Sem Bashar al-Assad, os curdos que vivem na Síria voltaram a poder celebrar sem medo o Naw-Ruz, festividade que coincide com o equinócio da Primavera e que para aquela que é a minoria étnica mais numerosa do país assinala o início do Ano Novo. E muitos outros grupos – árabes, siríacos, circassianos, turcomanos e armênios – juntam-se à festa, que simboliza também a resistência e a liberdade de um povo.
Ao longo das mais de cinco décadas do regime de Assad, as celebrações do Naw-Ruz enfrentaram “fortes restrições e assédio”, recorda o jornal Enab Baladi, que nasceu em 2011 por iniciativa de um grupo de jornalistas dos arredores de Damasco, com o objetivo de veicular “a mensagem pacífica do povo sírio”. De acordo com este periódico, “o regime combatia qualquer reunião pública” no dia de Naw-Ruz e “não considerava as celebrações como um evento cultural, mas uma manifestação política” e uma “ameaça”.
Apesar disso, os curdos continuaram a assinalar este dia, fosse “secretamente ou por meio de exibições simbólicas nas suas casas, demonstrando determinação em manter a sua identidade cultural”. E todos os anos havia notícias de prisões, ou mesmo mortes, de elementos da minoria curda que se haviam reunido nesse dia.
Este ano, dias antes da celebração do Naw-Ruz, o presidente sírio de transição, Ahmed al-Sharaa, assinou um acordo histórico com o comandante das Forças Democráticas Sírias (FDS), Mazloum Abdi, que entre outras coisas reconhece a comunidade curda como parte integrante do estado sírio, garantindo os seus direitos à cidadania e direitos constitucionais, sublinha o jornal Enab Baladi.
E se por um lado “o regime de Assad trabalhou durante anos para promover o sectarismo e desmantelar o tecido social da Síria, ao mesmo tempo que minava a paz civil”, por outro “os sírios sempre se opuseram a essas tentativas, frequentemente gritando em suas muitas manifestações revolucionárias que ‘o povo sírio é um'”.
Neste momento, em que a retórica do ódio continua ainda a ser alimentada por indivíduos de várias fações, “é essencial expressarmos a nossa solidariedade e unidade, e darmos uma imagem verdadeira ao mundo de que somos um povo que vive junto harmoniosamente, e devemos traduzir isso no terreno através das celebrações partilhadas”, assinala a investigadora social síria Wadha Othman, citada pelo jornal.
Para Othman, as celebrações culturais e religiosas, se participadas por membros de outras comunidades, transmitem precisamente essa mensagem ao mundo inteiro, “de que somos um povo capaz de conviver sem sectarismo ou racismo e de que a nossa pertença primária e final é à Síria, ao mesmo tempo que apreciamos as nossas diferenças e partilhamos as nossas alegrias e tristezas”.

Família curda celebra o Naw-Ruz no distrito de al-Basuta, noroeste da Síria. Foto © Samer Daboul
Este primeiro Naw-Ruz após a queda do regime é, assim, ” uma oportunidade real para os sírios confirmarem à comunidade internacional que o acordo histórico entre as SDF e o estado sírio é um acordo real no terreno, e que os curdos são de facto uma parte essencial do povo sírio”, defende a investigadora.
Até porque “Naw-Ruz” não é apenas uma celebração curda. A expressão, de origem persa, significa “novo dia” e dá nome a uma festividade que começou a ser celebrada há mais de três mil anos pelo Zoroastrismo – religião monoteísta com origem na antiga Pérsia (atual Irão) – e que ainda hoje é assinalada por mais de 300 milhões de pessoas no Médio Oriente, Ásia Central e não só [ver 7MARGENS], de diferentes formas.
Na Síria, a maior parte das celebrações começa na noite de 20 para 21 de março, quando fogueiras são acesas como um símbolo de liberdade e vitória. Este ritual é associado à lenda do jovem curdo “Kawa, o Ferreiro”, que terá trounfado sobre o rei tirânico Zahhak, tendo acendido fogueiras nas montanhas do Curdistão em sinal de vitória. Os homens vestem trajes verdes, enquanto as mulheres usam vestidos coloridos inspirados na natureza e nas suas flores. É tradição dar-se passeios pelo campo, fazer churrascos ao som de cânticos tradicionais curdos, e dançar o “joubi”. Este ano, isso finalmente poderá acontecer a céu aberto, e com a participação de todos os que queiram celebrar a liberdade.
(Imagem de destaque: Pormenor do cartaz de votos de feliz Naw-Ruz da organização The Global Coalition)
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