Publicamos hoje o nono texto sobre 1700 anos do Concílio de Niceia (atual İznik, Turquia), de uma reflexão de Vítor Rafael, colunista regular do 7MARGENS, doutorando em História e Cultura das Religiões pela FLUL – Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e investigador na Universidade Católica Portuguesa – Centro de Investigação em Teologia e Estudos da Religião. [Ler textos anteriores]
Na Santa Igreja Católica [Universal]
A imagem pretende retratar o primeiro Concílio Ecuménico de Niceia, convocado pelo imperador romano Constantino no ano de 325. Neste concílio foram criadas pela primeira vez declarações de fé e cânones da ortodoxia doutrinária, com a intenção, obviamente, de definir a unidade das crenças para toda a cristandade. Mas, ao longo da história da Igreja, ocorreram diversos cismas e divisões no seu interior. O que se pretende afirmar com a crença na Santa Igreja Católica? Será a união de todas as igrejas cristãs pretendida por alguns ou será antes a união mística, composta por todos os crentes de todos os tempos e de todos os lugares, os quais aceitaram Jesus como cabeça?
Segundo dados estatísticos, dos cerca de quase dois mil milhões e meio de cristãos que existem em todo o mundo, metade identificam-se como católicos romanos. A outra metade está dividida entre milhares de denominações protestantes, ortodoxas e outras comunidades minoritárias. Neste artigo do Credo, existe pelo menos uma palavra que divide os cristãos católicos romanos dos protestantes, a palavra latina catholicam ou grega καθολικὴν, traduzida respectivamente por católica e universal. Não existem ambiguidades quanto ao significado, pois tanto o termo latino como grego significam universal, mas é consensual que, quando o termo católica é usado em letras minúsculas, distingue a fé ou a Igreja como um todo, independentemente do lugar, cultura ou classe, em oposição a determinado grupo de cristãos, como, por exemplo, a Igreja Católica Romana.
Contrariamente ao que se possa pensar, a Igreja, mesmo nos seus primórdios, nunca foi homogénea. Paulo, na sua Primeira Carta aos Coríntios, depara-se já com divisões internas entre os membros dessa comunidade (1 Coríntios 11:18). Muitos dos Pais da Igreja, como Clemente de Roma, Inácio e Ireneu, registam igualmente nas suas cartas e homilias condenações àqueles que promovem divisões e contendas entre os irmãos.

Michael Damaskinos (1530–1593): Retrato imaginado de Ário (detalhe de um ícone da Escola Cretense, c. 1591, representando o Primeiro Concílio de Nicéia).
Ocorreram sucessivas divisões no seio da Igreja. As primeiras deram origem à Igreja Ortodoxa Copta, no ano 451. No ano de 1054, dá-se o Grande Cisma que divide praticamente a Igreja em dois grandes blocos, a Ocidental, latina, e a Oriental, ortodoxa grega. No século XVI, ocorre outra grande divisão com a Reforma Protestante, encabeçada pelo monge agostiniano Martinho Lutero. Não era, de facto, intenção de Lutero dividir a Igreja, mas sim dar início a um amplo debate com vista a uma profunda reforma da mesma face à corrupção e forma como o alto clero se comportava e a dirigia. Não conseguindo, infelizmente, alcançar esse objectivo, o movimento acenderá um rastilho que irá ocasionar o surgimento de inúmeras denominações independentes até aos dias de hoje. Calculam-se que existam actualmente mais de trinta mil denominações cristãs em todo o mundo.
Temos assim, actualmente, imensas instituições cristãs, cada uma com a sua própria história, cultura, corpo doutrinário, tradições e liturgia. Mas, apesar das diferenças que possam existir entre cada uma delas, podemos afirmar desde já que a palavra igreja (do grego, ekklesia) significa basicamente “os chamados para fora”, um grupo de pessoas distinto, seleccionado e tirado para fora de algo. Se podemos definir essa “congregação” como a totalidade dos crentes que vivem num determinado lugar, numa igreja local, também podemos defini-la como a Igreja universal, mística, composta por todos os crentes de todos os tempos e de todos os lugares, os quais aceitaram Jesus como cabeça. As escrituras usam várias metáforas para falar da Igreja, mas uma das mais famosas é certamente a do corpo (Romanos 12:5; Efésios 1:22-23; Colossenses 1:18). Todos os cristãos formam um só corpo em Cristo, individualmente são membros uns dos outros, mas Cristo é a cabeça da Igreja. Talvez seja esse o sentido mais amplo da palavra “católica” no credo.
Já quando o Credo diz que a Igreja é santa (do grego hagios, separado), não é certamente devido ao facto de as pessoas que a constituem serem mais “boas” do que as outras que não fazem parte dela, mas simplesmente porque Jesus assim a adjectiva (Efésios 5:25-26). A Igreja é assim constituída por aqueles que, sendo falíveis e imperfeitos como qualquer um, são amados por Deus. O próprio Deus se refere à Igreja como propriedade sua (Tito 2:14).
Na comunhão dos santos

Pintor espanhol anónimo (c. 1400): A Trindade Adorada por Todos os Santos. Metropolitan Museum of Art (Nova Iorque)
A palavra comunhão, do grego κοινωνία (koinonia), significa participação, ter em comum, compartilha. O relato dos Atos dos Apóstolos, onde a palavra aparece pela primeira vez, revela bem o espírito de partilha entre os primeiros cristãos, os quais “Perseveravam no ensinamento dos apóstolos e na solidariedade, na fração do pão e nas orações” (Atos 2:42). A própria palavra comunhão está intimamente ligada a uma outra, a eucaristia, que era usada para indicar as “acções de graças” antes das refeições, tanto informais como as que estavam associadas à ceia do Senhor. Será através da comunhão íntima que temos uns com os outros que temos também a comunhão plena com o Senhor (1 Coríntios 10:16-17).
A comunhão (do grego koinonia) com os santos, pressupõe igualmente, tal como é proposto pelo autor da Carta aos Efésios, o esforço para a unidade de todos os crentes. Existe um só corpo, um só Espírito, uma só esperança. Existe um só Senhor, uma só fé, um só baptismo, um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos, por meio de todos e em todos (Efésios 4:3-6).
Não se esperará que haja homogeneidade na Igreja. Ela nunca existiu. Também essa noção de que uma só facção ou tradição da Igreja detenha só ela a verdade é no mínimo risível, especialmente quando a verdade de que falamos é o próprio Deus. Só Ele é a Verdade. Talvez as várias tradições da Igreja devam ser vistas como as diferentes facetas de um diamante refractando a mesma luz ou como um só corpo que tem muitos membros. As diferenças que existem entre as diferentes igrejas podem e devem ser motivo de celebração, se tão-somente se acredita que o Espírito Santo vivifica, unifica e move todo o corpo da Igreja, porque n’Ele somos igualmente todos baptizados (1 Coríntios 12:13).








