Na Tanzânia, com o Graal

| 12 Jan 2024

Um ponto de luz
Que me conduz
Aceso na alma
(Sara Tavares)

Dar es salam. Tanzânia

Sobrevoando Dar-es-Salaam à noite. Foto © Teresa Vasconcelos

“O Novo nasce todos os dias e em todos os lugares do planeta. O Novo está dentro de nós, se nos dispusermos a acolhê-lo. Também a Luz na escuridão, pontos de Luz a iluminar a noite. Luz na asa de um avião, asa de um anjo que esperamos, em atenção profunda”, escrevi eu aos amigos na minha usual mensagem de Natal, escrita no avião de regresso da Tanzânia.

Estar novamente neste país do Leste Africano, desta vez para doze dias de reuniões de trabalho e formação no Centro do Graal de Kisekibaha (5 a 17 de dezembro), numa região bem perto da montanha do Kilimanjaro (a mais alta montanha de África) foi um ponto de luz que acendeu a minha alma. A fotografia que tirei no avião de regresso é elucidativa. Também faz sentido citar o fragmento do poema musicado da saudosa Sara Tavares.

Karibu: Bem-Vinda! Sabor tropical. Como eu gosto e me sinto bem neste clima! Cada vez mais me pergunto se tenho sangue africano (valerá a pena fazer um teste de ADN?), porque me identifico e alimento com aquela imensa vitalidade e sentido de hospitalidade, alegria, calor humano e solidariedade, tudo rente ao corpo e à terra…apesar de vidas tão duras.

Não, não fui trepar a montanha – as neves eternas vêm-se ao longe no meio de extensas plantações de sisal –, nem fazer um apetecível safari, nem mesmo até às praias doces, azuis e apetecíveis de Zanzibar. As plantações de sisal pertencem a corporações internacionais que apenas dão emprego aos trabalhadores locais para a colheita. Entretanto, a pequena agricultura de subsistência vai desaparecendo… Presentemente há um movimento de contestação porque o Governo quer retirar terra ao povo Massai e cedê-la às grandes multinacionais.

Fui à Tanzânia em trabalho do movimento do Graal, a que pertenço. A forma como o Graal assentou raízes na Tanzânia sempre me motiva (foi a segunda vez que lá estive…) porque nela vejo especialmente concretizadas as dimensões que mais prezo no Movimento: uma espiritualidade colorida [neste caso] bem enraizada na cultura africana, uma sólida preparação teológica das jovens em formação, uma real promoção e “empoderamento” das mulheres (prefiro a palavra empowerment, parece-me sempre mais dinâmica) e um trabalho profundo de transformação social e de apoio aos mais pobres, nomeadamente mulheres e meninas, não descurando o trabalho intergeracional e tomando como centro o cuidado extremo com a criação… ou não estivéssemos na África profunda.

Terra vermelha, sempre a terra vermelha, desta vez na estação das chuvas, em que o calor vai subindo de intensidade até parecer que a terra não aguenta mais e o céu pesado como que “se dispara” em bátegas de água, violentas, espessas, rápidas, inundando tudo, os caminhos de terra batida transformados em verdadeiros riachos. Depois tudo acalma, refresca com uma humidade diferente da nossa, a água penetra a terra rapidamente e é o verde que permanece, verde tenro e vivo, vegetação espessa, tudo a brotar da terra abençoada e fértil como uma mãe.

 

Kisekibaha, ao “jeito das primeiras comunidades cristãs”

Tanzânia. Graal

Kisekibaha é um centro integrado de formação/educação também usado para encontros  e instalado numa propriedade adquirida pelas primeiras pioneiras do Graal em África, situado num vale verde fértil em terra vermelho-ocre. Foto © Teresa Vasconcelos

 

Kisekibaha é um centro integrado de formação/educação que é também usado para encontros e seminários. Está instalado numa pequena propriedade adquirida pelas primeiras pioneiras do Graal em África (sem deixar de referir a África do Sul, onde o Graal esteve profundamente ligado à luta contra o apartheid). Situa-se num vale verde fértil em terra vermelho-ocre, enquadrado por montes verdes e graníticos. Trata-se de uma propriedade rural inteiramente auto-sustentada onde se vive um quotidiano bem frugal: toda a água da chuva, que cai abundantemente no verão tão verde desta zona tropical do centro da África, é recuperada em enormes reservatórios elevados, negros, acima dos edifícios – quem dera que tanta água pudesse “escorrer” para o Norte ao jeito do rio Nilo, regando o Sahel seco, desértico e ponto de saída para a Europa da penosa e perigosa migração climática.

