Nacionalidade para sefarditas: perplexidades perante a proposta “antissemita” de alteração à lei

A descoberta da origem sefardita tem influenciado o trabalho de Judy Rodrigues, que vive em Bristol (Inglaterra). Nesta composição, incluiu a menorah que terá sido a primeira evidência da presença dos judeus em Portugal, encontrada em Mértola. © Judy Rodrigues.
Perplexidade perante a ideia de alterar a lei da nacionalidade e falta de explicações fundamentadas sobre a proposta. Estas foram as duas ideias principais do vídeo-debate promovido pela associação Sedes, acerca da proposta de alteração da Lei da Nacionalidade, no que diz respeito à concessão da nacionalidade portuguesa a descendentes de judeus sefarditas expulsos de Portugal nos séculos XV e XVI.
A iniciativa da Sedes – Associação para o Desenvolvimento Económico e Social decorreu ao final da tarde desta quinta-feira, 2 de Julho. Quer os dois intervenientes convidados, quer várias das cerca de quatro dezenas de pessoas que participaram insistiram na ideia de que não estão explicadas claramente as razões para mexer na lei que, mediante certas condições, permite atribuir a nacionalidade aos descendentes dos judeus expulsos de Portugal. “Estamos perplexos com as razões apresentadas para mudar a lei”, disse José Oulman Carp, presidente da Comunidade Israelita de Lisboa (CIL).
Joshua Ruah acusou a proposta de alterações, feita no Parlamento por um grupo de deputados do PS liderados por Constança Urbano de Sousa, de ser um reflexo de “antisemitismo puro”. Identificando-se como sefardita, afirmou que os seus antepassados já estavam no território português há muitos séculos, mesmo antes da nacionalidade. Simultaneamente militante socialista, confessou não saber o que fazer agora com a sua adesão política. “Vou ter de saber qual é a génese” da proposta, sublinhou também.
Maria de Belém Roseira, antiga ministra da Saúde e uma das intervenientes no debate, referiu que nunca houve nenhuma crítica à lei na altura da sua elaboração. Mas estavam mais frescas as posições de Mário Soares e Jorge Sampaio, que defendiam o papel de Portugal como integrador, disse. “Portugal é exemplar e reconhecido como tal, pela forma como procura integrar” os que querem vir para o país.
Por isso, afirmou que não se oporá a mudanças no decreto regulamentar, desde que elas não desvirtuem a lei. “Estamos a tratar de um erro histórico, que nos envergonha” como país, “e não da anexação” de territórios da Palestina por Israel, afirmou também, quando questionada sobre se haveria qualquer tipo de retaliação para com a política do actual Governo israelita.
Proteger o “capital de confiança” que Portugal ganhou
José Ribeiro e Castro, antigo dirigente e deputado do CDS, e que com Maria de Belém foi um dos principais impulsionadores da actual lei, contestou também as mudanças propostas. Defendendo que é muito importante proteger o “capital de confiança” que Portugal demonstrou perante os judeus, ao abrir a concessão da nacionalidade aos descendentes de judeus expulsos, acrescentou: “A comunidade judaica do Porto teve o atrevimento de propor” que a Assembleia da República ouça os mais de 16 mil judeus que já pediram a nacionalidade. “O PS não pode ser manuelino”, acrescentou.
Esther Mucznik, que está na comissão que tem analisado as candidaturas (a lei atribui essa primeira avaliação às comunidades judaicas de Lisboa e Porto), afirmou que tem havido com o Governo português um pacto de confiança, que “tem sido estritamente respeitado” pela comissão criada pela CIL e pela CIP.
A investigadora em temas judaicos acrescentou que não entende que se deva propor qualquer alteração à lei enquanto não se perceber claramente “os motivos que estão por trás”. “O que tem sido feito é tentar descredibilizar a lei e os seus intervenientes”, acrescentou.
José Ruah, da direcção da CIL, referiu que, ao contrário do que têm dito os defensores das alterações, não se notou nenhum extraordinário “aumento de procura” de pedidos, comparando com o ano passado, pelo facto de Espanha ter fechado o tempo previsto para a concessão da nacionalidade a judeus sefarditas. E José Oulman Carp, presidente da mesma Comunidade, também disse que a CIL continuará a fazer “todas as diligências para que a lei não seja alterada”. Quando muito, aceitará alterar alguma regulamentação.
