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Lançamento do livro de Isabel Allegro
Jorge Wemans na apresentação do livro "Arte, Política e Transcendência" de Isabel Allegro de Magalhães. Foto © Graal (Terraço)

Nas margens da filosofia (LXXXIII)

Na reabertura do Terraço

 

Aos poucos a vida tem regressado à normalidade e os velhos hábitos, esquecidos com o medo da pandemia, voltaram a fazer parte do nosso quotidiano. Assim aconteceu com as Conferências do Terraço, durante anos promovidas pelo Graal num espaço onde as pessoas se conheciam (ou passaram a conhecer-se) pois no final a palavra era dada à assistência e os debates eram vivos e representativos de  diferentes posicionamentos. O acolhimento era sempre reconfortante e embora houvesse por vezes grandes  divergências quer entre os oradores e o público quer entre a própria assistência, a cordialidade mantinha-se, reforçada com o  chá e os bolos que no fim se serviam. Eram encontros em que participávamos com prazer pois embora surgissem divergências havia um respeito mútuo para o acolhimento da diferença. No espaço do Terraço  valorizava-se o  debate de ideias, num  clima de grande cordialidade. Todos se exprimiam livremente, sentindo-se à vontade em manifestar discordâncias e em levantar problemas.

A pandemia fez com que durante anos este espaço se mantivesse fechado e, sinceramente, não tinha esperança de que voltasse a abrir pois as pessoas envelheceram, a vida transformou-se e os encontros com muita gente eram evitados. Felizmente esta minha incredulidade foi anulada pois o Terraço reabriu e fê-lo com chave de oiro no mês de Fevereiro, com o lançamento do livro de Isabel Allegro, Arte  Política e Transcendência [1].

Não irei falar do conteúdo do livro até porque o tenho estado a ler devagar, com a atenção que merece. Fico-me na apreciação do que representou o seu lançamento para o público do Graal e dos familiares e amigos da autora. Foi bom reencontrar  gente que há muito não via. E embora constatasse  a existência de muitos cabelos brancos [2] verifiquei com prazer que o envelhecimento não perturbara o gosto pelo debate e pelo cruzamento de opiniões diferentes. A apresentação do livro, feita por Jorge Wemans, foi exaustiva e motivadora pois tocou nos pontos essenciais da obra, cruzando-os com a actividade e com a vida da autora, deixando no entanto  em aberto uma série de questões que aguçaram a curiosidade dos futuros leitores. E a Isabel ao responder-lhe manteve-se igual a si  própria – simples, rigorosa e profundamente conhecedora dos temas abordados, apresentando-os, enquadrando-os  e dando aos futuros leitores diferentes abordagens possíveis.

Não sendo nostálgica do passado, tinha no entanto saudades dos encontros promovidos pelo Graal, pensando que eles corresponderiam a uma época que dificilmente ressuscitaria com o mesmo vigor do antigamente. A sessão deste lançamento abriu uma janela de esperança  no que respeita a futuras sessões. O vigor intelectual e o interesse do público mostraram que continua a existir gente   interessada em ler, pensar e trocar ideias. Importa agora manter esta chama que se reacendeu  a partir do livro da Isabel, e convidar de  novo as pessoas que habitualmente frequentavam o Graal, oferecendo-lhes novas oportunidades para manterem aceso o diálogo e a troca de ideias.

Que esta sessão tenha sido um primeiro passo para novos encontros, é o meu desejo, e certamente o desejo de muita gente que, tal como eu, gostaria  de partilhar experiências e leituras ocorridas no tempo (felizmente ultrapassado) da pandemia.

 

[1] Isabel Allegro de Magalhães, Arte, Política e Transcendência, Lisboa, Caleidoscópio, 2026.
[2] Note-se que também com surpresa vi muita gente loira, em obediência a esta nova moda de alterar o colorido capilar.

 

Maria Luísa Ribeiro Ferreira, Professora Catedrática (aposentada) da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

 

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