Painéis solares oferecidos pelo Graal do hemisfério norte desenham-se nos telhados dos edifícios, permitindo luz eléctrica e saborear curtos chuveiros de água morna. Uma capela circular (semelhante a uma cubata) usada para a liturgia das horas ao longo do dia. Numa sanefa lateral no interior da capela brilha uma estátua de Nossa Senhora de Fátima (muito bela!) – não se imagina a devoção que há nestes países por Maria. Há oito anos carreguei esta estátua ao colo (literalmente!) aconchegada em camadas de plástico de bolha numa grande caixa de cartão, ao longo de milhares de quilómetros de avião e entre aeroportos. Para mim esse esforço representou uma real “peregrinação” a pé: a Senhora de Fátima deslocando-se para a África Central. Celebrações longas – há todo o tempo! –, cantadas e dançadas, liturgia riquíssima, ritualizada e ajustada à cultura, muitas palmas e tri-tris, tudo belo! Vozes místicas ao jeito do canto ortodoxo.

No centro de formação as jovens fazem a educação básica – swahili e inglês –, despertam para a problemática das mulheres, fazem arte e música (está-lhes na massa do sangue). Nenhuma jovem sai do centro sem uma formação técnico-profissional e as que tiverem o perfil adequado, são encaminhadas para o ensino médio ou superior. Sinto ser uma vida ao jeito das primeiras comunidades cristãs em que a vida em comunidade, a partilha de bens e de trabalho são associadas a uma centralidade da vida espiritual. Esta ação educativa inclui, claro, trabalho concreto na terra, aprendendo formas  de cuidar melhor dos animais, culinária e rudimentos de saúde.

Cultiva-se toda a espécie de legumes verdes, tão importantes na alimentação quotidiana. Além de uma variedade de cereais e sementes, há galinhas, coelhos, uma vaca, um porco que engorda com os restos dos alimentos e abundantes insectos, uns maiores, outros mais pequenos. Ao longo dos dias, uma osga amarelada fez-me companhia instalando-se no teto do meu quarto e foi comendo os mosquitos mais rebeldes. Algumas dessas “criaturas” tinham a ousadia de furar a rede que me cobria a cama. A osga livrou-me do mau dormir e foi engordando ao longo dos dias… Faz-se compostagem, plantam-se flores e arbustos que depois são vendidos em “vasos” reciclados a partir de garrafas de água vazias. À entrada da propriedade existe um moinho para fazer farinha de milho e um mini-posto de venda de produtos básicos – tudo aberto à população circundante. Até por lá vi as típicas “estrelas de Natal” (as poinsétias) envasadas e prontas a vender. Algumas árvores, da família das acácias, semeadas de flores vermelhas, eram apelidadas de “árvores de Natal”.

A terra vermelha espraia-se pelo caminho fora bordado de arbustos com flores brancas que têm um perfume semelhante ao jasmim. Contaram-me que um dia uma elefante-fêmea com sua cria (são especialmente perigosas quando levam a cria…) desceu pelo monte pelo lado oposto à savana à procura de água e alimento e invadiu a propriedade destruindo alguns edifícios, incluindo uma parte da capela. Nossa Senhora de Fátima escapou… mas contaram-me que foi um susto… Até um largo tanque artificial (chamam-lhe orgulhosamente our lake) de peixe de água doce alimenta quem vive na propriedade. O que há em excesso é sempre vendido ou dado a baixo preço, permitindo a auto-sustentação da propriedade mas também que a população que vive perto se alimente de peixe fresco. O cuidado com a saúde e a higiene é absolutamente notável, sob a supervisão da Avelina, uma médica do Graal que dirige o centro de saúde de Neema, numa aldeia próxima, inteiramente dirigido pelo Graal.

Deste modo a formação pode ser prolongada noutros centros do Graal em redor: ao nível da saúde – há agentes de saúde, enfermeiras e médicas que fazem o seu estágio no centro de saúde de Neema. Este centro de saúde presta assistência à população, nomeadamente na gravidez e primeiros cuidados materno-infantis… até uma sala de partos novinha em folha foi recentemente inaugurada. O objetivo é transformar este centro de saúde num pequeno hospital que inclua uma sala de operações.

