Nada e Criação

| 29 Jul 2023

“Assim nos convidais a compreender o Verbo, Deus junto de Vós que sois Deus,
o qual é pronunciado por toda a eternidade e no qual tudo é pronunciado eternamente. (…)
Se assim não fosse já haveria tempo e mudança [no momento da criação],
e não verdadeira eternidade e verdadeira imortalidade.”
Santo Agostinho, Confissões

“A teoria do Big Bang, quer na sua versão tradicional, quer na versão inflacionária mais recente, propõe que o universo terá nascido literalmente do nada. Isso é dizer que tudo o que nós conhecemos, inclusive o próprio tecido espaciotemporal em que existimos, teve origem numa misteriosa “singularidade primordial” da qual pouco ou nada se sabe.” Gráfico: linha do tempo do universo com base na teoria do Big Bang e nos modelos de inflação. Imagem: NASA/WMAP.

 

 

A teoria do Big Bang, quer na sua versão tradicional, quer na versão inflacionária mais recente, propõe que o universo terá nascido literalmente do nada. Isso é dizer que tudo o que nós conhecemos, inclusive o próprio tecido espaciotemporal em que existimos, teve origem numa misteriosa “singularidade primordial” da qual pouco ou nada se sabe. Antes disso, nada existiria. Atualmente, a ciência tenta compreender o que significa este “antes”, procurando desvendar o que terá estado para além desse momento primordial – se é que é legítimo falar de um “antes”, quando um dos pressupostos da teoria é a de que, com o Big Bang, não foram apenas a matéria e o espaço que tiveram origem, mas também o próprio tempo.

Neste artigo, o que procuro discutir não é tanto a questão do tempo, mas antes a questão da suposta criação ex-nihilo do universo, isto é, a partir do absoluto nada. Ora, o que é o absoluto nada? É isso mesmo, tal como o nome sugere: nada, coisa nenhuma, nulidade irredutível. Sabe-se hoje que nada há no universo que não esteja pleno de alguma coisa; o vazio absoluto não existe. A todo o momento, partículas de energia são criadas e destruídas, e o próprio tecido espaciotemporal – que desde Einstein que sabemos poder ser dobrado, alterado, distorcido [é isso a gravidade, de resto] – não se trata de uma mera abstração geométrica, como acreditava a física clássica do séc. XIX, mas antes de uma verdadeira substância que permeia todo o universo. O nada enquanto conceito parece ser, por conseguinte, uma abstração pura. Absoluto-nada, segundo creio, não passa de absoluto e irredutível não-ser, do qual nada pode, em princípio, nascer, porque do nada, nada vem.

Assim sendo, como poderia o universo ter emergido do nada absoluto? (Se é que de facto existiu uma criação absoluta de todas as coisas, num determinado momento zero do tempo e do espaço.) É que, está bom de ver que a criação do tempo e do espaço implica ter havido um momento – e isto também é admitido pela teoria, na tal ideia de “singularidade” – no qual espaço e tempo ainda não existiam, o que quer dizer que, o que quer que tenha havido antes, se situava fora do tempo e do espaço – portanto, poderemos nós dizer, na eternidade. Mas, se estava na eternidade, não sujeito às leis do tempo e do espaço, quer dizer que não poderia estar sujeito à ideia de princípio ou de fim; seria, portanto, aquilo que desde sempre os filósofos têm designado por Ser, Absoluto, Substância, Uno, Deus. Algo que, por natureza, é eterno, imortal e impossível de nulificar, precisamente porque só ele existe, só ele absolutamente predomina, continuamente, sem falhas, pelo que o nada, ontologicamente falando, não pode nele ter lugar, nem em nenhuma parte onde só ele, em absoluto, predomine. Um universo onde coexistissem duas substâncias absolutas – o Ser e Nada – seria uma impossibilidade lógica e ontológica, porque um teria necessariamente de anular o outro (quase como a ideia de matéria e antimatéria, que tendem sempre a anular-se mutuamente, tal como terá acontecido no universo primordial, onde a primeira terá anulado a segunda, permitindo a formação do universo atual). Mais uma razão pela qual, a meu ver, o materialismo ingénuo que, desde Demócrito e Leucipo, defende uma descontinuidade no tecido fundamental da matéria e do universo, não faz qualquer sentido, precisamente porque admite que o nada possa coexistir com o todo, ou seja, que o tecido absoluto do universo seja uma trama em cuja constituição alterna o ser-absoluto e o absoluto-nada. Ainda que assim fosse, restaria a questão de saber como poderia o nada ter existência nessa trama sem ser algo, passível de provocar descontinuidade no real, como os espaços vazios que entremeiam a trama de qualquer tecido, ou o silêncio que alterna com as notas musicais, tão importantes para a produção da melodia como as próprias notas. Se existem e estão lá, são algo; se não existem, nada são, e portanto, nem o tecido nem a melodia existiriam porque a sua aparente descontinuidade seria, afinal, uma pura continuidade sem ritmo, estrutura, harmonia. O próprio “espaço vazio”, é cientificamente consensual, e como já antes referi, está longe de ser nada, quer porque está pleno de energia, quer porque o próprio espaço é algo, um misterioso tecido cósmico que permeia tudo, que se dobra, distorce, altera, ondula (hoje há dispositivos extraordinários que captam as chamadas “ondas gravitacionais”, que mais não são do que o próprio tecido espaciotemporal ondulando como a água de um lago para o qual se atira um pedra, produto de fenómenos cósmicos de enormíssima potência gravitacional, como a explosão massiva de uma estrela em fim de vida).

