Aos poucos a vida tem regressado à normalidade e os velhos hábitos, esquecidos com o medo da pandemia, voltaram a fazer parte do nosso quotidiano. Assim aconteceu com as Conferências do Terraço, durante anos promovidas pelo Graal num espaço onde as pessoas se conheciam (ou passaram a conhecer-se) pois no final a palavra era dada à assistência e os debates eram vivos e representativos de diferentes posicionamentos. O acolhimento era sempre reconfortante e embora houvesse por vezes grandes divergências quer entre os oradores e o público quer entre a própria assistência, a cordialidade mantinha-se, reforçada com o chá e os bolos que no fim se serviam. Eram encontros em que participávamos com prazer pois embora surgissem divergências havia um respeito mútuo para o acolhimento da diferença. No espaço do Terraço valorizava-se o debate de ideias, num clima de grande cordialidade. Todos se exprimiam livremente, sentindo-se à vontade em manifestar discordâncias e em levantar problemas.
A pandemia fez com que durante anos este espaço se mantivesse fechado e, sinceramente, não tinha esperança de que voltasse a abrir pois as pessoas envelheceram, a vida transformou-se e os encontros com muita gente eram evitados. Felizmente esta minha incredulidade foi anulada pois o Terraço reabriu e fê-lo com chave de oiro no mês de Fevereiro, com o lançamento do livro de Isabel Allegro, Arte Política e Transcendência [1].
Não irei falar do conteúdo do livro até porque o tenho estado a ler devagar, com a atenção que merece. Fico-me na apreciação do que representou o seu lançamento para o público do Graal e dos familiares e amigos da autora. Foi bom reencontrar gente que há muito não via. E embora constatasse a existência de muitos cabelos brancos [2] verifiquei com prazer que o envelhecimento não perturbara o gosto pelo debate e pelo cruzamento de opiniões diferentes. A apresentação do livro, feita por Jorge Wemans, foi exaustiva e motivadora pois tocou nos pontos essenciais da obra, cruzando-os com a actividade e com a vida da autora, deixando no entanto em aberto uma série de questões que aguçaram a curiosidade dos futuros leitores. E a Isabel ao responder-lhe manteve-se igual a si própria – simples, rigorosa e profundamente conhecedora dos temas abordados, apresentando-os, enquadrando-os e dando aos futuros leitores diferentes abordagens possíveis.
Não sendo nostálgica do passado, tinha no entanto saudades dos encontros promovidos pelo Graal, pensando que eles corresponderiam a uma época que dificilmente ressuscitaria com o mesmo vigor do antigamente. A sessão deste lançamento abriu uma janela de esperança no que respeita a futuras sessões. O vigor intelectual e o interesse do público mostraram que continua a existir gente interessada em ler, pensar e trocar ideias. Importa agora manter esta chama que se reacendeu a partir do livro da Isabel, e convidar de novo as pessoas que habitualmente frequentavam o Graal, oferecendo-lhes novas oportunidades para manterem aceso o diálogo e a troca de ideias.
Que esta sessão tenha sido um primeiro passo para novos encontros, é o meu desejo, e certamente o desejo de muita gente que, tal como eu, gostaria de partilhar experiências e leituras ocorridas no tempo (felizmente ultrapassado) da pandemia.
[1] Isabel Allegro de Magalhães, Arte, Política e Transcendência, Lisboa, Caleidoscópio, 2026.
[2] Note-se que também com surpresa vi muita gente loira, em obediência a esta nova moda de alterar o colorido capilar.
Maria Luísa Ribeiro Ferreira, Professora Catedrática (aposentada) da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.