Noutra aldeia uma lindíssima escola secundária em pavilhões (Escola Santa Teresa de Ávila), com o Kilimanjaro ao longe. Esta escola destina-se a jovens de todas as classes sociais e é considerada uma das quinze melhores escolas secundárias da Tanzânia. Organiza-se de um modo prioritariamente auto-sustentado, em regime de internato, com trabalho doméstico ou na horta e jardim (de manhã cedo) e ensino formal durante as longas tardes. Ao lado abriu recentemente uma escola básica (incluindo pré-escolar), a escola de Santa Imelda, destinada a meninas e rapazinhos da zona que são transportados em autocarros para a escola. Tudo funciona com doações e em geral não há apoio do Estado. Estas estruturas são locais de prática pedagógica das jovens e criam empregos locais, garantindo serviços básicos de qualidade às populações.

 

Feliciana, a educadora Montessori

“Feliciana usa os materiais montessori, construídos por ela própria. Foto © Teresa Vasconcelos

À saída da propriedade de Kisekibaha existe uma “escolinha” para as meninas Massai. Kisekibaha está em plena terra Massai. Uma professora/educadora formada pelo Graal aplica naquele contexto de pobreza o “método Montessori”, usualmente destinado a crianças de classe média em vários pontos do planeta. Há longos anos fui profissionalmente formada pelo método Montessori e trabalhei com crianças pobres e problemáticas das “ilhas” (bairros operários) da zona de Cedofeita, no Porto. O método funcionava bem com aquelas crianças difíceis.

A meu ver, hoje, a filosofia Montessori tem “involuído” para escolas privadas semeadas por todo o mundo destinadas às crianças das elites e de classe média-alta. Não era esta a orientação Montessori dos anos 30 do século passado em Itália. Feliciana, a educadora com quem conversei amplamente, usa os materiais montessori, construídos por ela própria, com as meninas do pré-escolar e do 1º ciclo, algumas mais velhas. A “escolinha” funciona em regime de internato com um “dormitório” destinado às meninas – a mais nova tem quatro anos de idade – e cada uma delas possui uma caixa ou mala onde guarda os seus pertences.

Na cama de entrada dorme a Feliciana. Há novas instalações sanitárias e uma bem recente cozinha (e respetivo “refeitório”), tudo doado pelo Graal dos Estados Unidos. Para sua privacidade a educadora tem um escritório mínimo mas confortável, onde faz café ou chá, aquece a sua comida, guarda registos e tem uma malinha de primeiros socorros. As crianças também cuidam de galinhas, coelhos (a grande novidade deste ano…) e de uma pequena horta ao lado de um poço, uma bananeira e uma árvore que dá pequenas mangas. Mas não faltam balancés e um relvado bem verde para as crianças brincarem. Feliciana afirma-se cansada: “Antes da covid havia algumas voluntárias do Norte da Europa que me ajudavam: são muitas meninas, ocupam duas salas”.

Algumas meninas mais velhas, vestidas com os seus vestidos coloridos, frequentam também a escola local juntamente com os rapazinhos e “habitam” a escolinha Montessori durante a semana. Mas a razão de ser deste projeto transcende os louváveis objetivos educativos: na cultura Massai as mulheres são dadas muito cedo em casamento e pratica-se a cruel tradição da mutilação genital feminina. Assim a estratégia do Graal é ajudar a protelar estes aspetos negativos da cultura tradicional, orientando as famílias para deixar ficar as meninas em regime de internato e terem direito a uma educação. Aos fins de semana vão para casa, outras vezes só nas férias escolares. Em alguns casos (poucos, felizmente) as meninas mais velhas regressam à escola excisadas. Mas há uma equipa de mulheres do Graal a fazer trabalho “de sapa”, muito concretamente com o povo Massai (uma delas há mais de 20 anos…): o  mais recente projeto é um sofisticado trabalho de engenharia que permitirá a algumas povoações Massai reter a água da chuva para uso próprio. Presentemente buscam-se financiamentos.