Demais, quando se diz que o universo brotou do nada, admite-se necessariamente que o universo nasceu dentro do nada e para o nada. Ou seja, ao inflacionar ou expandir, ele estaria a fazê-lo no nada e para o nada. Mas o nada absoluto será, por definição, não-lugar. Como poderá então o Ser nascer e expandir-se num absoluto não-lugar, tanto mais que, só com o nascimento do universo terá nascido aquele onde para o qual tudo poderia nascer ou expandir-se, ou seja, todos os lugares possíveis, já que com ele terá nascido o próprio espaço-tempo?

Se, para resolvermos esta questão, assumirmos que teria existido uma realidade pré-existente “fora” do universo nascente, onde este teria nascido e na qual e para a qual se teria expandido, então não podemos falar em criação absoluta a partir do nada. Algo já existiria, por certo muito diferente da estrutura espaciotemporal do universo atual, porquanto não estaria limitado pelo tempo e pelo espaço tal como o conhecemos, mas, ainda assim, certamente, algo.

Big Bang

Big Bang Criação do Mundo, obra da pintora romena contemporânea Viorica Ana Farkas. Direitos reservados.

 

É curioso que, quando se fala em inflação, fala-se numa abrupta expansão do espaço-tempo – uns poucos nanossegundos -, de algo pouco maior que uma cabeça de alfinete para algo de dimensão virtualmente infinita. Tudo estava contido nessa “cabeça de alfinete”, absolutamente tudo o que há e existe, e de repente, essa “cabeça de alfinete” expande-se infinitamente, sem limites. Mas, lá está, expande-se para onde, se antes dela, absolutamente nada existia? Tudo o que alguma vez existiu, existe e existirá estava contido nessa “cabeça de alfinete”; por conseguinte, para onde poderia ela expandir-se, senão dentro e para dentro de si própria? Mas, se isso fosse verdade, significaria que o universo primordial, uma vez nascido, nunca se poderia ter expandido para fora (passo a redundância), pois, fora de si, apenas o nada absoluto existiria. Não poderia, portanto, ter aumentado de dimensão. É que, ao confinar com o nada, não teria na realidade quaisquer limites, pois, como escreveu o filósofo e dominicano italiano Giordanno Bruno[1], nada conhecemos que confine em si próprio. Se tem os seus limites no nada, tal não será o mesmo que afirmar que não tem limites? Ou seja, que é ilimitado, infinito? Isto quer dizer que, desde o primeiro nanossegundo, o universo teria tido exatamente a mesma dimensão que tem hoje – infinito. Não teria havido qualquer expansão, como continua hoje a não haver. É possível que tenha havido muitos começos, muitas origens, mas uma origem absoluta ex-nihilo é muito mais difícil de conceber, sobretudo para um universo virtualmente infinito.

Temos de considerar novamente esta ideia: o absoluto-nada não é mais do que uma abstração. Quando, frente a frente connosco mesmos e com a nossa interioridade radical, tomamos consciência plena de que somos, de que existimos, não temos como fugir da conclusão de que algo existe necessariamente em vez do nada. E se algo existe necessariamente – ainda que fosse só eu e a minha interioridade -, como poderia isso ser finito, limitado ou descontínuo – isto é, confinando com o nada ou atravessado por nadas, absolutos vazios, na sua constituição fundamental? Não creio. A intuição mais radical que podemos ter do Ser a partir de nós próprios diz-nos que a realidade absoluta não pode ter como fundamento o absoluto-nada, e que aquela não pode alguma vez ter nascido para um dia perecer, porque nada pode vir do nada-absoluto ou a ele retornar. O que há, houve e haverá é um fundamental, eterno, imperecível e irredutível Ser, que é a origem e destino de todas as coisas, plenamente cheio de si mesmo, absoluta e integralmente posto em cada um das suas infinitas partes.

A criação, segundo creio, não pode jamais ser absoluta, tendo ocorrido uma vez para sempre, mas será antes do tipo que Santo Agostinho propôs há vários séculos: criação contínua, a todo o momento, aqui e agora. Não do nada e para o nada, mas da Absoluta Plenitude para a Absoluta Plenitude.

 

[1] Acerca do Infinito, do Universo e dos Mundos

 

Ruben Azevedo é professor e membro do Ginásio de Educação Da Vinci – Campo de Ourique (Lisboa).

 

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