Nada como uma teoriazinha da conspiração

| 23 Set 20

Em tempos de crise as teorias da conspiração são invariavelmente férteis. Face a uma pandemia não podiam deixar de aflorar como cogumelos. Venenosos…

teorias da consipração. maçonaria. símbolos

Antes de mais não nos deixemos impressionar pelo fenómeno, que não é novo e já foi mais intenso no passado, embora a sua difusão seja hoje muito mais rápida e universal, dados os avanços verificados nas tecnologias de comunicação e informação.

Joseph Uscinski e Joseph Parent (American Conspiracy Theories, 2014) analisaram as cartas dos leitores recebidas pelo The New York Times e o Chicago Tribune durante 121 anos e chegaram à conclusão de que, de facto, actualmente não há mais volume de alusões a teorias da conspiração. Pelo contrário, elas parecem até ter diminuído em finais do século passado, mas sempre existiram. Basta uma simples pesquisa no Google para dar de caras com umas quantas.

Mas a diferença essencial com que o mundo se depara hoje é que Donald Trump tem uma mentalidade conspirativa e utiliza-as não apenas para provocar desinformação geral, mas sobretudo a fim de intoxicar a sua base de apoio eleitoral. Por exemplo, Trump andou a proclamar aos quatro ventos que Barack Obama não tinha nascido nos EUA e que, portanto, estaria a usurpar a Casa Branca, pois nunca poderia ser presidente por não ser cidadão americano. Em 2015, sessenta por cento dos apoiantes do actual presidente não só estavam convencidos disso, como acreditavam no boato de que Obama era muçulmano.

Inconformados com as críticas à catastrófica gestão da epidemia pela administração Trump, Bill Gates tornou-se um dos alvos preferenciais das teorias da conspiração sobre o coronavírus, sendo acusado de ter criado o vírus para ganhar dinheiro e poder controlar digitalmente os seres humanos em todo o mundo. De acordo com a imprensa, só entre Fevereiro e Abril, surgiram 1,2 milhões de referências a tais disparates nas redes sociais (no Facebook: 16 mil) e na televisão. Chegaram a somar 18 mil menções diárias, havendo mesmo quem apele à morte do fundador da Apple.

Outra teoria popular é que as torres 5G estão a propagar a covid-19. Ou que indivíduos armados entraram numa pizzaria para salvar crianças de um esquema de tráfico sexual organizado por Hillary Clinton. Os movimentos anti-vacinas baseiam-se igualmente neste tipo de teorias conspiratórias, tal como sobre o vírus: Os técnicos de saúde não percebem nada disto, as estatísticas estão manipuladas, os economistas são ignorantes e os jornalistas escondem as notícias.” Nancy Rosenblum diz mesmo que este fenómeno se insere “especificamente na deslegitimação da democracia, ao atacar as ideias de oposição leal, que é o coração da política democrática, e a necessidade de conhecimento para governar. Os conspiradores não têm interesse em governar. Esse facto precisa de ser sublinhado. O conspiracionismo tem tudo a ver com derrotar os inimigos e é, por vezes, apocalíptico.”

Como é que chegámos aqui? A luta contra o conhecimento foi potenciada pela internet e o crescimento exponencial das redes sociais, abrindo caminho a que qualquer ignorante explane aí ideias estrambólicas e até, eventualmente, delírios desenvolvidos por doentes mentais anónimos. De resto, muitas das ideias disseminadas nas redes parecem saídas da cabeça de indivíduos em situação de ruptura psicótica.

Mas o campo religioso não fica imune ao fenómeno, que também apresenta as suas teorias da conspiração. O próprio Jesus Cristo foi alvo de um fenómeno semelhante por parte dos seus adversários religiosos na época. Acusaram o filho de Deus de estar possesso por um demónio (“A multidão respondeu, e disse: Tens demónio; quem procura matar-te?” João 7:20), e também de ter pactos com Belzebu (“E estava ele expulsando um demónio, o qual era mudo. E aconteceu que, saindo o demónio, o mudo falou; e maravilhou-se a multidão. Mas alguns deles diziam: Ele expulsa os demónios por Belzebu, príncipe dos demónios”, Lucas 11:14,15).

Como o meio religioso constitui também uma representação da sociedade em geral, é compreensível que também aqui surjam comportamentos bizarros e ideias estranhas, potenciados pelo substracto espiritual e transcendental que lhe é peculiar. Por isso, este é um campo fértil para as teorias da conspiração, onde qualquer ideia plantada pode assumir dimensões inimagináveis. Veja-se o caso emblemático do terraplanismo.

Nunca houve tanta informação disponível e nunca a ciência esteve tão desenvolvida, mas parece que o mundo está cada vez mais estúpido e intoxicado. Basta olhar para a qualidade dos governantes um pouco por todo o mundo. Talvez por isso, e pela primeira vez em 175 anos de existência, a Scientific American anunciou apoiar uma candidatura à Casa Branca, neste caso o democrata Joe Biden, pelo facto de Trump ter dado uma “resposta desonesta e inepta à pandemia covid-19”, mas também pela sua insistência em negar a realidade, uma vez que “obstruiu os preparativos dos EUA para a mudança climática, alegando falsamente que isso não existe”, retirando-se dos acordos internacionais que procuravam limitar o seu impacto.

A verdade anda a tornar-se um produto cada vez mais caro.