O povo Massai é um povo lindo, os homens nos seus mantos coloridos, altos e garbosos, lançados para o céu com as suas lanças e colares, pastoreando o gado, dignos, guerreiros… e com o telemóvel à cintura, o grande igualizador e instrumento de comunicação em África. Mas as mulheres Massai são muito mais frágeis, esquálidas, desgastadas por inúmeras gravidezes não acompanhadas e trabalho braçal no campo. Têm geralmente rugas precoces e dentes prematuramente estragados, vê-se que têm saúde débil e são elas sempre a carregar os filhos. Em geral, são submissas e não ousam questionar a cultura tradicional. Daí que faça todo o sentido a estratégia de empowerment seguida pelo Graal.

Meninas Massai. Tanzânia

Meninas Massai: “Algumas meninas mais velhas, vestidas com os seus vestidos coloridos, frequentam também a escola local juntamente com os rapazinhos e “habitam” a escolinha Montessori durante a semana.” Foto © Teresa Vasconcelos

 

São três horas de estradas apenas com uma faixa de rodagem em cada sentido para se chegar ao aeroporto do Kilimanjaro. A montanha ao fundo com um chapéu de neve. Tenho dificuldade em despegar os olhos da estrada e os meus pés fazem movimento de travagem na carrinha de tração às quatro rodas que nos leva de regresso. As minhas companheiras têm sempre a deferência de me colocar ao lado do experimentado condutor, para que eu possa olhar para a paisagem. Na Tanzânia conduz-se no sentido contrário ao nosso (a colonização foi inglesa) e, por muita confiança que tenha em Deus, não consigo ignorar as ultrapassagens a enormes camiões que atravessam o país, ou nervosas motorizadas que carregam três a cinco pessoas incluindo as crianças, em quase constantes traços contínuos que são meras “sugestões” para tornar o trânsito menos “perigoso” e caótico.

Feiras (lojas ao ar livre invadindo a estrada) onde se vende tudo quanto se possa imaginar, mulheres vestidas com coloridos panos ou vestidos tradicionais carregando as crianças. Mesquitas: muitas mulheres de véu muçulmano – o Graal trabalha lado a lado com muitas mulheres muçulmanas… por ali não vejo intolerância religiosa. Uma festa de cores, luz, movimento, um frenesim de atividade. Tanta vitalidade e alegria em condições sempre tão difíceis. Apetece-me sair do veículo protegido e atravessar cuidadosamente a estrada (um “projeto” altamente arriscado), juntar-me às mulheres em danças gingadas e palmas, com o bater de tambores e campânulas, na festa que há sempre que um grupo se junta simplesmente para con-viver.

Tecido Massai Foto © Teresa Vasconcelos

Não tive tempo para mais passeios, a viagem foi muito frugal também em termos “turísticos”. No pequeno aeroporto, descobri um conjunto de novas prateleiras (que iniciativa linda!) na pequena duty freeshop: uma espécie de “comércio justo” no meio de dispensáveis produtos de luxo. Cestos e outros objetos artesanais: individuais de mesa em palhinha recriados numa cooperativa de mulheres local, “bordados” ou “enfeitados” com sofisticação, com tecidos africanos magníficos; bolsas e sacos de mão em pano; cadernos de notas de vários tamanhos encadernados com tecidos locais, provenientes de uma cooperativa de apoio a jovens e adultos com necessidades especiais; animais da savana em tecido ou madeira. Grande criatividade e sofisticação. E, claro, as tradicionais mantas Massai… Foi o único momento que tive para adquirir alguns presentes de Natal para família e amigos. Mas confesso ter tido um gosto imenso em percorrer as “novas” prateleiras da freeshop e usar os meus últimos dólares em objetos de artesanato tão belos: compras necessariamente rápidas que incluíram saquinhos com castanhas caju tão apreciadas por nós. O intercomunicador chamava-nos para o avião.

Espero ter conseguido demonstrar a especificidade do Graal na Tanzânia: trata-se de um Graal de minoria católica num país maioritariamente protestante e muçulmano. Apesar de tantas diferenças, no terreno trabalha-se em conjunto. Há muito a fazer para assegurar a sobrevivência e garantir qualidade de vida para todos.  Que o Novo e a Luz possam emergir da escuridão. Obrigada, Tanzânia, pela chuva de esperança que me acendeu a alma!

Dezembro 2023

 

Teresa Vasconcelos é professora do Ensino Superior (aposentada) e participa no Movimento do Graal; contacto: t.m.vasconcelos49@gmail.com

 

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