma nova vida, uma nova potência de significado e de sentido para a nossa contemporaneidade.

«Salvação», «além», «eternidade», «destino»: em que é que essas palavras se tornaram? Durante muito tempo pretenderam narrar-nos o Cântico dos Cânticos da nossa existência. Hoje, eles deixaram as margens do significado e até mesmo da boa lei. E ainda: aqui há vozes que não pertencem ao círculo cristão e que parecem ser visitadas por estas palavras que nos deixam. Então, e se escondida nessas palavras, bem ou mal expressas, estivesse uma questão fundamental que o homem se coloca, a saber, qual o sentido da sua existência e o estatuto que lhe quer dar? Poderemos, sem revisitá-las a fundo e com outra gramática experiencial, dizer adeus a essas palavras que talvez escondam, sob a poeira dos hábitos e a miséria das repetições, mais do que acreditamos? Um abandono não examinado, por sua vez, torna-se dogmático.

Obra de Enrique Mirones, monge do mosteiro cisterciense de Sobrado dos Monxes, na Galiza. Foto © Paulo Bateira, cedida pelo autor

A ressurreição é o acontecimento da abertura do possível. Cada um de nós existe entre o canto em que se encontra e a totalidade, isto é, na contradição aparente entre o mínimo e o máximo. É nesse espectro existencial que o possível se abre, nesse ser-entre de um tempo que se prolonga e de um espaço que se expande. A ressurreição é a realização plena do sujeito transcendental, mesmo se o eu empírico morre. É um «desvio criativo» que nos mantém eternamente em vida, na vida eterna divina.

A linguagem da ressurreição («ressuscitar», «ser ressuscitado», «levantar-se» ou «erguer-se», «despertar») cria um sentido e significado novo e inédito. O dizer, o anúncio faz o acontecimento e o acontecimento faz a comunicação. Assim, a metáfora não é um abandono da realidade em questão, mas uma tentativa de sublinhar o seu significado e de orientar o nosso olhar; é um verdadeiro meio de conhecimento, exprimindo melhor o que já sabemos ou experienciamos minimamente. Exprime também uma realidade que chega até nós, uma espécie de hapax, o inesperado. É aquilo a que Ricoeur chama um «desvio criativo» ou, na expressão de Malraux, de «deformação criadora», de torsão no centro de gravidade da realidade. A metáfora é, assim, «a ilustração mais impressionante do poder da linguagem para criar significado através de ligações sem precedentes, através das quais a relevância semântica emerge subitamente das ruínas da relevância anterior».[4]

A ressurreição como horizonte metafísico transforma o «sentimento trágico da vida» (Miguel de Unamuno), sendo esse evento primaveril em cada manhã do mundo o sentimento poético de toda a existência crente. Atravessar a «noite escura» da nossa existência é afirmar essa «brancura luminosa» (Jon Fosse) de um Oitavo Dia recriador das Ressurreições que atravessam a noite da nossa existência (Denis Moreau). Como não podemos escapar das catástrofes existenciais e toda a vida humana está repleta de uma dimensão trágica, no final, há apenas uma pergunta que importa: derrubados, oprimidos, seremos capazes de nos levantar? Quer dizer: Ressuscitar.

Obra de Enrique Mirones, monge do mosteiro cisterciense de Sobrado dos Monxes, na Galiza. Foto © João Paulo Costa.

É nesta linha que a expressão do filósofo Emmanuel Falque fará todo o seu sentido quando afirma que a «ressurreição muda tudo», a nossa própria encarnação e finitude, na medida em que Deus assume tudo o que há em nós para transformar o nosso ser, para sermos de uma outra maneira no mundo pelo nosso corpo aqui, já não corpos de corrupção, mas corpos luminosos de glória, como um novo nascimento para a vida do tempo do Reino. Nesse sentido, a ressurreição poderá ser bem a «metamorfose teológica da estrutura filosófica do mundo»[5], o sobressalto de espanto e surpresa diante da irrupção do evento dos eventos, «Páscoa de nossas páscoas» (J. A. Mourão), o coeficiente pascal de toda a precária existência humana e cósmica.

Como pensar a Ressurreição?, interroga-se o filósofo François Gachoud. Há aqueles que acreditam e os que não acreditam! Onde está a verdade? Deixemos a questão em aberto e abordemo-la de um ponto de vista filosófico. Como podemos pensar a ressurreição? O que é que este acontecimento revela sobre a força da vida? Como interpretar este fenómeno do ponto de vista dos textos? O que é que dizem as testemunhas? Porque é que os discípulos de Cristo passam da dúvida à certeza? Se o reconheceram vivo, o que é que aconteceu realmente e o que é que podemos dizer? Que dizer do estatuto desse corpo glorioso e da sua manifestação carnal? Se Cristo ressuscitou verdadeiramente, o que é que isso muda na nossa relação com a vida e a morte? François Gachoud sabe que o mistério que envolve este acontecimento ultrapassa qualquer demonstração.

