Publicamos hoje o décimo primeiro e penúltimo texto sobre 1700 anos do Concílio de Niceia (atual İznik, Turquia), de uma reflexão de Vítor Rafael, colunista regular do 7MARGENS, doutorando em História e Cultura das Religiões pela FLUL – Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e investigador na Universidade Católica Portuguesa – Centro de Investigação em Teologia e Estudos da Religião. [Ler textos anteriores]
Na ressurreição da carne
Cremos na ressurreição da carne. Este artigo do Credo de Niceia era uma resposta aos gnósticos que afirmavam que não havia ressurreição da carne. Mas como interpretamos nos dias de hoje a ressurreição da nossa carne, da nossa debilidade? Para alguns, a ressurreição é ir para o céu, onde estaremos para sempre com Deus. Mas seria essa a ideia dos primeiros cristãos? Como entendiam eles a ressurreição da carne?
A morte é deveras um problema para o ser humano. A ideia de finitude humana, a de que um dia deixaremos de viver, aterroriza todos nós. Mas é deveras um facto que, assim que nascemos, começamos a envelhecer, a morrer aos poucos, até ao dia em que seremos confrontados com a própria morte. Nas nossas sociedades ocidentais, teima-se em fazer da morte um tabu. Evitamos falar dela aos mais novos e ignoramo-la nas nossas conversas do nosso dia a dia. A velhice, a doença e tudo o que nos faz lembrar a morte são temas que evitamos. Os próprios doentes são arremessados para um recôndito quarto algures num hospital, longe da família e dos amigos. O luto, cada vez mais privado e solitário, é quase suprimido e feito de maneira muito rápida. Esse medo do desconhecido, da nossa extinção, da escuridão, da solidão e do sofrimento, é afinal uma marca indissociável da nossa fragilidade e finitude.
Mas o Credo afirma enfaticamente que a morte não é o fim. Talvez um dos melhores textos que dispomos nas escrituras e que realça a centralidade da doutrina da ressurreição, seja o capítulo 15 da primeira carta do apóstolo Paulo aos Coríntios. Depois de ter mostrado as evidências acerca da ressurreição do Senhor (1 Coríntios 15:1-8), Paulo afirma mesmo que, se de facto a ressurreição não ocorreu, é vã toda a fé. O Senhor foi as primícias dos que morreram (versículo 20). Ora as “primícias” remete para uma leitura no Antigo Testamento, em Levítico 23:10-11, onde os primeiros frutos, que eram levados perante o Senhor, consagravam toda a restante colheita. Paulo está aqui a afirmar que Jesus é como esse feixe, o das primeiras colheitas, representando toda a restante colheita. Através da Sua morte e ressurreição, garante a todos nós, inclusive ao que estão já mortos e aos que um dia viverão, a vitória sobre a morte através da ressurreição do corpo.
Paulo fala de um corpo glorioso, “psíquico” que, tal como o de Jesus, iremos um dia ter, preparado para essa nova criação que Deus tem em mente estabelecer. Entre os versículos 35 e 49 desse mesmo capítulo 15 da Primeira Carta aos Coríntios, Paulo responde a algumas perguntas que a Igreja lhe tinha colocado acerca da natureza desse corpo. O corpo ressuscitado é corpo “psíquico” (sôma psukhikón, ou seja, corpo dotado de vida humana) (I Coríntios 15:44). Algumas versões traduzem psukhikón por espiritual, o que pode gerar alguma confusão, ao pensar nesse corpo como sendo não corpóreo. Não será um corpo “mundano”, mas sim “espiritual”, um corpo que terá em si a reversão de toda a decadência e vaidade, e que tanto caracteriza os nossos corpos actuais. Esse glorioso corpo estará assim preparado para uma vida plena de propósito, no sentido do mesmo ser uma transformação radical do nosso “eu” e do nosso paradigma de relacionamento com Deus.

Jan Brueghel, o Velho (1568-1625): O Paraíso Terrestre, pormenor de animais, (1607-08). Museu do Louvre, Paris.
Mas ressurgirmos para onde e para quê? Existe hoje em dia a ideia muito divulgada que, depois de ressurgirmos, iremos todos para o Céu, onde estaremos para todo o sempre com os anjos em perpétua adoração e louvores a Deus. Essa ideia, influenciada pela filosofia grega platónica, além de ensinar a imortalidade da alma, também afirmava que as almas retornariam para Deus, de onde eram originárias. Não era essa a ideia dos primeiros cristãos, os quais acreditavam que, nessa nova criação, Deus traria o Céu à Terra (Apocalipse 21:1-2). Para muitos de nós ainda é muito difícil, nos dias de hoje, entender essa realidade: os muitos hinos que cantamos, as orações proferidas e os sermões que ouvimos, persistem em falar de nós “indo para o céu”.
Muitas passagens das escrituras enfatizam a ideia de que um dia o próprio Deus viria habitar no meio de nós, ideia tão bem espelhada na tenda do tabernáculo, nessa peregrinação perpétua que faremos um dia com o nosso Deus. O texto do Apocalipse afirma mesmo essa ideia extraordinária: “Eis o tabernáculo de Deus no meio dos seres humanos. E Ele habitará com eles, e eles serão os Seus povos; e Ele próprio estará com eles [como] Deus deles.“. Afirma mesmo que “já não haverá noite e não precisarão de luz da candeia e de luz solar, porque o Senhor Deus os iluminará; e reinarão pelos séculos dos séculos.” (Apocalipse 22:5). Talvez tenhamos de repensar a ressurreição da carne numa perspectiva holística, em que todo o cosmos, todo o universo que Deus criou, estão igualmente incluídos nos planos de Deus. Faz agora sentido que, embora ainda que não totalmente realizável, possamos ser igualmente responsáveis no cuidado da natureza e de toda a criação de Deus, aqui e agora.
Antes de mais importa fazer aqui um pequeno poslúdio, para expor uma questão acerca da dicotomia entre o corpo e alma, a qual não era assim tão evidente no judaísmo antigo. A alma está seguramente ligada à vida (Génesis 9:4; Levítico 17:11). A palavra “alma” é traduzida da palavra hebraica nephesh, sendo igualmente usada para se referir a outras criaturas, como é usada na passagem de Génesis 1:24. Certamente que hoje em dia temos uma definição diferente para a palavra “alma”, mas, para os hebreus, significava simplesmente uma criatura viva e corpórea – tanto podia ser humana, animal, peixe, ave ou insecto. Hoje, de facto, as traduções modernas da Bíblia geralmente traduzem nephesh em Génesis 2:7 como “ser vivo” ou “criatura viva”. O autor do livro sapiencial de Eclesiastes afirma que “os vivos sabem que morrerão, mas os mortos nada sabem; para eles não haverá mais recompensa” (Eclesiastes 9:5). Igualmente, os profetas Isaías e Ezequiel apenas se referem à ressurreição dos mortos (Isaías 26:19, Ezequiel 37:28) e não à imortalidade da alma. Será tão somente no período inter-testamentário, no livro do profeta Daniel e certamente influenciado pelas ideias gregas da imortalidade da alma e pelo zoroastrismo, que se dá esse avanço de afirmar que, na ressurreição final, uns irão para a vida eterna, outros para o desprezo eterno (Daniel 12:2).