 

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Crónica

O Mercado e o Templo (15): Quando o conhecimento era um bem comum e gratuito

O Mercado e o Templo (15): Quando o conhecimento era um bem comum e gratuito novidade

As proibições teológicas souberam gerar meios de liberdade para mercadores e intelectuais, como seguros e universidades. A antiga cultura sabia que bem precioso, mesmo divino, era o conhecimento e protegia-o do lucro. Agora, na lógica do capitalismo, vêem-se apenas custos e benefícios. Este é o décimo quinto dos textos da série de crónicas que o 7MARGENS publica todas as quartas-feiras e sábados, da autoria de Luigino Bruni.

Breves

“Tragédia brasileira: risco para a casa comum?”

  Entre os dias 4 e 6 de Maio (terça a quinta-feira), um seminário internacional que se realiza em formato digital irá debater se a tragédia brasileira é um risco para a casa comum, numa iniciativa de várias organizações religiosas, de defesa dos direitos humanos...

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

É notícia

APAV lança vídeo sobre violência sexual contra crianças

A APAV – Associação Portuguesa de Apoio à Vítima acaba de lançar o primeiro de um conjunto de vídeos que visam a prevenção da violência sexual contra crianças e jovens, procurando capacitar as pessoas sobre estes crimes e a informá-las sobre como pedir ajuda.

Xexão (um poema e uma evocação em Lisboa)

No 30º dia após o falecimento de Maria da Conceição Moita, a comunidade da Capela do Rato, em Lisboa, vai celebrar, a 30 de Abril, às 19h, eucaristia evocando a sua vida. Tendo em conta as regras de segurança em vigor, e o número restrito de lugares na capela, é necessária uma inscrição prévia, que deve ser feita na página digital da Capela do Rato.

Quebra de receitas da principal Igreja financiadora do Vaticano

A Igreja Católica alemã, que é líder no contributo que dá habitualmente para as despesas da Santa Sé (juntamente com a dos EUA), teve “um verdadeiro colapso” nas receitas, em 2020, segundo dados divulgados pelo jornal Rheinische Post, citados por Il Messaggero.

Entre margens

O desaparecimento dos gigantes da fé novidade

De vez em quando temos a sensação de que se está a passar na porta giratória para um mundo diferente. Em especial quando se toma consciência de que alguns dos maiores gigantes do mundo cristão nos deixaram. O mais recente foi o grande teólogo e pensador protestante latino-americano René Padilla (1932-2021), o “pai” do conceito de “missão integral” que revolucionou as teologias do continente, em particular a missiologia.

Alma mutilada

Samuel caminhava dançante num jogo de toca e foge com a suave rebentação da extensa e espelhada beira-mar de Keri Beach. Entusiasmado com a chegada à nova cidade, discursava e gesticulava comparações entre as imensas praias por onde passara. O fiel Odara escutava-o ao longe, absorto no encantamento da devoradora paisagem. Caminhava a passos curtos e lentos, sentindo atentamente a incomum textura da areia que se lhe entranhava nos dedos dos pés a cada novo pisar

José Augusto Mourão… o frade, poeta e professor

Fazemos memória, nesta quarta-feira, 5 de maio, do décimo aniversário da partida para o Senhor de frei José Augusto Mourão op. Nascido em Lordelo, Vila Real, em 12 de junho de 1947, deixou-nos aos 64 anos. Conheci Frei Mourão quando, há já muitos anos, comecei a participar nas eucaristias do Convento de S. Domingos de Lisboa, levado pelo meu amigo Luís de França, também ele frade dominicano, entretanto já desaparecido do meio de nós

Cultura e artes

Alusões a um corpo ausente

Cada pessoa que fizer uma evocação de José Augusto Mourão fá-lo-á de um modo diferente. O percurso biográfico de Mourão presta-se a essa pluralidade quase heterodoxa, diferente das narrativas oficiais com as quais se canoniza uma vida e uma determinada biografia da mesma.

Flannery O’Connor e “Um Diário de Preces”

Flannery O’Connor foi uma escritora norte-americana (1925-1964), falecida aos 31 anos de lúpus, doença degenerativa precocemente diagnosticada (aos 12 anos) e que, depois de lhe terem sido dados cinco anos de vida, Flannery conseguiu, com uma vontade indomável, prolongar por mais 10 anos. Católica convicta, viveu em Savannah, na Geórgia, no sul protestante e conservador. Escreveu sobretudo sobre a decadência do sul da América. Fez uma licenciatura em Inglês e Sociologia e uma pós-graduação através de um writer’s workshop (oficina de escrita) na Universidade de Iowa. Escreveu 32 contos e dois romances.

O teatro da vida na leitura cristã de Luís Miguel Cintra

A revista E, do Expresso, deste fim-de-semana traz em várias páginas a súmula de mais de duas horas de conversa de Luís Miguel Cintra com a jornalista Luciana Leiderfarb, com as imagens da objetiva do repórter António Pedro Ferreira. Destaca-se dela não só uma grande personalidade do teatro, mas também uma pessoa de enorme sensibilidade e riqueza humanas.

Verbalizar o desejo

Em Rezar de Olhos Abertos, José Tolentino Mendonça assume a missão de guiar o crente e a comunidade (alguns textos surgem nesse contexto) na verbalização orante, inserindo-se assim numa tradição espiritual que conhece nos Salmos a sua expressão talvez mais plena e fecunda.

Sete Partidas

O regresso à escola má

Custa-me imenso falar de educação. A sério. Dói-me. Magoa fundo. O mal que temos tratado a educação escolar nas últimas décadas. Colectivamente. Geração após geração. Incomoda-me a forma como é delegada para planos secundários perante a suposta urgência de temas tão mais mediáticos e populares. Quando nada me parece mais urgente.

Aquele que habita os céus sorri

Agenda

[ai1ec view=”agenda” events_limit=”3″]

Ver todas as datas

Parceiros

Fale connosco

Pin It on Pinterest

Share This