Em causa, como o 7MARGENS tem noticiado, está a proposta da deputada Constança Urbano de Sousa (PS), no sentido de alterar a actual lei. A formulação da lei actual pede como requisitos a “tradição de pertença a uma comunidade sefardita de origem portuguesa, com base em requisitos objetivos comprovados de ligação a Portugal, designadamente apelidos, idioma familiar, descendência directa ou colateral”. A última proposta acrescenta a necessidade de ter (o texto usa o verbo “possuir”) uma “efectiva ligação à comunidade nacional”.
A proposta não tem o acolhimento das comunidades judaicas e várias figuras históricas do PS – além de Belém Roseira, também Vera Jardim, presidente da Comissão de Liberdade Religiosa, Manuel Alegre e Alberto Martins – também se pronunciaram contra a mesma ideia.
O debate integral está disponível na página da Sedes na rede social Facebook.
[related_posts_by_tax format=”thumbnails” image_size=”medium” posts_per_page=”3″ title=”Artigos relacionados” exclude_terms=”49,193,194″]
À Margem
A Paz à procura do Nobel
À hora a que este texto está a acabar de ser escrito – às 17h18 de quinta-feira, dia 8 – ainda não foi divulgado quem receberá, este ano, o Prémio Nobel da Paz. O leitor mais tardio, todavia, já saberá se a distinção foi, além de merecidamente atribuída a alguma pessoa ou organização, útil para chamar a atenção do mundo para algum conflito ou guerra que permanece por resolver, apesar dos esforços do laureado.
Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC
Breves
José Allamano e a Consolata
Exposição fotográfica revela 100 anos de história das missões
Por ocasião dos 100 anos da morte de São José Allamano, assinalados este ano, o Consolata Museu, em Fátima, tem patente ao público uma exposição dedicada a este fundador dos dois institutos missionários. [Texto de Juliana Batista].
Relatório Centro Rossing
Jerusalém: ataques violentos a cristãos quase duplicaram em dois anos
Os ataques violentos a cristãos em Israel e em Jerusalém oriental ocupada estão a tornar-se cada vez mais frequentes, tendo quase duplicado nos dois últimos anos, de acordo com organizações israelitas citadas pelo órgão público de rádio alemão Deutsche Welle (DW).
Apelo ao Governo
Cristãos do Bangladesh querem feriado no Domingo de Páscoa e maior representação na vida pública
Um cordão humano com mais de 100 pessoas exigiu, durante toda a manhã de dia 31 de março, em frente ao Clube Nacional de Imprensa, em Daca, que o Domingo de Páscoa fosse reconhecido pelo Governo do Bangladesh como feriado nacional. A concentração organizada pela Associação Cristã de Bangladesh reivindicou também lugares na vida pública reservados à representação dos cristãos e de outras minorias.
Sexta-feira Santa
Papa carrega a cruz e meditações da Via Sacra dão voz ao sofrimento dos povos do Médio Oriente
O Papa presidirá a todas as 14 estações da Via Sacra no Coliseu de Roma, carregando a cruz pessoalmente durante toda a liturgia, que será marcada pelas meditações escritas pelo frei franciscano Francesco Patton, ex-Custódio da Terra Santa (2016-2025) e que atualmente vive no santuário do Memorial de Moisés no Monte Nebo, na Jordânia.
Bíblia da CEP
Naum e Malaquias, mais dois livros proféticos com nova tradução
A comissão coordenadora da tradução da Bíblia da Conferência Episcopal Portuguesa acaba de divulgar as propostas de texto para o Livro de Naum e o Livro de Malaquias e aguarda agora o contributo dos leitores para melhorar a compreensibilidade dos textos.
Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias
Boas notícias
Apelo de Metz
Com Leão XIV, líderes das grandes religiões assumem compromisso de união pela paz e dignidade humana
Os representantes das principais tradições religiosas presentes em França comprometeram-se esta segunda-feira, na cidade de Metz, a aprofundar o diálogo entre si, a educar as novas gerações para o conhecimento mútuo e a permanecerem unidos na promoção da justiça e da paz.
