Assim na Terra Como no Céu, de Clara Pinto Correia e José Pedro Sousa Dias, tenta desfazer dois mitos: o de que religião e ciência sempre se defrontaram e não podem deixar de entrar em conflito; e o de que a religião foi sempre um travão ao progresso científico. Nada mais falso, escrevem os autores. Ao longo da história, há um “paralelismo estreito entre o desenvolvimento do pensamento religioso e o crescimento científico” (p. 15) e “o impulso religioso funcionou durante milénios como uma das molas fundamentais do avanço do conhecimento, organizando e estabilizando o científico em torno do divino” (p. 17).
A ideia do conflito – uma “falácia de raciocínio”, dizem os autores (p. 15) – ficaria no imaginário dos cidadãos comuns em resultado do “cisma” do século XIX. É nessa época que os geólogos dão à idade da Terra um horizonte espantosamente infinito, recusando os 6000 anos que até aí, com base no livro bíblico do Génesis, eram calculados. Ao mesmo tempo, concluía-se que a criação não ocorreu num momento único, antes é um processo contínuo de transformação das espécies, tão dramático que fez com que o homem descendesse do macaco.
Há, afinal, uma longuíssima história em comum – eclipsada pela mitologia criada em torno da grande separação de águas entre religião e ciência no século XIX. Mostrar como ambas estruturaram o pensamento ocidental é o objectivo confesso do livro, que aliás tem como subtítulo “Ciência, Religião e Estruturação do Pensamento Ocidental”.
Para contar essa história, os dois autores fazem dois livros num só: José Pedro Sousa Dias vai aos evangelhos cristãos buscar a expressão “levanta-te e caminha” para título unificador dos capítulos em que procura as origens das noções de (e das relações entre) pecado e doença, medicina e cristianismo redentor, e onde conta as descobertas de plantas e animais que se vão fazendo no mundo e entram na ciência europeia e portuguesa. Sousa Dias sublinha o uso metafórico que medicina e cristianismo fazem das linguagens mútuas.
Clara Pinto Correia tenta desvendar “a semelhança do mundo”, a configuração que, ao longo de séculos, as pessoas comuns foram fazendo do mundo em que viviam. Para isso usa os assombrosos relatos de viagens, desde os verdadeiros best-sellers de literatura fantástica medieval até obras mais modernas, do século XVIII, em que a configuração do mundo continua a ser explicável através de actos divinos como a criação ou o dilúvio. A busca do lugar do Paraíso “a Oriente”, como diz a expressão bíblica, Jerusalém no centro da terra, as viagens de São Brandão, de Mandeville, do infante português D. Pedro ou de James Cook, são algumas das narrativas usadas para explicar como, a partir da motivação religiosa, se foi configurando o mundo e a visão que sobre ele havia.
É nestes percursos que os autores dão alguns exemplos de como a mitologia se foi criando. No século IV, já Santo Agostinho afirmava que a Terra era esférica, tal como o fariam depois Santo Isidoro de Sevilha ou São Tomás de Aquino (p. 154). Mais tarde, a actuação da Inquisição não deverá “ser isolada de um vasto contexto social e mental e do restante conjunto de resistências à mudança que a acompanham” (p. 301). No século XIX, os cientistas que protagonizaram a ruptura eram quase todos crentes e tinham “sérias preocupações teológicas” – aliás, foi em consequência dessa mesma ruptura que a investigação ligada à Bíblia se haveria de desenvolver, em áreas como a arqueologia.
A culpa, escreve Clara Pinto Correia, é de dois autores norte-americanos: John Draper (1811-1882) e Andrew Dickson White (1832-1918) – que entendiam o seu trabalho como uma “nova encarnação da luta de Galileu contra a Igreja (também ela com fortes laivos de mitologia, mas assumida como verdade absoluta no século XIX)” (p. 194).
É neste jogo a duas vozes que o leitor choca com alguma frustração: quando se refere a mitologia do processo de Galileu, ou quando se lê que “a religiosidade de Newton só constitui uma ‘surpresa’ ou ‘charada’ para os historiadores modernos” (p. 246), o leitor fica com água na boca, à espera de ver mais pormenores sobre esses casos – ou o próprio conflito de Darwin, também referenciado.
Na entrevista, os autores explicam que o seu propósito era dar a conhecer o pano de fundo em que evoluíram as ideias e mentalidades, e não repetir histórias já conhecidas. Mesmo assim, numa história da relação entre ciência e religião, dá vontade de ver também desmontados – até para o grande público – esses mitos, usando a expressão dos autores.
Assim na Terra Como no Céu
Autores: Clara Pinto Correia e José Pedro Sousa Dias
Edição: Relógio d’Água, 2003
472 páginas, 21,81 €
Este texto foi inicialmente publicado no Público em 13 de Dezembro de 2003, em co-autoria de António Marujo e Clara Barata, a quem se agradece a cortesia.