Há dois axiomas violentamente paradoxais: «É preciso acreditar em Deus porque ele não existe» e «É preciso não acreditar em Deus porque ele existe». O mesmo paradoxo se aplica ao acontecimento da ressurreição: «Demasiado boa para ser verdade» (ou demasiado verdade para ser somente boa) e «Confusão do desejo com a realidade» (Luc Ferry). Os críticos da religião (Feuerbach, Zola, Luc Ferry…) olham para a ressurreição como ilusão gozosa ou ficção consoladora.

 

Páscoa 2023. Obra de Enrique Mirones, monge do mosteiro cisterciense de Sobrado dos Monxes, na Galiza. Foto: Direitos reservados.

Em contraste com estas posições, o renomado exegeta Daniel Marguerat coloca água na fervura, com toda a sua competência: «Porém, mantenhamo-nos na sobriedade do Novo Testamento. Relendo o conjunto da vida de Jesus, as narrativas pascais não fazem mais do que dar-lhe um futuro. Se a sua morte é mais do que um fiasco pessoal, e se o Crucificado (ele mesmo!) é reabilitado por Deus, então é essencial recordar o que ele disse e fez, porque as suas acções foram habitas por Deus».[6] Aqui entra toda a possibilidade de uma fenomenologia da memória afectiva e do reconhecimento memorial, ainda por fazer, dos seus actos e gestos inaugurais da palpitação de um tempo existencial.

A fé na ressurreição de Cristo abre espaços de confiança para um outro modo de ser, a uma outra maneira de viver o mundo na eternidade absoluta de Deus. Sobre a ressurreição enquanto experiência de fé a filosofia nada pode dizer, apenas abrir para um horizonte de possibilidade, para uma abertura dimensional do mundo no interior do próprio mundo da vida, sem nada ou pouco podendo dizer sobre possibilidade de outros mundos que não o mundo em que vivemos, pensamos e sentimos. Essa precaução metodológica não significa que a ressurreição seja impossível, mas apenas a pode considerar como um acontecimento inapropriável e inexprimível, deixando à teologia ou ao acto de fé a formulação de um adentramento real na experiência narrativo-poética da ressurreição.

Como afirma o filósofo Peter Sloterdijk, parafraseando Kierkegaard, «a fé só é válida ao abrigo de uma decisão pela confiança, para a qual em última instância não se pode aduzir razões de recurso exteriores. Fé significa, para Kierkegaard, não ceder a um impulso de imitação confortável no quadro eclesial e imperial, mas sim fazer uma escolha na presença do inacreditável. Nesta escolha, descobre Kierkegaard “como se fosse a primeira vez” a palpitação do tempo existencial».[7]

É esta decisão radical pela confiança que nos incita a fazer uma escolha absoluta relativa (dado que nos escapa sempre algo, sem que o que agarramos deixe de conter a evidência da sua verdade), uma opção vital em presença do inacreditável, que escapa ao folclore sacro ou ao poder das figuras externas tutelares que, idolátrica e muito sub-repticiamente, se pretendem substituir ao discernimento singular de cada crente.

P.S. – A imagem «Páscoa 2023» é do extraordinário artista-monge cisterciense Enrique Mirones, infelizmente ainda desconhecido, dada a sua condição monástica, que coloca sob a luz pascal todas as misérias humanas, como uma nova descida de Cristo ao inferno caótico do humano hodierno, nomeadamente o horror da guerra que dizima tantas vidas humanas inocentes. Agradeço a Mirones a sua amizade e cortesia por me ter autorizado acompanhar este texto com a sua obra.

 

João Paulo Costa é presbítero católico e investigador em filosofia no CECH da Universidade de Coimbra. Autor de Indícios – à escuta dos traços de Deus (UCP editora, 2016) e de À Sombra do Invisível – fragmentos de um crer sapiencial (Documenta/Sistema Solar, 2020).

 

Notas
[1] T.S. Eliot, Quatro Quartetos, Edições Ática, Lisboa, 1983, p. 29.
[2] Pier Paolo Pasolini, Entrevistas Corsárias. Sobre a política e sobre a vida, V.S., Lisboa, 2022, p. 84.
[3] Adolph Gesché, La destinée, Cerf, Paris, 1995, p. 10.
[4] Paul Ricoeur, Réflexion faite, éd. Esprit, 1995, p. 45-46.
[5] Emmanuel Falque, La métamorphose de la finitude. Essai sur la naissance et la résurrection, Cerf, Paris, 2007, p. 14.
[6] Daniel Marguerat, Vida e Destino de Jesus de Nazaré, Guerra & Paz, Lisboa, 2025, p. 258.
[7] Peter Sloterdijk, Temperamentos Filosóficos. Um breviário de Platão a Foucault, Edições 70, Lisboa, 2021, p. 80.

 

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