É notícia
Entre margens
[Entre Margens]
Joana Lopes: 88 cravos à sua memória
No próximo Domingo, 11 de Outubro, Joana Lopes, que nos deixou a 5 de Fevereiro deste ano, completaria 88 anos. A Joana teve um papel importante na resistência católica contra a ditadura, tendo levado a cabo lutas muito importantes em que denunciava a guerra colonial. Tinha também uma atividade cívica intensa, assumindo a defesa de lutas políticas essenciais que não são menos importantes no nosso tempo. [Texto de Filipe Moisés].
[Entre Margens]
Guerras e mudanças de regime
Já muitos se terão esquecido, ao acompanhar a trágica e intrincada evolução da guerra entre Estados Unidos e Israel e o Irão, que, no seu início, essa guerra foi apresentada como tendo por objetivo primacial o de derrubar um regime ditatorial e opressor, que há pouco tempo havia reprimido de forma violenta e mortífera a contestação de largas canadas da população sedentas de uma liberdade que essa guerra lhes haveria de proporcionar. [Texto de Pedro Vaz Patto].
[Entre Margens]
A consciência da consciência revela-nos o saber dentro do não-saber
Com efeito, o sentido do mistério absoluto que a vida é começa com a consciência da consciência. A própria filosofia, de resto, começa com a consciência da consciência. É que, com a consciência da consciência, o homem desperta, assombrado, para a realidade misteriosa e radical da sua própria existência, e da Existência enquanto tal, como um todo. [Texto de Rúben Azevedo].
Cultura e artes
NAZA estreou nos cinemas
O filme israelita que documenta o genocídio em Gaza
Os realizadores Yuval Abraham e Rachel Szor trazem-nos um filme, NAZA, que é um objeto de cinema que ultrapassa os limites do ecrã e nos coloca frente a frente com a máquina de morte que Israel montou para destruir Gaza – cometendo genocídio.
Cinema
Pela primeira vez, um filme produzido com o Vaticano entra na corrida aos Óscares
É um feito inédito: uma produção realizada em colaboração com o Vaticano está a iniciar o processo de qualificação para os prémios da Academia de Hollywood. Trata-se de Green Lava, documentário de 39 minutos realizado por Lia Beltrami e Ali Aksu, que acompanha a vida de Giacomo Mattivi, um jovem italiano com distrofia muscular de Duchenne.
Em 17 de outubro
Arquitetura e artes para a liturgia: arcebispo de Braga convida para encontro
Arquitetos, engenheiros, artistas, presbíteros, responsáveis de comunidades paroquiais e todos os envolvidos na construção e adequação de espaços litúrgicos estão convidados a participar no I Encontro Diocesano de Arquitetura e Artes para a Liturgia, que se realiza no próximo dia 17 de outubro, em Braga.
a importância que uma farda tem (1)
“Tomo um verso de Guimarães Rosa: todo o dia é véspera, para breves glosas da nossa circunstância”, diz Luís Soares Barbosa, poeta e professor na Universidade do Minho, que a 24/25 de cada mês, assinalando a data da implantação da democracia em Portugal, publica um poema que é, “uma espécie de comentário sobre a nossa circunstância portuguesa”.
Sete Partidas
7Partidas
Vinte e cinco anos depois
Em 2001, vivíamos em San Francisco. Naquela segunda-feira, dia 11 de Setembro, fomos acordados pelo meu sogro, que nos ligava da Alemanha para avisar que os EUA estavam a ser atacados. Em San Francisco era ainda madrugada; em Nova Iorque passava das nove da manhã, e as duas torres já estavam a arder. [Texto de Helena Araújo].
Aquele que habita os céus sorri
[Entre o quadro e o mundo (31)]
Como pode a escola construir pontes num mundo de muros?
O novo episódio do podcast Entre o Quadro e o Mundo parte da metáfora da ponte para pensar o papel da escola num tempo marcado pela polarização, pelas diferenças culturais e geracionais e pela crescente presença da inteligência artificial.
Agenda
[ai1ec view=”agenda” events_limit=”3″]





















